A Câmara dos Deputados aprovou, na última quarta-feira (6), o Projeto de Lei (PL) que estabelece a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), mas a medida já enfrenta forte oposição. Enquanto mineradoras privadas elogiaram o texto, a Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (Amig Brasil) e diversos especialistas em mineração criticam a proposta, alegando que ela falha em promover a necessária industrialização desses recursos no país. O PL 2780 de 2024, após sua passagem pela Câmara, segue agora para análise e votação no Senado Federal.
Divergências sobre a Visão de Desenvolvimento Nacional
O cerne da controvérsia reside na visão de futuro para os minerais críticos brasileiros, que incluem elementos como as terras raras – essenciais para tecnologias de ponta, defesa militar e a transição energética global. A Amig Brasil expressou publicamente sua insatisfação, apontando que a redação atual do PL não oferece os mecanismos eficazes para impulsionar a industrialização desses minerais no território nacional. Em vez de solidificar a posição do Brasil como fornecedor de produtos de maior valor agregado, a proposta, na visão da associação, manteria o país em um papel de exportador de matéria-prima bruta.
A Análise Crítica de Especialistas do Inesc
Corroborando as preocupações dos municípios, analistas do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) emitiram um parecer detalhado que desassocia o PL de qualquer promessa de reindustrialização. O instituto argumenta que o projeto aprofunda um modelo extrativista, reforçando a posição do Brasil como mero fornecedor de insumos. O Inesc critica a premissa de que a "mão invisível do mercado" seria suficiente para desenvolver a indústria de minerais críticos no país, classificando-a como "desconectada da realidade e sem embasamento nos instrumentos incluídos na proposta".
A análise do Inesc salienta que o histórico de exportação brasileira em setores como minério de ferro, cobre e lítio demonstra a fragilidade de tal pressuposto. Segundo o instituto, a concessão de incentivos e subsídios adicionais ao setor, sem uma política explícita de valorização e beneficiamento interno, não altera o perfil de exportador primário do Brasil.
Pontos Problemáticos Identificados no Projeto
O Inesc identificou vários aspectos problemáticos no texto aprovado pela Câmara. Entre eles, destaca-se o "acesso preferencial ao Fundo Clima" e a previsão de que recursos públicos possam ser utilizados para minerais que não são categorizados como críticos, desviando o foco da política. Além disso, a proposta concede incentivos financeiros significativos para a *extração* de minérios, e não exclusivamente para a sua industrialização, o que enfraquece o objetivo de agregação de valor. A "financeirização excessiva" também foi apontada como um fator preocupante, sugerindo que o PL prioriza mecanismos financeiros em detrimento de estratégias concretas de desenvolvimento industrial.
Para os especialistas, esses incentivos indiscriminados, que beneficiam a extração e abrangem minerais não críticos, diluem a capacidade do projeto de realmente impulsionar a transformação e industrialização desejadas para os minerais estratégicos, fragilizando a meta principal da política.
Próximos Passos no Congresso Nacional
Com a aprovação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2780/2024, que visa instituir a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, segue agora para o Senado. Os senadores terão a responsabilidade de examinar a proposta, ponderando os argumentos das diversas partes interessadas, incluindo as críticas de municípios e especialistas, antes de decidir sobre sua aprovação final ou eventuais modificações. A etapa no Senado será crucial para determinar o arcabouço legal que guiará o aproveitamento desses recursos vitais para o futuro econômico e tecnológico do Brasil.
O debate no Senado, portanto, não será apenas técnico, mas também político e estratégico, definindo se o país optará por um caminho que privilegie a exportação de recursos brutos ou se buscará efetivamente uma política que estimule a industrialização e a soberania tecnológica no setor de minerais críticos.

