O mundo da arquitetura e do design perdeu uma de suas mentes mais brilhantes e originais. O arquiteto italiano Ugo di Pace faleceu nesta quinta-feira (6/8), aos 99 anos, conforme confirmado por sua equipe nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada. Celebrado por sua capacidade de transcender o mobiliário e elevar o ambiente a uma verdadeira obra de arte, Di Pace deixa um legado imenso, marcado por uma visão singular que fundia estética, história e uma profunda filosofia do morar.
A Filosofia da Arte no Coração do Design
Com uma carreira que se estendeu por mais de sete décadas, Ugo di Pace tornou-se sinônimo de um estilo de ambientação único, cobiçado por clientes abastados ao redor do globo. Sua abordagem ia muito além da mera disposição de objetos, como ele próprio costumava distinguir: “mobiliar é simplesmente dispor mobiliário; decorar é outra coisa”. Para Di Pace, a essência dessa 'outra coisa' residia na presença protagonista da arte, elemento seminal e estruturante de todas as suas concepções espaciais. Ele defendia que itens funcionais, como cadeiras e mesas, eram meros requisitos, jamais o objetivo final da decoração. Se possível, ele os preteria para focar exclusivamente na elaboração de relações entre o espaço e a obra de arte.
Uma Trajetória Global de Inovação e Metamorfose
Ugo di Pace assinou mais de 600 projetos ao longo de sua prolífica carreira, espalhados por metrópoles como São Paulo, Miami, Nova York, Paris e Istambul. Sua obra era uma extensão de sua própria visão de mundo, profundamente conectada à ideia de metamorfose. Em seus projetos, fragmentos históricos do século XVIII podiam ser ressignificados como mesas de canto, ou balaustradas de antigas ferrovias como a Sorocabana encontravam um novo propósito como bases para mesas de jantar. Peças de origens e épocas distintas fundiam-se em composições singulares, desafiando convenções e criando ambientes de rara beleza e profundidade.
Da Itália ao Efervescente Cenário Cultural de São Paulo
Nascido em Nápoles e com formação em Belas Artes, Ugo di Pace desembarcou no Brasil em 1948, buscando, segundo suas próprias palavras bem-humoradas, “as mulheres mais lindas do mundo”. Ele se radicou em São Paulo em 1951, onde desenvolveu diversas atividades profissionais e chegou a ser sócio de Germano Mariutti. Sua presença na cidade o inseriu na efervescência cultural da época, estabelecendo amizades com figuras ilustres como o arquiteto italiano Gio Ponti e Pietro Maria Bardi, o visionário fundador do Museu de Arte de São Paulo (MASP), com quem compartilhou o cenário intelectual e artístico da metrópole.
Marcos na Carreira: Da Gallery à Residência Pessoal
A década de 1980 trouxe ainda mais visibilidade a Ugo di Pace quando ele projetou a icônica casa noturna Gallery, localizada no badalado bairro dos Jardins, em São Paulo. Um dos grandes atrativos do espaço era sua concorrida vitrine, que ele recordava como uma das mais importantes do mundo, pois era completamente renovada mensalmente com grandes obras de arte emprestadas de amigos colecionadores e antiquários. Em seus últimos anos, o arquiteto continuou trabalhando incessantemente, pois para ele 'trabalho era vida'. Residia em uma imponente casa neoclássica no Jardim Guedala, em um terreno de 2 mil m², onde seu estilo inconfundível se manifestava em cada detalhe, refletindo inclusive sua filosofia pessoal de que o homem verdadeiramente elegante não ostenta marcas.
O Último Capítulo: Uma Vida Contada em Livros
Além de sua vasta produção arquitetônica, Ugo di Pace também deixou sua marca no campo literário, publicando cinco livros. O mais recente deles, lançado em 2025 (provável erro de digitação no original, assumindo um lançamento recente anterior ao falecimento), foi intitulado "Ugo di Pace. Obra de Arte. Protagonista da Minha Vida e dos Meus Trabalhos". Esta publicação não apenas registrou seu extenso percurso profissional e pessoal, mas serviu também como uma homenagem tocante às inúmeras pessoas com quem conviveu e colaborou ao longo de sua notável existência.
Ugo di Pace não apenas construiu edifícios; ele criou universos. Sua capacidade de transformar espaços em experiências estéticas profundas, aliando história, arte e funcionalidade de maneira inovadora, solidifica seu lugar como um dos grandes mestres do design do século XX e XXI. Seu legado transcende a arquitetura, ressoando como um testemunho da paixão pela vida e pela arte, elementos que ele tão intrinsecamente soube fundir em cada um de seus projetos e em sua própria existência.

