O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), anunciou na última quinta-feira (12) seu afastamento da relatoria do inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. A decisão ocorreu após a Polícia Federal (PF) encaminhar ao presidente da Corte, Edson Fachin, um relatório detalhado sobre a perícia realizada no aparelho celular de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira. O recuo do magistrado, que inicialmente resistiu à ideia, veio após intensas deliberações internas e a percepção de um desgaste desnecessário à imagem do tribunal.

O Relatório da Polícia Federal e o Debate no STF

O documento produzido pela Polícia Federal revelou diversas menções ao ministro Toffoli no conteúdo periciado do celular de Daniel Vorcaro. Diante dessas constatações, a PF solicitou ao presidente do STF a arguição de suspeição do magistrado, um pedido que visa declará-lo inidôneo para atuar no processo. Contudo, a legislação brasileira estabelece que essa solicitação formal deve ser feita exclusivamente pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, o que adiciona uma camada de complexidade à situação.

Inicialmente, na quarta-feira (11), Toffoli emitiu uma nota do seu gabinete refutando as alegações, classificando-as como 'ilações'. Amparado no artigo 145 do Código de Processo Civil, ele argumentou que a corporação policial não possuía legitimidade para formular tal pedido, prometendo uma resposta formal ao presidente da Corte. No entanto, o cenário mudou após uma reunião de portas fechadas entre os ministros do STF, realizada na quinta-feira (12). Durante o encontro, Toffoli, embora afirmasse não ver motivos para seu afastamento, acabou cedendo à pressão dos colegas, que avaliavam que sua continuidade no caso estava gerando um impacto negativo à imagem da instituição.

Pagamentos à Empresa Familiar de Toffoli Sob Análise

Um dos pontos centrais do relatório da PF, conforme amplamente divulgado, reside na troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel. Nesses diálogos, foram discutidos pagamentos destinados à empresa Maridt Participações. Curiosamente, Dias Toffoli e seus dois irmãos figuram como sócios dessa companhia. As mensagens faziam menção nominal ao sobrenome do ministro, e os pagamentos estariam relacionados à aquisição do Tayaya Resort, empreendimento do qual a Maridt fazia parte do quadro societário.

A Defesa do Ministro e a Cronologia dos Fatos

Em um novo comunicado, emitido também na quinta-feira (12), o gabinete de Toffoli se pronunciou especificamente sobre a Maridt Participações e as supostas ligações com Vorcaro. O ministro negou veementemente qualquer 'relação de amizade e muito menos amizade íntima' com o banqueiro, e garantiu que 'jamais recebeu qualquer valor' dele ou de Zettel. Ele esclareceu que a Maridt é uma empresa familiar de capital fechado, da qual ele participa do quadro de sócios, conforme permitido pela Lei Orgânica da Magistratura, sendo a administração exercida por seus familiares.

A defesa de Toffoli também se concentrou na linha do tempo. Ele explicou que a Maridt Participações integrou o grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. Essa participação foi encerrada por meio de duas operações sucessivas: a venda de cotas do Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a posterior transação com a PHD Holding, na data final do vínculo com o resort. Essa cronologia é crucial, pois, segundo o comunicado, a ação referente à compra do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) foi distribuída a Toffoli em 28 de novembro de 2025, ou seja, 'quando há muito a Maridt não fazia mais parte do grupo Tayaya Ribeirão Claro', desvinculando, assim, qualquer possível conflito de interesse no momento da distribuição do caso.

O Intrincado Caso do Banco Master: Origens e Irregularidades

Para contextualizar a complexidade do inquérito, é fundamental compreender a trajetória do Banco Master. Em novembro de 2025, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Banco Master S/A, do Banco Master de Investimentos S/A, do Banco Letsbank S/A e da Master S/A Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários, após identificar fortes indícios de irregularidades financeiras e uma grave crise de liquidez. Em janeiro subsequente, o Will Bank, braço digital do conglomerado de Vorcaro, também teve suas operações encerradas compulsoriamente.

As investigações revelaram que o Banco Master operava com uma estratégia insustentável: oferecia Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com rentabilidade significativamente acima da média de mercado. Para manter essa prática, a instituição financeira assumiu riscos excessivos e estruturou operações que inflavam artificialmente seu balanço financeiro, enquanto, nos bastidores, sua liquidez se deteriorava progressivamente, culminando na intervenção regulatória.

A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master representa um desenvolvimento significativo na apuração das irregularidades financeiras. A decisão, embora contestada inicialmente pelo próprio magistrado, reforça o compromisso do Supremo Tribunal Federal em preservar sua imagem e evitar desgastes internos, especialmente em temas de alta repercussão pública e que envolvem potenciais conflitos de interesse. O inquérito, agora sob nova relatoria, segue seu curso, prometendo mais desdobramentos em um cenário já intrincado de investigações no mercado financeiro.

Fonte: https://jovempan.com.br

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