A denúncia inicial de racismo na Universidade de São Paulo (USP) de Ribeirão Preto, SP, por uma estudante de nutrição desencadeou uma série de revelações chocantes, evidenciando um problema enraizado no ambiente acadêmico. Priscila Motta da Rocha Antônio, ao expor publicamente uma situação de preconceito vivida, abriu as portas para que pelo menos outros dez alunos da instituição relatassem experiências semelhantes. A cientista social Jéssica Machado, que amplificou o relato de Priscila, tornou-se um ponto de contato crucial para essas novas vítimas de racismo na USP. A repercussão do caso nas redes sociais demonstra a profundidade da questão, com muitos se identificando com as narrativas de discriminação racial dentro do ambiente universitário e buscando meios para formalizar suas próprias queixas e exigir providências.
O catalisador da revelação e a busca por justiça
A denúncia inicial e sua viralização
A semana começou com uma denúncia contundente que rapidamente ganhou as manchetes e as redes sociais: Priscila Motta da Rocha Antônio, estudante de nutrição da USP Ribeirão Preto, relatou ter sido vítima de racismo por uma colega de sala. A cientista social Jéssica Machado foi a responsável por dar visibilidade à história, publicando o relato de Priscila, o que fez com que a postagem viralizasse. A repercussão foi imediata e avassaladora, com milhares de comentários de apoio e, mais significativamente, de pessoas que afirmaram ter vivenciado casos semelhantes dentro da própria universidade.
Jéssica Machado revelou a dimensão do problema ao explicar o impacto da publicação. “As pessoas se reconhecerem na postagem, o que foi escrito ali, o que a Priscila vivenciou, e sentiram confiança de trazer isso”, afirmou. Os novos relatos que chegaram até ela incluíam desde situações de preconceito entre alunos até casos de racismo envolvendo professores e estudantes. A cientista social destacou ainda que alguns desses estudantes, após sofrerem discriminação, chegaram a desistir de seus cursos na USP, o que sublinha a gravidade das consequências emocionais e acadêmicas do racismo institucional. A amplitude dos relatos surpreendeu até mesmo Jéssica, pela concentração dos casos na unidade de Ribeirão Preto.
A orientação e os canais institucionais
Diante da avalanche de denúncias, Jéssica Machado agiu prontamente, orientando as vítimas a buscarem os canais oficiais da Universidade de São Paulo para registrarem formalmente suas queixas. Ela observou, no entanto, uma lacuna preocupante: muitas das pessoas que a procuraram desconheciam os procedimentos e os caminhos existentes dentro da própria USP para formalizar os ataques. “Muitas pessoas não sabiam que tinham canais dentro da USP para poder fazer essa denúncia. As pessoas não sabiam os caminhos e, ao mesmo tempo, não sabiam o quão inóspito é o ambiente para os alunos que estão ali, sejam cotistas ou não, dentro da USP”, destacou Jéssica, revelando a falta de informação e o ambiente, por vezes, hostil enfrentado por alguns estudantes.
Em resposta à crescente mobilização, a USP promoveu uma reunião online com o Conselho de Direitos Humanos (CDH) para discutir o caso. Além da presidente do CDH, o encontro contou com a presença de Priscila e Jéssica, juntamente com três professoras, duas integrantes do Coletivo USP e uma integrante do Rojune (Rolê da Juventude Negra e Periférica). Durante a conversa, Priscila Motta da Rocha Antônio novamente relatou os episódios de racismo que sofreu e discutiu medidas necessárias para seu retorno às aulas, após um afastamento de quase um semestre. Até o momento, a universidade não divulgou quais medidas serão tomadas contra a aluna apontada como autora das agressões, gerando expectativas sobre as próximas ações institucionais.
A formalização das acusações e a dimensão do preconceito
O boletim de ocorrência e a responsabilização criminal
A busca por justiça transcendeu o ambiente universitário. Priscila Motta da Rocha Antônio deu um passo importante ao registrar um boletim de ocorrência formalizando a denúncia de racismo. O advogado da jovem, Everton Luis dos Reis Francisco, informou que a agressora deve ser acionada para responder criminalmente pelos atos. Paralelamente, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), onde Priscila estuda, comunicou que o processo foi encaminhado para instâncias superiores da universidade para a devida apuração dos fatos e a aplicação de possíveis medidas administrativas internas. A movimentação em esferas civil, criminal e administrativa reflete a seriedade com que o caso está sendo tratado, buscando punição e reparação para a vítima, além de um posicionamento firme da instituição.
Relatos que expõem a profundidade do problema
A gravidade do racismo no ambiente acadêmico foi ainda mais evidenciada com um dos relatos compartilhados com Jéssica Machado. Uma aluna negra de pele mais clara foi publicamente chamada de “cotista” por uma professora, na frente de toda a turma. “Chamou ela, na frente de todo mundo, de cotista por ser uma mulher negra de pele mais clara. Ela falou ‘eu não sou cotista, professora'”, contou Jéssica, descrevendo a situação humilhante. A partir desse episódio, a estudante relatou sentir um preconceito crescente, percebendo o afastamento dos colegas e dificuldades em ser incluída em grupos de trabalho. O constrangimento foi tamanho que ela passou muito tempo remoendo o ocorrido. Jéssica Machado ressaltou a natureza intrínseca do preconceito: “Meu entendimento é que cotista ou não, o preconceito existe dentro da universidade. O problema é a nossa cor”.
A própria Jéssica, cientista política formada há dez anos, confessou ter sofrido preconceito durante seus anos universitários na Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Quando a gente acessa esses espaços, se é através de cotas, se não é, infelizmente isso vai acontecer”, desabafou. Ela relembrou que, em sua época, não existiam os canais de denúncia atuais nem a possibilidade de usar a internet para divulgar e buscar apoio para casos de discriminação. A ausência de mecanismos de proteção e o silenciamento das vítimas no passado contrastam com a atual busca por justiça e visibilidade, ressaltando a evolução, ainda que lenta, na forma como a sociedade e as instituições começam a lidar com o racismo. A onda de novos relatos na USP Ribeirão Preto é um chamado urgente para que as universidades se tornem espaços verdadeiramente inclusivos e seguros para todos.
Conclusão
A denúncia de racismo na USP Ribeirão Preto por Priscila Motta da Rocha Antônio transcendeu o incidente individual, revelando uma série de relatos semelhantes que expõem um problema sistêmico dentro da academia. A mobilização da cientista social Jéssica Machado e a viralização do caso nas redes sociais foram cruciais para dar voz a estudantes que, de outra forma, poderiam permanecer em silêncio. A ausência de clareza sobre os canais de denúncia e a percepção de um ambiente hostil destacam a necessidade urgente de as universidades fortalecerem suas políticas antirracistas, garantindo que todos os alunos, independentemente de sua origem ou cor, sintam-se seguros e apoiados. A formalização das acusações e a busca por responsabilização criminal e administrativa são passos importantes, mas o caminho para a erradicação do racismo no ambiente universitário exige ações contínuas, transparentes e eficazes, promovendo uma cultura de respeito e inclusão.
Perguntas frequentes
Quantos novos relatos de racismo surgiram após a denúncia inicial na USP Ribeirão Preto?
Após a denúncia inicial de Priscila Motta da Rocha Antônio, pelo menos outros dez estudantes procuraram a cientista social Jéssica Machado para relatar experiências semelhantes de racismo na USP Ribeirão Preto.
Qual o papel de Jéssica Machado neste caso?
Jéssica Machado, cientista social, foi responsável por publicar o relato inicial de Priscila nas redes sociais, o que levou à viralização do caso. Ela também se tornou um ponto de contato para as novas vítimas, orientando-as a buscar os canais oficiais da universidade para formalizar suas denúncias.
Que medidas a USP Ribeirão Preto tomou em relação às denúncias de racismo?
A USP promoveu uma reunião online com o Conselho de Direitos Humanos para discutir o caso. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto informou que o processo foi encaminhado para instâncias superiores para apuração dos fatos e aplicação de possíveis medidas administrativas. No entanto, detalhes sobre as medidas contra a aluna acusada não foram divulgados.
Como as vítimas de racismo podem formalizar suas denúncias na universidade?
As vítimas devem procurar os canais oficiais de ouvidoria e órgãos específicos de direitos humanos ou combate à discriminação existentes em suas instituições de ensino. O registro de boletim de ocorrência também é um caminho importante para a responsabilização criminal.
Se você ou alguém que conhece vivenciou situações de racismo no ambiente universitário, procure os canais de denúncia da sua instituição ou órgãos de direitos humanos. Sua voz é fundamental para combater a discriminação.
Fonte: https://g1.globo.com

