A onda de protestos que varre o Irã há quase duas semanas escalou para um cenário de grave crise humanitária, com o número de mortos pela repressão governamental ultrapassando a marca dos 500. Segundo dados da Iran Human Rights (IHR), uma organização não governamental baseada na Noruega, pelo menos 538 pessoas perderam a vida, enquanto mais de 10.600 foram detidas. As manifestações, inicialmente motivadas por queixas econômicas, rapidamente se transformaram em um movimento abrangente contra o regime teocrático do Aiatolá Ali Khamenei, que tem respondido com uma repressão cada vez mais violenta.
Intensificação da Violência e o Alto Custo Humano
O balanço de mortos divulgado pela IHR detalha que, entre as vítimas fatais, estão 490 manifestantes e 48 agentes de segurança, embora a ONG alerte que os números reais podem ser ainda maiores devido ao bloqueio da internet no país, que dificulta a verificação completa dos dados. O chefe de polícia iraniano, Ahmad-Reza Radan, confirmou a intensificação do confronto contra os manifestantes. Relatos de cidadãos ouvidos por veículos internacionais indicam que as forças policiais teriam efetuado disparos contra a população em mais de 100 cidades onde os protestos se espalharam.
A falta de transparência do governo iraniano, que se recusa a divulgar números oficiais de vítimas, agrava a preocupação de que o cerco cibernético esteja sendo utilizado para encorajar uma repressão ainda mais sangrenta, isolando o país do escrutínio internacional.
A Resposta Oficial do Regime e a Narrativa de Resistência
Diante da crescente insatisfação popular, o governo iraniano tem adotado uma postura de confronto, descrevendo os protestos como “tumultos” inseridos em uma “batalha de resistência nacional contra os Estados Unidos e o regime sionista”. O presidente Masoud Pezeshkian, embora tenha prometido endereçar as queixas econômicas da população, não sinalizou qualquer abrandamento na repressão. Pelo contrário, Pezeshkian convocou a população para uma “marcha de resistência nacional” em todo o país, visando denunciar a violência que ele e a televisão estatal atribuem a “criminosos e terroristas urbanos”.
Em entrevista à televisão estatal, o presidente enfatizou o duplo dever do governo: “resolver e atender às queixas do povo”, mas também “não deixar que manifestantes desestabilizem o país”, uma retórica que justifica a dura ação das autoridades contra os dissidentes.
Contexto Geopolítico: Vulnerabilidade e Pressão Externa
A atual onda de descontentamento expõe uma crescente vulnerabilidade da teocracia iraniana. Altas autoridades têm consistentemente responsabilizado os Estados Unidos e Israel por apoiarem os manifestantes, inserindo os protestos em uma complexa teia de tensões regionais. O país já enfrenta uma grave crise econômica, agravada pela reativação de sanções da ONU e, no ano passado, sofreu danos em instalações militares e nucleares durante um conflito de 12 dias com Israel.
A pressão internacional também se intensifica. O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, teria alertado sobre a possibilidade de ataques militares caso as autoridades iranianas continuassem a reprimir manifestantes pacíficos, com funcionários norte-americanos informando o The New York Times sobre novas opções de ataques. Este cenário adiciona uma dimensão de risco significativo à já volátil situação interna do Irã.
As Raízes e a Persistência de um Movimento Popular
Consideradas as maiores manifestações em uma década, os protestos iranianos transcenderam sua pauta inicial de insatisfação econômica para um clamor direto contra o regime político vigente. Apesar de um apagão nacional de internet imposto pelas autoridades, que já dura 48 horas segundo a ONG de cibersegurança Netblocks, a mobilização popular não diminuiu e, em muitos casos, tem se fortalecido.
O bloqueio à rede tem como objetivo dificultar a organização e a comunicação entre os manifestantes, além de impedir que imagens e informações sobre a repressão cheguem ao exterior. Contudo, essa medida coercitiva não foi suficiente para deter a onda de descontentamento, que continua a desafiar as autoridades iranianas em diversas regiões do país.
Perspectivas Futuras: Entre a Repressão e a Resiliência Popular
À medida que os protestos persistem e a contagem de mortos e detidos cresce, o Irã se encontra em um ponto crítico. O governo demonstra não ter intenção de ceder às demandas dos manifestantes, optando por uma estratégia de repressão severa e atribuição de culpa a influências externas. A resiliência dos manifestantes, por outro lado, sugere que o movimento pode continuar a desafiar o status quo, mesmo diante do alto custo humano e das severas restrições impostas.
A comunidade internacional observa com crescente preocupação, especialmente com as implicações geopolíticas e o potencial de escalada do conflito. O futuro do Irã, e a estabilidade da região, dependem em grande parte de como esta luta interna complexa se desenvolverá nas próximas semanas.
Fonte: https://jovempan.com.br

