Milhares de pessoas saíram às ruas na Dinamarca e na Groenlândia neste sábado (17) para expressar veementemente sua rejeição às ambições do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de adquirir o vasto território autônomo da Groenlândia. As manifestações, que ocorreram sob um cenário de preocupação crescente com a soberania e o futuro do Ártico, reuniram cidadãos e líderes políticos em um claro posicionamento contra qualquer tentativa de negociação territorial sem o consentimento dos groenlandeses.

O episódio evidencia uma complexa interseção de interesses geopolíticos, direito internacional e o inalienável direito à autodeterminação. A forte resposta popular e as declarações oficiais sublinham a sensibilidade da questão, que vai além de meras transações imobiliárias, tocando na identidade e na segurança de uma região estratégica para o equilíbrio global.

A Onda de Protestos Transatlântica Reafirma a Soberania

Sob um céu nublado, a capital dinamarquesa, Copenhague, transformou-se em um mar de vermelho e branco na praça da prefeitura, replicando as cores da bandeira da Groenlândia. Jornalistas da AFP constataram a presença de milhares de manifestantes, que empunhavam cartazes com mensagens diretas, como “Os Estados Unidos já têm gelo suficiente” e “Make America Go Away”, uma paráfrase do famoso slogan de Trump. A mobilização em Copenhague foi articulada por grupos como Uagut, o movimento civil 'Mãos fora da Groenlândia!' e o coletivo Inuit, buscando amplificar suas vozes durante a visita de uma delegação do Congresso americano.

Simultaneamente, em Nuuk, capital da Groenlândia, o primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen juntou-se aos protestos, empunhando a bandeira de seu território. A adesão de figuras políticas de alto escalão reforçou a unanimidade da oposição à ideia de venda. Faarnig Larsen Strum, um enfermeiro de 44 anos, sintetizou o sentimento local: “Não queremos que Trump invada a Groenlândia”. Manifestações também foram registradas em outras cidades dinamarquesas, denotando a amplitude do descontentamento. Kirsten Hjoernholm, de 52 anos, funcionária da ONG Action Aid Dinamarca, destacou a importância de defender o direito do povo groenlandês a decidir seu futuro, invocando o direito internacional contra qualquer intimidação de potências estrangeiras.

As Ambições dos EUA e a Estratégia Ártica

A controvérsia foi reacendida após Donald Trump, desde seu retorno ao poder há um ano, reiterar em diversas ocasiões sua intenção de assumir o controle da Groenlândia. O ex-presidente havia afirmado que o faria “de uma maneira ou de outra”, justificando a aquisição como uma medida para conter o avanço estratégico da Rússia e da China no Ártico, região de crescente importância geopolítica devido aos seus recursos naturais e rotas comerciais.

O interesse americano foi reforçado por declarações de seus assessores. Stephen Miller, um dos conselheiros de Trump, argumentou publicamente a incapacidade da Dinamarca de defender a Groenlândia. Em entrevista à Fox News, Miller declarou que a Groenlândia é “tão grande quanto um quarto dos Estados Unidos” e que a Dinamarca, sendo um país pequeno com economia e exército limitados, não possuía os meios para garantir a segurança do território. Para intensificar a pressão, Trump chegou a advertir que aplicaria tarifas a países que não apoiassem seus planos para a ilha, elevando o tom da discussão para o âmbito econômico e das relações internacionais.

Reações Oficiais: Dinamarca, Europa e a Posição Groenlandesa

Em resposta à persistência da proposta americana, autoridades dinamarquesas participaram de uma reunião em Washington, onde concluíram que, por ora, um acordo com os dirigentes americanos não era viável. Este posicionamento recebeu amplo apoio de líderes europeus, que se manifestaram em solidariedade à Dinamarca, um membro fundador da OTAN. Demonstrando a seriedade com que a Europa encara a segurança da região, uma missão militar europeia foi enviada à Groenlândia para tarefas de exploração, reforçando a presença e o interesse em sua estabilidade.

A população groenlandesa, por sua vez, demonstrou uma rejeição inequívoca à ideia de anexação. Uma pesquisa de janeiro de 2025 revelou que 85% dos groenlandeses se opunham a fazer parte dos Estados Unidos. Julie Rademacher, presidente do movimento Uagut, expressou em comunicado à AFP que “os acontecimentos recentes colocaram a Groenlândia e os groenlandeses sob pressão”, alertando que a escalada de tensões poderia gerar mais problemas do que soluções. Isso ressalta que, para os habitantes do território, a questão é de autonomia e autodeterminação, e não uma moeda de troca em jogos geopolíticos.

Delegação Americana em Copenhague: Apoio e Preocupações Árticas

No mesmo sábado dos protestos, uma delegação bipartidária do Congresso americano, em seu último dia de visita a Copenhague, expressou apoio à Dinamarca e à Groenlândia, buscando acalmar as tensões. O senador democrata Chris Coons, que liderava a delegação, enfatizou perante a imprensa os 225 anos de aliança entre os Estados Unidos e a Dinamarca, destacando a longevidade e a importância da relação bilateral. Coons procurou tranquilizar as partes, afirmando que “não há ameaças imediatas” que coloquem a Groenlândia em risco no momento.

No entanto, o senador também ressaltou que as preocupações com a segurança futura no Ártico são “reais e compartilhadas”. Ele sublinhou a necessidade de “explorar formas de investir melhor na segurança do Ártico”, indicando que, embora a proposta de aquisição pudesse estar fora de questão, o interesse estratégico dos EUA na região e na sua estabilidade permanece. A visita da delegação serviu, portanto, como um esforço diplomático para reafirmar a aliança e discutir a segurança regional em um contexto de tensões elevadas.

Os eventos deste sábado e os desdobramentos subsequentes reiteram a complexidade do cenário geopolítico no Ártico. A firme rejeição popular e oficial da Dinamarca e da Groenlândia à proposta de aquisição de Trump, aliada ao apoio internacional e às discussões sobre segurança regional, sinaliza que a questão da soberania groenlandesa é inegociável para seus povos. Enquanto os EUA mantêm seu interesse estratégico na região, a prioridade para Dinamarca e Groenlândia continua sendo a autodeterminação e a proteção de seu território e identidade, em meio a um debate global sobre o futuro do Ártico.

Fonte: https://jovempan.com.br

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