O envelhecimento da população brasileira trouxe à tona discussões cruciais sobre diversos aspectos da vida adulta, e a sexualidade se destaca como um dos temas mais permeados por mitos e preconceitos. Longe de ser um capítulo encerrado, a intimidade e o prazer sexual persistem na terceira idade, desafiando a percepção coletiva de que a vida amorosa se restringe à juventude. Mulheres e homens acima dos 60 anos estão cada vez mais ativos e abertos à sexualidade, impulsionando a necessidade de um olhar mais atento e menos tabu sobre o assunto.

Desconstruindo Tabus: A Persistência do Desejo

A crença de que a vida sexual se encerra na velhice é um dos tabus mais arraigados em nossa sociedade. No entanto, essa noção é amplamente contradita por evidências e relatos pessoais. Carmem Fregonesi, uma inspiradora mulher de 97 anos de Ribeirão Preto (SP), personifica a quebra desses paradigmas. Com uma rotina autônoma e um relacionamento afetivo, ela afirma se sentir plenamente mulher, valorizando o prazer em sua vida, mas ressaltando que a felicidade vai além da busca incessante por sexo. Sua perspectiva ilumina como o desejo e a busca por conexão podem continuar a existir em qualquer fase da vida.

As Mutações Biológicas e Psicológicas da Intimidade

Naturalmente, o corpo passa por transformações significativas com o avançar da idade, que influenciam a dinâmica sexual. Segundo Lucia Alves Silva Lara, ginecologista e coordenadora da residência de Sexologia da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, nas mulheres, a menopausa e a consequente queda dos estrogênios reduzem a receptividade a estímulos eróticos e causam alterações corporais que podem afetar a autoimagem, além de provocar ressecamento e modificações na sensação do prazer genital. A diminuição dos androgênios também pode impactar o desejo sexual e a intensidade dos orgasmos.

Nos homens, a redução da testosterona está associada à diminuição do desejo sexual e ao aumento dos riscos de disfunção erétil. Contudo, a especialista enfatiza que, apesar de existir um imaginário coletivo de que apenas os homens mantêm sua vida sexual na velhice, ambos os sexos vivenciam mudanças que, se não compreendidas e abordadas, podem impactar negativamente o bem-estar relacional e a saúde sexual. Essas mudanças não significam o fim da vida sexual, mas sim uma adaptação necessária.

A Nova Realidade: Sexualidade Ativa e Plena na Maturidade

Apesar das alterações físicas e biológicas, a atividade sexual é cada vez mais uma constante na vida de pessoas com mais de 60 anos. Embora estudos amplos no Brasil ainda sejam escassos, geriatras e pesquisadores confirmam essa tendência. O geriatra Paulo de Oliveira Duarte, de Ribeirão Preto, estima que cerca de 50% de seus pacientes, tanto homens quanto mulheres, relatam manter relações sexuais após essa idade, com variações influenciadas por fatores como estado civil e mobilidade. A busca por medicações para disfunção erétil, mais comum entre homens, também é um indicativo dessa persistência do desejo e da vontade de manter uma vida sexual ativa.

Revisões teóricas, como a publicada em 2025 pelos pesquisadores Iandra Mikaelly Gonçalves da Silva e Raphael dos Santos Teixeira, apontam que entre 58% e 71% dos indivíduos acima dos 60 anos confirmam a permanência do desejo sexual. Essa realidade destaca a heterogeneidade da velhice e a inegável persistência do prazer sexual, desafiando os preconceitos e a concepção limitante da sexualidade na maturidade.

Bem-Estar Integral: Além da Sexualidade

A vitalidade na terceira idade vai além da esfera sexual, englobando um estilo de vida ativo e a valorização das relações interpessoais. Carmem Fregonesi exemplifica essa plenitude, atribuindo sua disposição à prática de atividades físicas – como caminhada e arremesso de peso –, aos cuidados contínuos com a saúde, incluindo visitas regulares ao ginecologista, e ao afeto de sua família. Para ela, a felicidade é construída em múltiplos pilares: ter filhos, netos e irmãs. Sua filosofia de vida ressalta que o bem-estar na maturidade é uma combinação de autonomia, saúde física e mental, e o suporte de laços familiares e sociais, onde a sexualidade se insere como um componente natural e enriquecedor, não como um fator isolado ou determinante da felicidade.

Fonte: https://g1.globo.com

Share.

Comments are closed.