A espécime de mandacaru, um cacto tipicamente associado à paisagem árida do Nordeste brasileiro, tem se destacado de forma incomum na zona Leste de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Com uma estatura impressionante que ultrapassa os seis metros, a planta se tornou um ponto de interesse e curiosidade entre os moradores locais. Este exemplar de Cereus jamacaru, cuja presença é considerada rara fora de seu habitat natural, a Caatinga, levanta questões sobre sua origem e o período de seu desenvolvimento na região sudeste. A sua notável altura não apenas atrai olhares, mas também sublinha a adaptabilidade e a resiliência dessa espécie emblemática da flora brasileira, proporcionando um raro vislumbre da robustez ecológica do cacto mandacaru em um contexto geográfico inesperado, transformando um quintal em Ribeirão Preto em um palco para um fenômeno botânico.
Tópico 1: O Fenômeno Botânico e Seu Desenvolvimento
Crescimento Incomum e Contexto da Espécie
A presença de um imponente mandacaru na zona Leste de Ribeirão Preto tem gerado fascínio entre os moradores. O aposentado Anésio Barão Parisi, que reside na propriedade há uma década, testemunha o contínuo crescimento do cacto. “Já faz dez anos que a gente mora aqui e ele mudou muito pouco e ainda cresceu aí um metro, mais ou menos. Mas ele parece ser bem antigo aqui no local”, relata Parisi, percebendo a longevidade da planta. O botânico Milton Groppo, professor titular do Departamento de Biologia da USP Ribeirão Preto, confirmou que o exemplar pertence à espécie Cereus jamacaru e estima que sua idade possa ultrapassar as três décadas. Esta longevidade, combinada com sua estatura superior a seis metros, o torna um espécime notável para a região.
O Cereus jamacaru é uma espécie nativa da Caatinga e de áreas de Cerrado, encontrando-se também em afloramentos rochosos e em outros países da América do Sul. Sua ocorrência em São Paulo é fruto de uma introdução, visto que não é nativa do Estado. No seu habitat natural, sob condições climáticas mais secas e com chuvas irregulares, o mandacaru pode atingir até dez metros de altura, com seu desenvolvimento atrelado aos ciclos de precipitação. No Sudeste, com maior volume de chuvas, o crescimento pode ser inicialmente mais rápido em solos profundos e bem drenados. Contudo, alcançar o porte observado em Ribeirão Preto demanda tempo considerável, corroborando a estimativa de idade do especialista e destacando a adaptabilidade da planta a um novo ecossistema.
Tópico 2: Importância Cultural, Econômica e Biológica do Mandacaru
Legado Cultural e Multifuncionalidade da Planta
Mais do que uma mera curiosidade botânica, o mandacaru é um verdadeiro ícone cultural do Nordeste brasileiro, simbolizando a resistência e a vida na árida paisagem da Caatinga. Sua imagem e nome estão imortalizados em obras de grandes nomes da música popular brasileira, como Luiz Gonzaga, Chico César e Dominguinhos. O professor Milton Groppo destaca a canção “Xote das Meninas” de Luiz Gonzaga, onde a flor do mandacaru é uma metáfora poderosa, evidenciando a profunda conexão da planta com a identidade e o folclore regional. Essa presença marcante na cultura popular eleva o cacto a um status de patrimônio imaterial, inspirando a arte e a memória coletiva de um povo.
Além de sua profunda relevância cultural, o mandacaru oferece múltiplos benefícios econômicos e biológicos. Na medicina popular, é conhecido por suas propriedades terapêuticas, sendo utilizado em remédios caseiros para tratar problemas respiratórios, gastrointestinais, inflamações, feridas cutâneas e até mesmo questões renais, demonstrando sua versatilidade. Economicamente, a espécie é empregada como cerca viva, uma barreira natural e sustentável. Ecologicamente, desempenha um papel crucial: seus frutos, comestíveis, são uma importante fonte de alimento para a fauna local. Em regiões semiáridas, durante períodos de seca, o mandacaru serve como forragem essencial para animais, como o gado, garantindo a sobrevivência dos rebanhos e o sustento de comunidades, reforçando sua multifuncionalidade e importância para o ecossistema e a economia rural. A beleza efêmera de suas flores brancas, que desabrocham apenas à noite na transição da primavera para o verão, adiciona uma camada de misticismo a essa planta já tão significativa, um espetáculo que Anésio Parisi, o morador de Ribeirão Preto, descreve como “muito bonito quando está florido”.
Tópico 3 conclusivo contextual: Resiliência e Desafios Ambientais do Mandacaru
A história do mandacaru em Ribeirão Preto é um testemunho da incrível resiliência e adaptabilidade dessa espécie, que prospera em ambientes tão distintos quanto a Caatinga e o interior paulista. O professor Milton Groppo enfatiza a natureza rústica e a baixa manutenção do mandacaru, que requer apenas sol direto e solo bem drenado para se desenvolver. Sua capacidade de suportar longos períodos de seca sem apresentar danos aparentes é notável, uma característica que Anésio Parisi confirmou em relação ao exemplar de seu quintal: “Nunca tive nenhum cuidado especial. Ele é bem rústico mesmo. Inclusive, no tempo da seca, ele nem sente a estiagem”. Essa robustez faz dele um símbolo de resistência.
No entanto, apesar de sua notável rusticidade, o mandacaru não está imune aos desafios ambientais impostos pelas atividades humanas. Embora a espécie não seja atualmente classificada como ameaçada de extinção, ela enfrenta uma pressão considerável em suas regiões de ocorrência natural. O desmatamento excessivo, impulsionado pela expansão agrícola e urbana, e o uso intensivo como forragem para o gado em épocas de estiagem prolongada, são fatores que ameaçam a integridade de suas populações selvagens. O caso do cacto de Ribeirão Preto serve como um lembrete da biodiversidade que existe e da importância de se atentar para a preservação dessas espécies, que carregam tanto valor ecológico quanto cultural, garantindo que o mandacaru continue a florescer e a inspirar por muitas gerações.
Fonte: https://g1.globo.com

