O cinema brasileiro perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas. Maria Ribeiro, nome artístico de Maria Ramos da Silva, faleceu na última sexta-feira, 29 de dezembro, aos 102 anos de idade, na cidade de Genebra, Suíça. A notícia foi confirmada por sua filha, Wilma, marcando o fim de uma era para muitos admiradores da sétima arte. Conhecida por sua inesquecível interpretação de Sinhá Vitória no clássico “Vidas Secas” (1963), a atriz deixou um legado de autenticidade e talento que transcendeu as telas. Sua trajetória, que a levou do sertão baiano às grandes produções do Cinema Novo, é um testemunho de uma vida dedicada à arte e à representação da alma brasileira, especialmente a do povo nordestino.

O Legado de Vidas Secas e a Descoberta Inesperada

A ascensão ao estrelato e o impacto cultural

A carreira de Maria Ribeiro é indissociável de “Vidas Secas”, a aclamada adaptação cinematográfica da obra-prima de Graciliano Ramos. Dirigido por Nelson Pereira dos Santos, o filme é um pilar do Cinema Novo e um marco na história do cinema nacional. Nele, Maria Ribeiro deu vida a Sinhá Vitória, a matriarca forte e resiliente de uma família de retirantes nordestinos que luta pela sobrevivência em meio à aridez do sertão. Sua atuação, marcada por uma expressividade contida e um realismo pungente, capturou a essência da personagem e a dureza da vida no semiárido, tornando-se um símbolo da força feminina brasileira e da persistência diante da adversidade.

A descoberta de Maria Ribeiro para o papel foi, por si só, um capítulo fascinante de sua biografia. Nelson Pereira dos Santos a encontrou enquanto ela trabalhava em um laboratório farmacêutico no Rio de Janeiro. Longe dos círculos artísticos tradicionais, sua seleção para um papel tão central em um filme de tamanha importância revolucionou a abordagem de elenco na época. A escolha por uma atriz não profissional, com traços genuínos e uma vivência que ressoava com a realidade dos personagens de Graciliano Ramos, foi um golpe de mestre do diretor, conferindo ao filme uma autenticidade inigualável. Essa decisão ousada não apenas lançou Maria Ribeiro ao estrelato, mas também consolidou a estética do Cinema Novo, que buscava a veracidade e a representação de um Brasil real, muitas vezes ignorado pelas produções mais comerciais. Sua performance em “Vidas Secas” permanece como um estudo de caso sobre a força do talento natural e a capacidade de uma atriz em comunicar complexidades emocionais com uma simplicidade desarmante.

Uma Carreira Marcada pela Versatilidade e Colaborações

Além de Sinhá Vitória: Outras obras e a vida pessoal entre filmagens

Embora “Vidas Secas” tenha sido seu papel mais icônico, a carreira de Maria Ribeiro não se limitou a ele. Ela continuou a atuar em produções significativas, demonstrando sua versatilidade e a profundidade de seu talento. Entre seus outros trabalhos notáveis está o filme “Os Herdeiros” (1970), dirigido por Cacá Diegues, outro expoente do Cinema Novo e do cinema marginal brasileiro. Nesta obra, Maria Ribeiro explorou novas facetas de sua capacidade interpretativa, consolidando sua posição como uma figura respeitada no cenário cinematográfico da década de 1970. Sua participação em “Os Herdeiros” sublinhou sua habilidade em transitar por diferentes narrativas e estilos de direção, provando que sua força ia muito além de um único personagem.

A colaboração com Nelson Pereira dos Santos se estendeu para além de “Vidas Secas”. Maria Ribeiro trabalhou novamente com o diretor em dois outros filmes de grande relevância: “O Amuleto de Ogum” (1974) e “A Terceira Margem do Rio” (1993). “O Amuleto de Ogum”, um mergulho no universo do candomblé e do crime organizado, permitiu-lhe explorar um papel diferente, enquanto “A Terceira Margem do Rio”, baseado na obra de Guimarães Rosa, revisitou as raízes da cultura brasileira e a complexidade das relações humanas. Essas parcerias reforçaram o vínculo artístico e a mútua admiração entre a atriz e o cineasta, que soube extrair o melhor de sua performance autêntica e visceral. Fora das telas, a vida de Maria Ribeiro foi marcada por suas raízes no interior da Bahia, onde sua infância foi profundamente influenciada pelo sertão. Antes de se estabelecer no Rio de Janeiro e iniciar sua carreira no cinema, ela residiu em Juazeiro (BA) e Pirapora (MG), cidades que moldaram sua percepção do Brasil profundo. Essa vivência precoce e a jornada pelo país contribuíram para a riqueza de suas interpretações, permeadas por uma verdade intrínseca. Após uma vida dedicada à arte, Maria Ribeiro escolheu a Suíça como seu lar nos anos finais, onde viveu discretamente até seu falecimento, deixando um legado cinematográfico imortal.

O Eterno Retrato da Alma Brasileira

A morte de Maria Ribeiro, aos 102 anos, encerra um ciclo de uma vida notável, mas seu legado no cinema brasileiro é perene. Sua imagem como Sinhá Vitória em “Vidas Secas” transcende a mera atuação; ela se tornou um símbolo da resiliência e da dignidade do povo brasileiro. A trajetória de Maria, desde o anonimato de um laboratório farmacêutico até as telas do cinema, é um lembrete inspirador de que o talento pode emergir dos lugares mais inesperados e tocar milhões de corações. Ela representou não apenas uma personagem, mas toda uma classe social e a força feminina do sertão, eternizando uma parte vital da identidade cultural do Brasil.

Sua capacidade de transmitir emoções profundas com uma naturalidade rara garantiu que suas performances, especialmente a de Sinhá Vitória, continuassem a ressoar com novas gerações de espectadores e estudiosos do cinema. Maria Ribeiro não era apenas uma atriz; era uma contadora de histórias, uma ponte entre a realidade crua do sertão e a linguagem universal da arte cinematográfica. Sua contribuição para o Cinema Novo e para a representação autêntica do Brasil nas telas é inestimável. A memória de Maria Ribeiro será sempre celebrada como a de uma mulher que, com sua arte, deu voz e rosto a uma parcela essencial da alma brasileira, imortalizando-se no panteão dos grandes artistas nacionais. Seu legado inspira a busca por autenticidade e a valorização das raízes culturais do país.

Fonte: https://www.metropoles.com

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