A semana de negociações no mercado doméstico teve início com o dólar em notável desvalorização, encerrando a R$ 5,18. Esse patamar representa o menor valor de fechamento da moeda americana desde maio de 2024, em um movimento que reflete tanto tendências globais de mercado quanto fatores econômicos internos. A valorização do real, acompanhada pelo novo recorde de fechamento do Ibovespa, sugere uma mudança no apetite dos investidores por ativos brasileiros.

Cenário Global e a Desvalorização do Dólar

A queda do dólar foi amplamente influenciada por uma onda de desvalorização internacional da moeda americana. Operadores de mercado apontam para um robusto movimento global de diversificação de portfólios, onde o interesse por ativos denominados em dólar diminuiu. Um catalisador significativo para essa tendência foi a notícia de que a China teria aconselhado seus bancos a reduzir a exposição a títulos do Tesouro americano, impulsionando a valorização de outras divisas e do ouro. Essa dinâmica contribuiu para que o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de moedas fortes, apresentasse uma queda acentuada, recuando cerca de 0,80% e aproximando-se dos 96,800 pontos. Moedas como o franco suíço e a coroa sueca, por exemplo, valorizaram mais de 1%.

Fatores Domésticos Reforçam a Trajetória do Real

Embora o real não tenha liderado os ganhos entre as moedas emergentes, a divisa brasileira foi beneficiada por elementos internos que complementaram a pressão de baixa sobre o dólar. O mercado doméstico registrou um provável influxo de capital estrangeiro para a bolsa, culminando com o Ibovespa atingindo um novo recorde de fechamento. Adicionalmente, a perspectiva de um processo conservador de redução da taxa Selic, alinhada ao tom cauteloso do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em um evento recente, também contribuiu para a confiança no mercado local e a consequente valorização do real.

Em termos de desempenho, o dólar à vista encerrou o pregão em baixa de 0,62%, fixando-se em R$ 5,1882. No decorrer de fevereiro, a moeda já acumulava uma retração de 1,13%, vindo de perdas de 4,40% em janeiro, que representaram a maior desvalorização mensal desde junho do ano anterior. No acumulado do ano, o dólar já cedia 5,48% em relação ao real.

Análise de Mercado: Limites para a Valorização do Real

Para Luciano Costa, economista-chefe da corretora Monte Bravo, a dinâmica global do mercado de moedas foi determinante para o comportamento da taxa de câmbio, beneficiando o real e outras divisas emergentes pela diversificação de carteiras e a redução de posições em ativos americanos. Ele destaca que a valorização do real tem superado a queda do Dollar Index, o que pode indicar uma correção após o repique do câmbio em dezembro e o substancial ingresso de recursos em ativos domésticos, notadamente na bolsa de valores brasileira. Contudo, Costa ressalta que parte desses ingressos de investidores não residentes na B3 em janeiro pode ser proveniente de capital 'estacionado' em renda fixa brasileira no final do ano passado, que registrou um aporte líquido superior a US$ 5 bilhões em dezembro.

O economista expressa cautela quanto à sustentabilidade de uma valorização ainda mais acentuada do real. Ele considera o patamar de R$ 5,20 para o dólar já um nível baixo e acredita que o movimento mais intenso de fluxo de capital pode já ter ocorrido. Adicionalmente, o Ibovespa, embora em recorde, não é mais considerado 'barato' em termos de múltiplos de avaliação, sugerindo um potencial limitado para novas grandes injeções de capital com base unicamente na atratividade de preço.

Expectativas para o Federal Reserve e Captações Externas

No cenário internacional mais amplo, a semana passada havia visto o Dollar Index subir cerca de 0,50% devido à diminuição dos temores de perda de independência do Federal Reserve (Fed), após a indicação de um ex-diretor com histórico conservador para a presidência do banco central americano. Investidores permanecem atentos aos próximos passos do Fed, aguardando a divulgação do relatório de empregos (payroll) de janeiro para calibrar as apostas sobre cortes de juros, com a perspectiva crescente de uma redução de 25 pontos-base em março.

Paralelamente, o Tesouro Nacional anunciou uma nova captação externa, lançando bonds de 10 anos com vencimento em 2036 e reabrindo o papel para 2056. Embora essa operação não tenha um impacto direto imediato na formação da taxa de câmbio de curto prazo, ela é relevante para o fluxo de capital, servindo de baliza para as captações do setor privado no mercado internacional. Em novembro, o Tesouro já havia captado US$ 2,25 bilhões em títulos sustentáveis, com forte demanda.

Conclusão

A queda do dólar para o menor patamar em meses e o novo recorde do Ibovespa ilustram um momento de otimismo no mercado brasileiro, impulsionado por uma combinação favorável de fatores externos e internos. A diversificação global de portfólios, a recomendação chinesa de redução da exposição a Treasuries, o influxo de capital estrangeiro para a bolsa brasileira e a perspectiva de juros mais estáveis no país convergiram para fortalecer o real. Contudo, a análise de especialistas sugere que, embora o cenário atual seja positivo, a capacidade do real de se valorizar ainda mais pode encontrar limites, à medida que os fluxos de capital mais intensos se estabilizam e as valuations dos ativos domésticos se ajustam.

Fonte: https://jovempan.com.br

Share.

Comments are closed.