A Justiça de Ribeirão Preto (SP) deu um passo crucial no desvendamento de um complexo esquema de roubo e receptação de joias avaliadas em R$ 4 milhões. O caso, que ganhou notoriedade por envolver uma sofisticada rede criminosa em três estados e a venda dos produtos ilícitos em um programa de televisão, entra agora na fase de audiências. O ponto de partida será o depoimento do primeiro delator, peça chave para entender a mecânica da organização.

A decisão de avançar com o processo foi expedida recentemente, estabelecendo um cronograma detalhado de oitivas. As prisões preventivas dos réus já detidos foram mantidas, sublinhando a gravidade das acusações e a importância das próximas etapas judiciais para a elucidação completa do caso.

O Cronograma Judicial e o Papel do Delator

O juiz Guacy Sibille Leite definiu as datas das audiências, que se estenderão de junho a agosto. O marco inicial é o depoimento de Luis Rinaldo da Silva, programado para a próxima quinta-feira (11). Silva, acusado de participação direta no roubo, firmou um acordo de delação premiada com a Justiça, o que o coloca em posição central para fornecer detalhes inéditos sobre a operação da quadrilha.

Após a oitiva do delator, o calendário prevê a escuta de testemunhas de acusação em 8 de julho, seguida pelas testemunhas de defesa dos réus em 31 de julho e 7 de agosto. A fase final será dedicada ao interrogatório dos próprios acusados, agendado para 13 de agosto, encerrando a rodada inicial de oitivas e prometendo trazer mais clareza aos fatos.

A Complexidade da Rede Criminosa e a Venda em Programa de TV

A quadrilha desarticulada pela operação estabeleceu uma intrincada rede de receptação que se estendia por São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Investigada inicialmente por invasões a residências focadas na subtração de joias, a organização revelou um modus operandi sofisticado, culminando na venda dos itens roubados por meio do programa televisivo 'Mil e Uma Noites', transmitido no Paraná.

A descoberta da venda em TV se deu de forma surpreendente: vítimas de um assalto a uma casa no bairro Ribeirânia, em Ribeirão Preto, em 17 de maio, reconheceram um colar de ouro e diamantes, comprado há mais de duas décadas, sendo comercializado ao vivo. Essa revelação impulsionou a investigação, levando a família a adquirir outras oito peças para confirmar as suspeitas e coletar provas contra os criminosos, que também teriam levado relógios de alto valor, celulares e dinheiro.

As Investigações e os Envolvidos

As diligências da Polícia Civil, iniciadas em 28 de maio do ano passado, foram fundamentais para a identificação e denúncia de 15 pessoas por crimes como associação criminosa, adulteração de sinal identificador de veículo, roubo majorado e receptação qualificada. Além do reconhecimento das joias na televisão, os agentes utilizaram análises de câmeras de segurança, rastreamento de celulares e denúncias anônimas, complementadas por reconhecimento facial das vítimas.

A delação de Luis Rinaldo da Silva, formalizada em outubro do ano passado, foi crucial para detalhar a execução dos roubos e a função de cada membro da quadrilha. As investigações resultaram na apreensão de joias em Ribeirão Preto e na sede do programa de TV em Curitiba, bem como de um veículo Jeep Compass com placas clonadas e diversos mandados de prisão cumpridos.

Entre os presos está Diego de Freitas, conhecido como 'Diego Ouro', que confessou ter receptado e revendido as joias ao empresário Haig Hovsepain, de Minas Gerais, atualmente em prisão domiciliar. Hovsepain é apontado como o elo responsável por encaminhar parte dessas joias a Paulo César Calluf, proprietário do programa 'Mil e uma noites' e que, até o momento, permanece foragido da Justiça. Alguns acusados também são investigados por um 'arrastão' em um prédio no Centro de Ribeirão Preto, sugerindo uma atuação mais ampla da organização.

Conclusão: Rumo à Desarticulação Completa

A aceitação da denúncia do Ministério Público pela Justiça em novembro do ano passado, com o bloqueio de bens e a decretação de prisões preventivas, evidenciou a robustez das provas e a seriedade do esquema. A estrutura da organização criminosa, com divisão de tarefas e diferentes núcleos de atuação, demonstra a complexidade enfrentada pelas autoridades.

Com o início das audiências, espera-se que todos os detalhes desse engenhoso esquema de roubo e receptação, que ousou comercializar os produtos do crime em rede nacional, venham à tona. A Justiça de Ribeirão Preto avança para desmantelar de vez a quadrilha e garantir que todos os envolvidos respondam por suas ações, trazendo um desfecho para as vítimas de um dos roubos mais notórios da região.

Fonte: https://g1.globo.com

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