As denúncias de assédio sexual contra o padre Mário Reis da Silveira, que já geravam uma investigação em Ribeirão Preto (SP), ganharam um novo e impactante capítulo. Um homem, cuja identidade foi preservada, veio a público para relatar que também foi vítima do sacerdote em duas ocasiões distintas, quando já tinha 31 anos. Seu testemunho se soma a uma série de acusações que levaram ao afastamento do padre de suas funções eclesiásticas, expondo um padrão de conduta preocupante e a dificuldade das vítimas em denunciar os abusos.
As Duas Abordagens e a Desconstrução de uma Imagem Divina
O novo denunciante descreveu dois episódios de assédio envolvendo o padre Mário Reis da Silveira. O primeiro ocorreu durante um trajeto de carro, no período em que ele ainda participava ativamente das atividades da Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim, localizada no distrito de Bonfim Paulista. O homem relata que o sacerdote tocou sua virilha, um ato que, inicialmente, foi interpretado por ele como um gesto de carinho e afeto, dada a figura respeitada do padre na comunidade. Em suas próprias palavras, ele preferia acreditar que o padre era um 'enviado de Deus', alguém que veio para somar e fazer a comunidade crescer, desviando a interpretação para um contexto não sexual.
A percepção, contudo, mudou drasticamente em um segundo incidente. Em sua residência, o homem presenciou o padre apalpar as próprias partes íntimas em sua presença. Esse episódio, segundo ele, eliminou qualquer dúvida que pudesse ter sobre a natureza das ações do sacerdote, marcando um 'estalo' que revelou a gravidade do comportamento. A partir desse momento, a confiança na figura do padre e o vínculo com a paróquia foram irremediavelmente rompidos.
O Peso do Silêncio e a Coragem de Falar Agora
Embora os incidentes tenham ocorrido há algum tempo, o homem não procurou a polícia nem a arquidiocese na época. Ele justifica essa omissão pela crença de que sua palavra seria facilmente contestada, transformando a denúncia em um embate de 'um contra o outro', sem provas concretas. O temor da descrença e a dificuldade de confrontar uma figura de autoridade religiosa contribuíram para o seu silêncio.
A decisão de expor seu relato agora está intrinsecamente ligada ao aumento das denúncias contra o padre Mário Reis da Silveira, que vieram à tona recentemente. A emergência de outras vítimas e a instauração de uma investigação policial trouxeram um senso de urgência e validade à sua própria experiência, encorajando-o a quebrar o silêncio e contribuir para o esclarecimento dos fatos.
Padrão de Conduta e as Acusações Anteriores
Este novo testemunho se alinha a um quadro de acusações já existentes contra o padre Mário Reis da Silveira. Ele é atualmente investigado por suspeita de assédio contra pelo menos cinco outras vítimas, muitos deles ex-coroinhas da mesma Paróquia Senhor Bom Jesus do Bonfim. Os relatos das vítimas anteriores descrevem um padrão de abuso que se estendeu por diferentes períodos, alguns datando de até 20 anos.
As denúncias anteriores detalham abusos ocorridos em momentos de vulnerabilidade e privacidade, como na sacristia da igreja após as missas. As vítimas relatam toques em partes íntimas e tentativas de beijo. Um dos relatos mais pungentes é de um homem de 32 anos, que, ao recordar os traumas de sua infância aos 12, afirmou categoricamente: 'Meu primeiro beijo na boca foi com um padre', evidenciando o profundo impacto psicológico desses atos.
A Resposta da Igreja e as Medidas Judiciais
Diante da gravidade das acusações, a Igreja Católica agiu. Em 12 de março, o arcebispo Dom Moacir Silva instaurou uma investigação prévia e determinou a suspensão imediata de todas as funções eclesiásticas do padre Mário Reis da Silveira. A Cúria Metropolitana de Ribeirão Preto, em comunicado oficial, informou que o caso corre sob segredo de Justiça, optando por não comentar as novas denúncias em respeito ao processo legal em andamento.
Paralelamente à investigação interna da Igreja, a Polícia Civil também segue com as apurações, buscando reunir evidências e dar prosseguimento às denúncias. A suspensão do padre e a investigação policial sublinham a seriedade com que as autoridades eclesiásticas e civis estão tratando o conjunto de acusações.
Impacto e Buscando Justiça
O surgimento do novo testemunho intensifica a pressão sobre a investigação e reforça a percepção de um padrão de conduta abusiva por parte do padre Mário Reis da Silveira. A coragem das vítimas em vir a público, mesmo após anos de silêncio, destaca a importância de um ambiente seguro para denúncias e o amparo a quem foi lesado. A comunidade de Ribeirão Preto e os fiéis aguardam, agora, por respostas concretas e justiça, em um caso que expõe as dolorosas consequências da quebra de confiança e do abuso de poder dentro de instituições religiosas.
Fonte: https://g1.globo.com

