Uma extensa rede de lojas de pneus, identificada como Pneuz, está sob rigorosa investigação da Polícia Civil por suspeita de operar um esquema sistemático de venda de serviços desnecessários a clientes em diversas regiões do país. O delegado Lyon Ribeiro Silva, responsável pelo inquérito, revelou indícios contundentes de práticas que incluíam competição interna entre franqueados e funcionários, orientações específicas para persuadir consumidores, e o pagamento de porcentagens sobre as vendas desses serviços abusivos. Estima-se que mais de uma centena de pessoas, majoritariamente mulheres e idosos, tenham sido lesadas.
A Mecânica da Fraude: Como o Esquema Operava
As investigações detalham um modus operandi replicado em, pelo menos, 43 unidades da rede espalhadas pelo Brasil. O cliente, ao procurar a Pneuz para um serviço simples, como balanceamento ou troca de óleo, era alegadamente convencido a realizar uma série de reparos e substituições de peças que não eram realmente necessárias, elevando exponencialmente o custo final. Este processo não parecia ser aleatório, mas sim parte de uma estratégia de vendas cuidadosamente orquestrada.
O delegado Silva apontou que o sucesso do esquema era impulsionado por um ambiente de forte competitividade interna. Funcionários e franqueados eram estimulados a superar metas de vendas, inclusive dos serviços questionáveis, e eram recompensados com porcentagens sobre o faturamento. Essa estrutura interna reforçava a pressão sobre os clientes para aceitarem procedimentos caros e, segundo a polícia, injustificados.
Desdobramentos da Investigação e Alvos Vulneráveis
O inquérito policial teve início após múltiplas denúncias de clientes em Mogi das Cruzes (SP), que procuraram as autoridades para relatar práticas abusivas. Um caso emblemático envolve um consumidor de Ribeirão Preto (SP) que, ao ser convencido da necessidade de “reparos de segurança” em seu veículo, acabou desembolsando R$ 10 mil em serviços que a polícia considera desnecessários. O perfil das vítimas, em sua maioria mulheres e idosos, sugere que o grupo visava consumidores considerados mais vulneráveis à persuasão.
Operação Policial e Bloqueio de Bens para Ressarcimento
A seriedade das acusações levou a uma operação da Polícia Civil em Ribeirão Preto e Jardinópolis na última quinta-feira. Foram cumpridos mandados de busca e apreensão em cinco endereços estratégicos, incluindo duas lojas da rede Pneuz na Avenida Francisco Junqueira, a residência do proprietário da franquia local, a casa de uma funcionária e uma central de telemarketing que, supostamente, auxiliava na coordenação das vendas. O inquérito, instaurado pela Polícia Civil de Mogi das Cruzes, visa apurar os crimes de estelionato e associação criminosa.
Simultaneamente à operação, a Justiça de São Paulo autorizou o bloqueio de até R$ 4 milhões em contas bancárias dos investigados. Este montante, segundo o delegado, representa uma parcela estimada do dinheiro movimentado pelo grupo ao longo dos anos e tem como principal objetivo ressarcir as vítimas lesadas. O bloqueio atingiu o CEO da empresa, franqueados da região do Alto Tietê e alguns de seus funcionários, demonstrando a amplitude da apuração financeira.
Posicionamento da Empresa e Orientações às Vítimas
Em resposta às acusações e à operação policial, a defesa da Pneuz emitiu uma nota afirmando que não teve acesso ao conteúdo integral das acusações. A empresa nega veementemente qualquer irregularidade, declarando que sempre pautou suas atividades pela mais absoluta observância aos preceitos da probidade e boa-fé, buscando descredenciar as alegações de práticas abusivas.
O delegado Lyon Ribeiro Silva encoraja qualquer pessoa que se sinta lesada pela rede Pneuz a procurar a polícia para registrar um boletim de ocorrência. Adicionalmente, ele sugere que as vítimas busquem aconselhamento jurídico ou acionem um Juizado Especial Cível (JEC) para pleitear a reparação dos danos. Segundo Silva, a esfera cível pode ser mais eficaz para a indenização das vítimas, mesmo que a investigação criminal prossiga para responsabilizar os envolvidos.
A Polícia Civil continua a coletar depoimentos de ex-colaboradores e outras testemunhas, reforçando a complexidade e a abrangência do caso. A investigação da rede Pneuz sublinha a importância da vigilância do consumidor e a atuação das autoridades na proteção contra práticas comerciais enganosas que visam lucrar indevidamente às custas da confiança pública.
Fonte: https://g1.globo.com

