O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, trouxe à tona um debate crucial sobre a segurança pública e o controle carcerário no estado, ao afirmar categoricamente que as facções criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC), não detêm mais o domínio sobre as unidades prisionais paulistas. A declaração, proferida durante a apresentação do balanço de gestão para o ano de 2025, foi prontamente recebida com ceticismo e forte contestação por parte do sindicato que representa os funcionários do sistema penitenciário. Este embate de narrativas sublinha a complexidade da gestão prisional e a divergência entre a visão oficial do governo e a percepção dos profissionais que atuam diariamente nas prisões, gerando um cenário de questionamentos sobre a real situação dos presídios do estado mais populoso do Brasil.

A Declaração Governamental e a Visão de Segurança Pública

O Discurso do Governador e os Avanços Apresentados

Em um discurso de aproximadamente duas horas, no qual a segurança pública foi o eixo central, o governador Tarcísio de Freitas fez uma série de pronunciamentos otimistas. Ele celebrou uma notável queda nos índices de roubos em todo o estado e declarou o que chamou de “fim da Cracolândia”, referindo-se aos esforços de desarticulação e combate ao consumo de drogas na região central da capital. Contudo, foi ao abordar a questão carcerária que a sua afirmação mais incisiva reverberou: a de que o controle sobre os presídios paulistas havia sido integralmente retomado pelo Estado, afastando de vez a influência de organizações criminosas. Segundo o governador, “Quem fala ‘há um controle das facções nos presídios’, não há. Não há mais. Esse tempo passou. Hoje há o controle do Estado. O Estado comanda os presídios”.

Para fundamentar sua posição, Tarcísio de Freitas destacou uma série de medidas e estratégias implementadas pela gestão. Entre elas, foram citadas operações conjuntas realizadas em colaboração com o Ministério Público, o que, em sua visão, demonstra a sinergia entre diferentes esferas do poder público para combater o crime organizado. A utilização intensiva de ferramentas de inteligência e o investimento em tecnologia foram igualmente mencionados como pilares essenciais para o restabelecimento da autoridade estatal nas prisões. O governador ilustrou esse avanço ao apresentar dados sobre a integração de um impressionante número de 93 mil câmeras de segurança, sugerindo que tal infraestrutura tecnológica contribui significativamente para a vigilância e o monitoramento constante das unidades, dificultando a articulação e a ação das facções dentro do ambiente prisional.

A narrativa governamental, portanto, desenha um cenário de sucesso na repressão ao crime e na retomada da soberania dentro do sistema penitenciário. Este panorama positivo, aplaudido durante a apresentação, visa transmitir à população paulista uma imagem de segurança e eficiência na gestão da ordem pública, contrastando com o passado onde a presença e o poder de grupos criminosos dentro das prisões eram frequentemente noticiados e motivo de grande preocupação social. A ênfase na capacidade do Estado de comandar e monitorar suas unidades prisionais reforça a mensagem de que a estratégia de segurança implementada está produzindo resultados tangíveis e que a era do controle de facções nos presídios de São Paulo é, de fato, uma página virada.

A Realidade Contestada: Vozes do Sistema Prisional

O Posicionamento do Sindicato e os Dados Preocupantes

A euforia expressa pelo governador Tarcísio de Freitas foi rapidamente confrontada por uma perspectiva divergente, vinda diretamente dos profissionais que operam o sistema penitenciário. O sindicato que representa os policiais penais e os demais funcionários do setor emitiu uma nota oficial contundente, rebatendo as declarações do chefe do executivo paulista. Segundo a entidade, a afirmação de que as facções perderam o controle das prisões não apenas carece de veracidade, como a influência desses grupos tem, na realidade, se fortalecido. Esta deterioração seria uma consequência direta do que o sindicato classifica como descaso governamental e uma crônica falta de efetivo, elementos que, em sua análise, criam um terreno fértil para a atuação do crime organizado dentro das muralhas.

Para substanciar sua argumentação, o sindicato apresentou dados alarmantes que ilustram uma severa desproporção entre a massa carcerária e a força de trabalho disponível. Atualmente, o estado de São Paulo abriga uma população carcerária que ultrapassa a marca de 220 mil detentos, um dos maiores contingentes prisionais do país. Em contrapartida, o efetivo de policiais penais e agentes responsáveis pela segurança e gestão dessas unidades não chega a 25 mil, somando pouco mais de 24 mil profissionais. Essa disparidade massiva impõe um desafio colossal, visto que este contingente reduzido é incumbido de uma gama extensa de responsabilidades, incluindo a segurança interna das penitenciárias, a vigilância externa, o transporte de presos entre unidades e fóruns, e a escolta em diversas situações, como atendimentos médicos e audiências.

A nota sindical enfatiza que a escassez de pessoal não é o único problema. Muitas das unidades prisionais paulistas operam com uma superlotação crônica, ultrapassando os limites de ocupação permitidos e, em muitos casos, estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Essa condição insalubre e desumana não apenas agrava o ambiente de trabalho para os funcionários, mas também potencializa os riscos de rebeliões, conflitos internos e facilita a organização de atividades ilícitas por parte das facções. O sindicato concluiu sua manifestação com uma frase incisiva: “O governador vive uma realidade paralela”, reforçando a ideia de que o discurso oficial diverge drasticamente da complexidade e dos perigos enfrentados diariamente pelos que trabalham na linha de frente do sistema penitenciário de São Paulo. Esta contestação coloca em xeque a efetividade das políticas de segurança e a transparência na avaliação da situação prisional.

Desafios e Perspectivas para a Gestão Penitenciária

O embate entre as declarações do governador Tarcísio de Freitas e a resposta veemente do sindicato dos policiais penais de São Paulo expõe a intrincada teia de desafios que permeiam a gestão do sistema penitenciário. De um lado, o governo sustenta uma narrativa de retomada do controle e de avanços significativos na segurança pública, ancorada em investimentos tecnológicos e operações conjuntas que visam desmantelar a influência de facções criminosas. Esta visão otimista busca reforçar a confiança da sociedade na capacidade do Estado de gerir a ordem interna de suas prisões e, por consequência, a segurança externa.

Do outro lado, a categoria que atua diretamente nas penitenciárias pinta um quadro muito distinto, marcado pela superlotação crônica, pelo déficit de pessoal e pela persistência, senão o agravamento, do controle exercido por organizações criminosas. A perspectiva dos funcionários é que a realidade nas celas e nos pátios das prisões está distante do controle absoluto prometido, sugerindo que as condições de trabalho precárias e a desproporção entre detentos e agentes são fatores que comprometem a eficácia de qualquer política de segurança prisional. Essa dualidade de percepções levanta questões fundamentais sobre a metodologia de avaliação da situação carcerária e a comunicação entre os diferentes atores envolvidos.

Apesar das divergências, o cenário aponta para a necessidade premente de um diálogo construtivo e transparente. A superação dos desafios no sistema prisional de São Paulo exigirá não apenas a continuidade de investimentos em tecnologia e inteligência, mas também uma atenção redobrada às condições de trabalho dos agentes penitenciários, à questão da superlotação e à reavaliação constante das estratégias de combate às facções. É fundamental que as políticas públicas sejam baseadas em uma compreensão abrangente e multifacetada da realidade, integrando tanto os dados oficiais quanto as experiências dos profissionais da linha de frente. Somente assim será possível construir um sistema prisional verdadeiramente sob o comando do Estado, que garanta a segurança, a ressocialização e a dignidade, superando as dicotomias e avançando em direção a uma gestão penitenciária mais eficaz e humana.

Fonte: https://jovempan.com.br

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