Em Batatais, interior de São Paulo, uma fazenda de cana-de-açúcar está redefinindo os padrões do agronegócio brasileiro. Liderada pela engenheira agrônoma Laura Vicentini, a propriedade se tornou um verdadeiro laboratório de sustentabilidade, onde cada etapa da produção é pensada para otimizar recursos e gerar valor. Este modelo integrado não apenas transforma resíduos em adubo orgânico, mas também dá origem a uma cachaça de alta qualidade, nascida da própria planta.
O empreendimento se destaca por harmonizar a agricultura regenerativa, a inovação tecnológica e um forte protagonismo feminino, demonstrando um caminho promissor para o setor. A iniciativa de Vicentini sublinha a importância de práticas que restauram a saúde do solo, promovem a biodiversidade e constroem sistemas agrícolas mais resilientes e economicamente viáveis.
Uma Jornada de Inovação e Empreendedorismo no Campo
Laura Vicentini, nascida em Ribeirão Preto e com raízes familiares na cafeicultura, encontrou na cana-de-açúcar uma paixão e um campo fértil para a inovação durante sua formação em Jaboticabal. Após mais de uma década atuando em usinas do setor sucroenergético, ela percebeu o vasto potencial da lavoura e decidiu empreender ao lado de seu marido, Rodrigo Spina. Em 2017, o casal fundou uma empresa focada na produção de mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar, marcando o início de uma nova fase para a propriedade.
Essa transição foi impulsionada pela visão de Laura de que a cana-de-açúcar, frequentemente vista sob uma ótica tradicional, era, na verdade, uma cultura "riquíssima" com muitas possibilidades inexploradas para a sustentabilidade e a valorização de seus subprodutos.
Cultivo Regenerativo e Tecnologia de Ponta
A fazenda rompe com o modelo de cultivo tradicional ao adotar métodos inovadores e sustentáveis. Em vez de utilizar o tolete inteiro da planta para o plantio, a reprodução é realizada a partir da extração das gemas. Essas gemas passam por um rigoroso processo em laboratório, seguido por estágios em berçários e estufas, até se transformarem em mudas robustas e de alta qualidade. Esse método, aliado ao uso de bioinsumos e tecnologia avançada, otimiza o uso de recursos e promove um desenvolvimento mais saudável da cultura.
A abordagem regenerativa implementada pela fazenda não se limita ao plantio; ela permeia toda a gestão do solo e dos recursos hídricos, visando a saúde do ecossistema e a resiliência produtiva. Essa preocupação com o meio ambiente e a eficiência produtiva posiciona a fazenda como um exemplo de vanguarda no agronegócio.
Da Terra ao Destilado: O Ciclo da Cachaça Orgânica
A criatividade do casal se estendeu à valorização dos resíduos da produção. Eles identificaram a oportunidade de transformar o tolete da cana, gerado na extração das gemas para as mudas, em um insumo nobre para a fabricação de uma cachaça orgânica de alta qualidade, produzida dentro da própria fazenda. Essa iniciativa demonstra um ciclo produtivo completo e virtuoso, onde nada é desperdiçado, e cada componente da planta é aproveitado ao máximo.
Atualmente, a totalidade da produção da cachaça é destinada ao mercado de exportação, um testemunho de sua qualidade e do reconhecimento internacional. No entanto, o objetivo de Laura é expandir a comercialização também para o mercado nacional, visando à valorização de um produto genuinamente brasileiro. Ela enxerga um crescimento expressivo para a cachaça, destacando seu potencial de se tornar um orgulho nacional.
Liderança Feminina Transformadora no Agronegócio
Um dos pilares que consolidam a singularidade da fazenda é o forte protagonismo feminino. O trabalho desenvolvido por Laura Vicentini a levou a ser reconhecida na lista dos '100 Mais Influentes do Agronegócio', um marco que celebra não apenas sua expertise técnica, mas também seu estilo de liderança. Para ela, o cuidado com as pessoas e a construção coletiva são essenciais para o sucesso, uma abordagem que ela compara ao "sentimento materno" de unir e fazer com que todos ganhem.
Atualmente, cerca de 60% da equipe da fazenda é composta por mulheres, que atuam em diversas funções, desde o cultivo das mudas até os processos operacionais. Essa inclusão não apenas reflete a visão de Laura, mas também tem um impacto social significativo. Funcionárias como Silvânia de Oliveira Lima destacam o ambiente inspirador criado na fazenda, que encoraja outras mulheres a buscar e conquistar seu espaço em um setor tradicionalmente dominado por homens, mostrando que a liderança feminina é um motor de transformação e inclusão.
A fazenda em Batatais, sob a batuta de Laura Vicentini, transcende o conceito de mera produção agrícola. Ela se estabelece como um modelo multifacetado de sustentabilidade, inovação e empoderamento social, pavimentando um caminho para um agronegócio mais consciente, eficiente e inclusivo. Sua abordagem holística, que vai do manejo do solo à valorização do capital humano, demonstra que é possível conciliar alta produtividade com responsabilidade ambiental e social, inspirando o setor a buscar um futuro mais próspero e equitativo.
Fonte: https://g1.globo.com

