Frequentemente associada ao poderio do agronegócio e ao domínio da música sertaneja, Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, esconde uma vibrante e resiliente cena roqueira. Longe dos holofotes comerciais, músicos e entusiastas mantêm o gênero vivo, impulsionados pela paixão e dedicação. Contudo, essa efervescência musical se desdobra em realidades distintas, onde bandas de cover encontram um nicho estabelecido em bares locais, enquanto artistas com material autoral enfrentam barreiras e buscam reconhecimento em grandes centros, como a capital paulista.

Entre Clássicos e Composições Próprias: Duas Faces da Mesma Moeda

O cenário do rock em Ribeirão Preto se divide em caminhos opostos, embora igualmente dedicados. De um lado, bandas que interpretam clássicos do rock e punk, como a vocalista Juliana Prado, que comanda grupos como Ramoneros e tributos aos Beatles, encontram uma agenda consistente nos bares da cidade. Segundo Juliana, a fidelidade e o estudo aprofundado para reproduzir as canções originais atraem um público fiel e garantem espaço, provando que a energia e atitude do rock permanecem cativantes e relevantes para os fãs.

Em contraste, para os músicos que investem em repertório autoral, o trajeto é mais árduo. César Malnova, vocalista da banda gótica com influências punk Igreja do Sexo, exemplifica essa realidade. Após lançar um novo álbum, o grupo percebe que a maior parte de seus shows ocorre em São Paulo, onde o público demonstra maior abertura e valorização pela música original, até mesmo cantando as letras recém-lançadas. Essa disparidade evidencia um desafio significativo para o desenvolvimento de novas expressões artísticas na cena local.

A Busca por Palcos Maiores e o Apoio Independente

A dificuldade de encontrar espaço para a música autoral em Ribeirão Preto é um consenso entre os envolvidos na cena. Frederico Batista, produtor musical e colecionador de discos com vasta experiência no setor, corrobora essa percepção. Ele explica que, apesar da solidez da base de fãs de rock, a prioridade das casas noturnas por outros estilos musicais, especialmente o sertanejo, direciona a maioria das bandas para o formato cover, que é comercialmente mais atrativo. Para os projetos independentes e de nicho, como o gótico, a situação é ainda mais complexa.

A falta de incentivo local para a música original é tão acentuada que, para organizar festivais de rock gótico na própria cidade, Frederico frequentemente precisa contratar bandas de fora, predominantemente de São Paulo. A celebração de ver um grupo local, como a Igreja do Sexo, conquistando seu público na capital reflete a dualidade de um cenário que, embora ativo, ainda depende de outros centros para o pleno florescimento de suas criações autorais. É nesse contexto que o rock de Ribeirão Preto se consolida em seu próprio universo, resistindo fora do mainstream.

Paixão Inabalável: Música Como Vocação Além do Sustento

Para a grande maioria dos músicos de Ribeirão Preto, viver exclusivamente da arte é um privilégio raro. Tanto Juliana Prado, que atua como publicitária e corretora de imóveis, quanto César Malnova, tatuador, encaram a música como uma paixão profunda, um hobby profissional que coexiste com suas carreiras principais. Essa realidade é amplamente confirmada por Frederico Batista, que aponta a necessidade de um segundo emprego como algo comum para sustentar as bandas e seus integrantes na região.

Essa abordagem permite que os artistas preservem sua integridade criativa e a alegria de tocar. Juliana explica que manter a banda como um passatempo bem-feito a liberta das exigências comerciais de tocar o que não deseja, transformando a música em lazer, descontração e terapia, e não em uma obrigação financeira. Essa dedicação desinteressada é um dos pilares que sustenta a autenticidade e a persistência da cena rock de Ribeirão Preto, garantindo que a alma do gênero continue a vibrar.

A Resiliência do Rock e o Fôlego de Novas Gerações

Apesar dos desafios impostos pelo domínio de outros gêneros e pela busca por espaços fora da cidade para as produções autorais, o rock em Ribeirão Preto demonstra uma notável capacidade de reinvenção e persistência. A base sólida de fãs, a paixão dos músicos e o surgimento de iniciativas independentes, como os festivais organizados por Frederico Batista, são prova da vitalidade do gênero. Além disso, o renovado interesse por formatos como os discos de vinil sugere novas avenidas para o engajamento e a valorização da cultura rock.

A cena ribeirão-pretana, mesmo operando majoritariamente no underground, continua a ser um celeiro de talentos e um refúgio para quem busca a energia, a atitude e a diversidade sonora que o rock oferece. A dedicação em manter a chama acesa, seja reproduzindo clássicos com maestria ou desbravando novos sons autorais, garante que o rock não apenas sobreviva, mas continue a prosperar em sua própria maneira, enriquecendo o mosaico cultural de Ribeirão Preto e inspirando futuras gerações de roqueiros.

Fonte: https://g1.globo.com

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