Em uma ação que gerou controvérsia imediata e intensos debates sobre a autoridade presidencial, o icônico John F. Kennedy Center for the Performing Arts, em Washington, D.C., teve sua fachada alterada em 19 de dezembro de 2025. O nome do então presidente, Donald Trump, foi adicionado ao letreiro original, efetivamente transformando a designação da instituição em “Trump-Kennedy Center”. Este ato sem precedentes, realizado sem a aprovação explícita do Congresso dos Estados Unidos, desencadeou uma onda de indignação por parte de historiadores, líderes do Partido Democrata e membros da proeminente família Kennedy. A decisão de renomear unilateralmente uma instituição federal para homenagear um presidente em exercício levantou sérias questões sobre a legalidade, a integridade institucional e as normas que regem a política americana, sinalizando uma iminente e acirrada disputa nos corredores do poder em Washington.

Uma Renomeação Inédita e Contestada

A Alteração Física e a Reação Inicial

A mudança no John F. Kennedy Center for the Performing Arts não foi apenas simbólica; ela se materializou na própria estrutura do edifício. Na sexta-feira, 19 de dezembro de 2025, o nome de Donald Trump foi visivelmente inserido na fachada do centro, posicionado acima do nome do antecessor homenageado. Simultaneamente, o site oficial da instituição foi atualizado para refletir a nova designação. Esta alteração física e digital imediata chocou observadores e especialistas, que rapidamente apontaram a natureza extraordinária do ato. O Kennedy Center, estabelecido como um memorial duradouro ao presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963, sempre representou um pilar da cultura e das artes cênicas americanas, com sua designação original sendo um tributo solene e inquestionável. A súbita adição do nome de um presidente em exercício, sem o consentimento legislativo, é amplamente considerada uma quebra de protocolo e um desrespeito à tradição que permeia as instituições federais.

A ação foi rapidamente caracterizada como inédita, uma vez que a renomeação de uma entidade federal de tamanha estatura, especialmente para incluir o nome de um presidente em atividade, não encontra paralelo na história recente dos Estados Unidos. A comunidade cultural e o público em geral foram confrontados com a audácia de uma decisão que contorna os ritos e as aprovações tradicionalmente exigidas para tais modificações. O caráter memorialístico do Kennedy Center torna a renomeação ainda mais sensível, transformando-o, na percepção de muitos, de um espaço de celebração da memória de um ícone nacional para um palco de auto-homenagem presidencial.

O Processo Interno e a “Surpresa” Presidencial

A controvérsia em torno da renomeação do Kennedy Center não surgiu do nada, mas foi precedida por movimentos estratégicos na estrutura de governança da instituição. Em fevereiro do mesmo ano, o presidente Trump havia reformulado completamente o conselho curador do Kennedy Center, assumindo pessoalmente a presidência do órgão. A nova composição do conselho incluiu figuras leais, como Usha Vance, esposa do vice-presidente, e Suzie Wiles, chefe de Gabinete da Casa Branca. Foi este conselho recém-nomeado, sob a liderança de Trump, que, em votação, decidiu por unanimidade renomear a entidade para “Trump-Kennedy Center”.

Apesar da evidente orquestração, o presidente Trump declarou-se “surpreso” com a homenagem. “Bem, fiquei honrado. É um conselho muito distinto, composto pelas pessoas mais ilustres do país. E fiquei surpreso. Fiquei honrado”, afirmou. Tal declaração, no entanto, foi recebida com ceticismo por muitos, que a interpretaram como uma tentativa de mascarar uma iniciativa cuidadosamente planejada. A manipulação do conselho para facilitar uma homenagem pessoal levanta sérias questões sobre a integridade e a independência das instituições culturais federais, transformando um processo que deveria ser de homenagem genuína em um instrumento de afirmação política e pessoal. O contraste entre a declaração presidencial e a cronologia dos eventos alimenta a percepção de uma manobra calculada, exacerbando a indignação pública.

O Furacão da Indignação: Historiadores, Políticos e Família Kennedy

O Legado Histórico e as Vozes Críticas

A renomeação do Kennedy Center não tardou a provocar uma torrente de críticas de diversos setores, especialmente de historiadores e guardiões do legado americano. Especialistas em história e cultura cívica expressaram profunda preocupação com a violação do propósito original do centro, que foi estabelecido por lei em 1964 como um memorial permanente ao presidente John F. Kennedy. A legislação que criou o Kennedy Center proíbe especificamente seu conselho administrativo de transformá-lo em um memorial para qualquer outra pessoa, o que torna a ação do conselho e do presidente diretamente conflitante com a intenção legislativa fundadora.

Muitos historiadores viram a ação como parte de um padrão mais amplo de desrespeito à história e às instituições por parte da administração, apontando para episódios anteriores, como a controversa “reescrita” de biografias de antecessores com placas afixadas na Casa Branca e a renomeação do Instituto da Paz dos EUA em homenagem ao próprio presidente. Essas ações, segundo os críticos, denotam um esforço em apagar ou reinterpretar o passado para servir a agendas políticas presentes, erodindo a integridade dos memoriais nacionais e a objetividade da narrativa histórica. A renomeação do Kennedy Center, nesse contexto, é vista como um sintoma de uma abordagem que prioriza a personalização do poder em detrimento da preservação do patrimônio e da memória coletiva.

A Dura Condenação da Família Kennedy e dos Democratas

A reação mais emocional e contundente veio da família Kennedy, diretamente impactada pela alteração do nome do memorial de seu ilustre membro. Maria Shriver, jornalista e escritora, sobrinha do ex-presidente John F. Kennedy, utilizou suas redes sociais para expressar uma veemente indignação. “Será que não conseguimos ver o que está acontecendo aqui? Vamos lá, meus compatriotas americanos! Acordem! Isso não é digno. Isso não tem graça. Isso está muito abaixo da estatura do cargo. É simplesmente bizarro. É obsessivo de um jeito estranho. Justo quando você pensa que alguém não pode se rebaixar mais, essa pessoa se rebaixa”, postou Shriver, dirigindo-se diretamente ao presidente e apelando para a consciência cívica dos americanos.

Paralelamente, os líderes democratas na Câmara e no Senado, Hakeem Jeffries e Chuck Schumer, respectivamente, emitiram um comunicado conjunto questionando a legalidade da mudança. Eles reiteraram que a renomeação de uma instituição federal requer a aprovação do Congresso, um passo que foi deliberadamente ignorado neste caso. A posição dos democratas é clara: a alteração é ilegal e inaceitável. Suas declarações sinalizaram que a oposição à renomeação não se limitaria a protestos verbais, mas se transformaria em ações concretas no âmbito legislativo e, possivelmente, judicial. A união de vozes da família Kennedy e dos líderes democratas destaca a profundidade da ofensa percebida e a amplitude da resistência política que a medida presidencial inevitavelmente enfrentaria.

Implicações Legais e o Futuro Institucional

O Embate Jurídico: Legislação e Precedentes

No cerne da controvérsia está a base legal que estabeleceu o John F. Kennedy Center for the Performing Arts. Criado por um ato do Congresso em 1964, o Kennedy Center é um memorial federal com um mandato específico. A legislação original é explícita ao proibir que o conselho administrativo da instituição o transforme em um memorial para qualquer outra pessoa além de John F. Kennedy. Além disso, a renomeação de qualquer instituição federal de tal importância requer, por praxe e muitas vezes por lei, a aprovação do poder legislativo, o Congresso. A ação do presidente e do conselho curador, portanto, é diretamente contestada sob a luz da lei vigente e dos princípios da separação de poderes.

A ausência de uma consulta ou aprovação congressual para esta alteração de nome levanta questões constitucionais significativas sobre os limites da autoridade executiva e o respeito pelas prerrogativas legislativas. Este não é apenas um debate sobre simbolismo, mas sobre a legalidade de um ato presidencial que parece contornar as salvaguardas democráticas. O precedente estabelecido por tal ação pode ter ramificações duradouras, potencialmente abrindo caminho para futuras tentativas de personalização de instituições públicas sem o devido processo legislativo. A batalha jurídica iminente deverá testar a interpretação dessas leis e reforçar, ou enfraquecer, os controles e equilíbrios que sustentam a governança federal.

Um Cenário de Disputas e Desafios Futuros

Embora a mudança do nome do Kennedy Center esteja em vigor, com a fachada e o site já atualizados, a controvérsia está longe de ser resolvida. As declarações dos líderes democratas, Hakeem Jeffries e Chuck Schumer, que questionaram a legalidade da medida, sinalizam que “muito barulho ainda está por vir”. É altamente provável que o Congresso inicie investigações, promova debates e tente aprovar legislação para reverter a renomeação, restaurando o nome original do memorial. Além disso, ações judiciais podem ser movidas por grupos de interesse, historiadores ou até mesmo membros da família Kennedy, buscando a anulação da decisão do conselho curador com base em sua ilegalidade.

Este episódio transcende a simples alteração de um nome; ele se insere em um contexto mais amplo de erosão de normas democráticas e de desafios à integridade institucional nos Estados Unidos. A unilateralidade da decisão presidencial e o desrespeito às tradições legislativas e históricas apontam para uma crescente polarização e para uma batalha contínua sobre a memória e o propósito das instituições nacionais. O futuro do Kennedy Center e o desenrolar desta disputa servirão como um teste crucial para a resiliência das instituições americanas diante de manobras políticas que buscam redefinir o patrimônio cultural e cívico do país.

Fonte: https://g1.globo.com

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