O trágico acidente aéreo envolvendo uma aeronave da Voepass em agosto de 2024, que resultou na perda de 62 vidas em Vinhedo (SP), teve suas causas minuciosamente investigadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). O relatório final do órgão, divulgado recentemente, lança luz sobre uma complexa interação de fatores, incluindo uma surpreendente revelação sobre a capacidade da tripulação de processar informações críticas em momentos de alta pressão. Em meio às falhas operacionais e estruturais apontadas, o Cenipa introduz conceitos da psicologia cognitiva — a cegueira e a surdez por desatenção — para explicar como alertas vitais podem passar despercebidos, mesmo por profissionais altamente treinados.
Cenipa e a Dinâmica da Cabine: Fatores Contribuintes
A investigação da queda da aeronave não se restringiu a falhas mecânicas ou erros explícitos, mas aprofundou-se na complexa dinâmica da cabine de comando. O relatório do Cenipa destaca que um dos elementos cruciais para a tragédia foi a diminuição da aptidão dos pilotos para identificar e interpretar os alertas emitidos pelo próprio avião. Este cenário, caracterizado por uma <b>elevada carga de trabalho</b> na fase final do voo, é central para a compreensão dos mecanismos cognitivos que o órgão utiliza para elucidar o comportamento da tripulação. Além disso, o documento aponta deficiências em diferentes níveis, envolvendo a própria companhia aérea, a equipe de voo e a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), evidenciando uma cadeia de eventos multifacetada.
Cegueira e Surdez por Desatenção: Uma Análise Cognitiva
Para desvendar a falha na percepção dos alertas, o Cenipa se valeu de dois conceitos-chave da psicologia cognitiva: a <i>inattentional blindness</i> (cegueira por desatenção) e a <i>inattentional deafness</i> (surdez por desatenção). É fundamental compreender que estes fenômenos, conforme explica a psicóloga Maria da Conceição Correia Pereira, especialista em fatores humanos na aviação, não denotam negligência, falta de preparo ou falhas sensoriais da tripulação. Pelo contrário, eles sublinham os <b>limites naturais do cérebro humano</b> no processamento de informações, especialmente sob condições de estresse e sobrecarga cognitiva, sendo mecanismos que ajudam a explicar por que alertas não foram percebidos, e não suas causas diretas.
A Cegueira por Desatenção em Detalhes
A cegueira por desatenção ocorre quando um indivíduo tem sua visão direcionada a uma informação específica, mas o cérebro, completamente imerso em outra tarefa prioritária, falha em processá-la de forma consciente. Ou seja, os olhos captam a imagem, mas a percepção e o entendimento do que foi visto não alcançam a consciência plena. No contexto de uma cabine de avião, isso significa que um alerta luminoso no painel pode não ser interpretado ou sequer 'percebido' pelo piloto, cuja atenção está totalmente focada em outra demanda que, naquele instante, é considerada mais urgente.
A Surdez por Desatenção em Detalhes
De modo análogo, a surdez por desatenção manifesta-se quando um alerta sonoro atinge o ouvido do indivíduo, mas, devido à concentração em outras atividades, o cérebro não lhe confere a atenção necessária para ser devidamente interpretado. Maria da Conceição reitera que não se trata de uma deficiência auditiva, mas de uma limitação da atenção. Em um ambiente ruidoso e com múltiplos estímulos sonoros como a cabine de comando – onde coexistem comunicações com a torre, avisos eletrônicos, sons dos motores e conversas – a sobrecarga cognitiva pode levar à despriorização de certos estímulos auditivos, impedindo que o cérebro atribua significado a um alerta vital.
O Cenário Crítico da Cabine: Sobrecarga e Consequências
O relatório do Cenipa detalha o ambiente de alta exigência ao qual os pilotos estavam submetidos nos momentos finais do voo. Simultaneamente, eles precisavam gerenciar o <b>acúmulo de gelo na aeronave</b>, lidar com o mau funcionamento do sistema de degelo, manter a comunicação com a torre de controle e executar os procedimentos de aproximação. Em meio a essa complexa teia de responsabilidades, foram registradas também conversas de caráter pessoal, que, embora não sendo a causa primária, adicionaram uma camada de distração em um contexto já sobrecarregado. Os investigadores concluíram que, sob essas circunstâncias, a capacidade da tripulação de reconhecer e processar alertas visuais e sonoros foi significativamente comprometida. Um exemplo notável é o sinal de perda de desempenho, emitido enquanto os pilotos estavam em comunicação com o controle de tráfego; as gravações da cabine não revelaram qualquer indício de que esses avisos tenham sido discutidos ou devidamente processados.
Limites Cognitivos em Profissionais Altamente Treinados
A relevância desses conceitos reside na sua aplicabilidade mesmo a profissionais com vasta experiência e treinamento rigoroso. A neurociência demonstra que o cérebro humano, por sua natureza, não processa e registra absolutamente tudo o que é visto ou ouvido. Em vez disso, ele opera por meio de uma seleção contínua, priorizando as informações que considera mais cruciais em um dado momento. Portanto, a ocorrência de cegueira ou surdez por desatenção não deve ser interpretada como uma falha individual de habilidade ou cuidado, mas sim como um <b>comportamento cognitivo esperado do cérebro humano</b>, inerente à sua própria arquitetura e limites funcionais, mesmo em indivíduos altamente qualificados e treinados.
A inclusão da cegueira e surdez por desatenção no relatório do Cenipa sobre o acidente da Voepass representa um avanço significativo na compreensão dos fatores humanos na segurança aérea. Ao reconhecer as <b>limitações cognitivas intrínsecas</b> do cérebro humano, mesmo sob o comando de profissionais experientes, a investigação transcende a busca por culpados e aponta para a necessidade de sistemas e treinamentos que mitiguem os riscos decorrentes dessas vulnerabilidades. A lição extraída é clara: a segurança em ambientes de alta complexidade como a aviação exige não apenas excelência técnica e rigor nos procedimentos, mas também uma profunda compreensão de como a mente humana interage com máquinas e sistemas, visando aprimorar a percepção e a resposta a alertas críticos em todas as fases do voo.
Fonte: https://g1.globo.com

