A cidade de Morro Agudo, no interior de São Paulo, tornou-se palco de um incidente chocante que levanta sérias questões sobre a abordagem policial e o tratamento de indivíduos em situação de vulnerabilidade mental. Carlos Eduardo Montalvão, um pintor de 46 anos, foi violentamente agredido por policiais militares em plena rua, um episódio registrado em vídeo que rapidamente viralizou nas redes sociais. A família de Montalvão, em profunda consternação, alega que o homem enfrentava um período de grave desorientação e surtos psicóticos, o que, para eles, transformou-o em um 'saco de pancada' nas mãos da autoridade, apesar de seus problemas de saúde mental.

Agressão em Vídeo e a Versão Familiar do Sofrimento

As imagens perturbadoras, capturadas por moradores, mostram Carlos Eduardo Montalvão no bairro Antônio José Abraão, caminhando em círculos, proferindo frases desconexas e xingamentos. A chegada da viatura policial desencadeia uma escalada da tensão: após o pintor ofender os agentes, um dos policiais desce, desferindo tapas, chutes e socos, além de tentar imobilizá-lo pelo pescoço. Já no chão, a agressão continua com múltiplos socos, e um segundo agente se une à ação, usando um bastão. Este cenário de violência contrasta drasticamente com a versão apresentada pelos irmãos de Carlos, Maria de Lourdes Ribeiro Montalvão e José Roberto Montalvão, que relatam um histórico recente de deterioração da saúde mental do pintor, culminando em sua incapacidade de trabalhar e episódios de desorientação. A família, embora reconheça as ofensas proferidas por Carlos, condena veementemente a desproporcionalidade da força empregada.

A Luta por Ajuda Médica Negada

Antes do fatídico episódio, a família de Carlos Eduardo já estava em uma jornada exaustiva para conseguir atendimento médico e, se possível, a internação do pintor, cujos problemas de saúde mental se manifestavam há quase um mês. Maria de Lourdes relata as dificuldades enfrentadas ao buscar auxílio em unidades de saúde locais. Após ser orientada a procurar um serviço específico próximo à rodoviária da cidade, ela se deparou com obstáculos burocráticos e falta de assistência. A exigência de documentos pessoais e exames específicos para a cabeça, além de longos tempos de espera, inviabilizaram o atendimento imediato, deixando a família em um beco sem saída diante da crescente gravidade do quadro de saúde de Carlos.

As Versões: O Boletim de Ocorrência vs. as Provas Visuais

Após a agressão, Carlos Eduardo foi levado a um hospital local, onde recebeu pontos na cabeça, antes de ser encaminhado à delegacia em São Joaquim da Barra. O boletim de ocorrência, redigido pelos policiais envolvidos, apresenta uma narrativa que se choca com o que as imagens de vídeo revelam. No registro, os agentes afirmam que foram acionados devido a ameaças que o pintor estaria fazendo a três mulheres. Eles alegam que, ao deixarem o local, Carlos começou a ofender a equipe e 'investiu' contra os policiais, justificando o uso de 'força moderada' – incluindo bastão tonfa e socos – para contê-lo e algemá-lo diante de sua resistência. O caso foi registrado como desobediência e desacato, mas a disparidade entre a justificativa oficial e a brutalidade capturada nas gravações levanta sérias dúvidas sobre a legitimidade da abordagem policial.

Investigação em Andamento e Compromisso com a Transparência

Diante da repercussão do caso, as autoridades competentes agiram para investigar a conduta dos policiais. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) emitiu uma nota informando que a Polícia Militar está analisando as imagens e a conduta dos agentes envolvidos, prometendo a adoção das medidas administrativas e legais cabíveis. A pasta reforçou que a corporação não compactua com excessos ou desvios de conduta por parte de seus membros. Paralelamente, a Polícia Civil do Estado de São Paulo está conduzindo uma investigação aprofundada, com o objetivo de ouvir todos os envolvidos e testemunhas para esclarecer as circunstâncias da abordagem e determinar as responsabilidades.

O caso de Carlos Eduardo Montalvão em Morro Agudo é um doloroso lembrete da importância de abordagens policiais humanizadas, especialmente quando há indícios de problemas de saúde mental. A tensão entre a segurança pública e os direitos individuais, agravada pela vulnerabilidade de um cidadão, exige uma apuração rigorosa e transparente. A sociedade aguarda que as investigações resultem em justiça e que tais incidentes sirvam de aprendizado para que a atuação policial esteja sempre alinhada aos princípios de respeito, proporcionalidade e amparo, em vez de violência.

Fonte: https://g1.globo.com

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