Ribeirão Preto, SP – Três meses após ser assolada por um vendaval de proporções históricas, que registrou ventos de até 160 km/h em 24 de julho, a cidade de Ribeirão Preto ainda lida com as profundas cicatrizes da destruição. A administração municipal estima um prejuízo que já supera a marca dos R$ 50 milhões e aguarda, com expectativa, a liberação de recursos adicionais dos governos estadual e federal para poder avançar nas obras de reconstrução mais complexas e na recuperação de espaços públicos significativos.

O Balanço Abrangente dos Estragos: Custos que Ultrapassam R$ 50 Milhões

A magnitude dos danos provocados pelo temporal revelou-se muito além das estimativas iniciais. Se, no calor da emergência, os primeiros cálculos apontavam para R$ 21,1 milhões focados na limpeza e remoção de árvores, o balanço consolidado de danos em prédios públicos e na infraestrutura urbana revelou uma realidade mais grave. A conta final, que já ultrapassa R$ 50 milhões, engloba não apenas a restauração de prédios icônicos como os teatros Municipal e de Arena, o Centro Pop e a Escola Municipal Professor Nagib Jorge, mas também a recomposição de toda a infraestrutura urbana e os custos operacionais extras. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente registrou a queda de cerca de 3 mil árvores, resultando na coleta de impressionantes 9.976 caminhões de resíduos verdes nos 90 dias subsequentes – um volume oito vezes superior à média mensal da cidade, que é de 1,2 mil caminhões. Esse aumento drástico na demanda impactou diretamente os contratos existentes, encarecendo os serviços de recolhimento e transporte, conforme explicou o secretário municipal de Governo. Além disso, o vendaval causou um massivo desabastecimento de energia elétrica, afetando 285 mil unidades consumidoras, interrompeu o funcionamento de poços da SAERP, exigiu a troca de bombas queimadas e danificou o telhado do Centro Administrativo da Prefeitura, com reparos avaliados em R$ 180 mil.

Resposta Imediata do Município e os Recursos Mobilizados Internamente

Diante do cenário de calamidade, a Prefeitura de Ribeirão Preto agiu rapidamente para mitigar os impactos mais urgentes. Desde o fim de julho, o município recebeu um total de R$ 11,5 milhões, dos quais R$ 8,5 milhões foram empregados em intervenções emergenciais cruciais. A mobilização de recursos incluiu R$ 2,48 milhões provenientes de um convênio com a Defesa Civil estadual, especificamente para a aplicação em serviços. Contudo, um suporte financeiro imediato e fundamental veio da Câmara Municipal, que devolveu R$ 6 milhões de seu orçamento ao executivo. Esse montante, classificado como recurso próprio e de livre aplicação, foi essencial para que o município pudesse expandir as equipes de limpeza e manutenção de empresas contratadas, garantindo a desobstrução de vias, o recolhimento de árvores caídas e reparos pontuais em postos de saúde e escolas, oferecendo uma resposta rápida à população nos momentos de maior crise.

A Dependência de Verbas Externas para a Reconstrução Estrutural

Apesar dos esforços municipais e dos recursos próprios mobilizados, a reconstrução estrutural de grande porte dos prédios públicos e da infraestrutura danificada permanece condicionada à liberação de verbas externas. Conforme dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, o município recebeu R$ 5,2 milhões em repasses da União e do Estado. Deste total, R$ 4 milhões vieram do governo estadual – incluindo o convênio de R$ 2,48 milhões com a Defesa Civil para aplicação em serviços – e R$ 1,2 milhão do governo federal, direcionado especificamente para as áreas de saúde e assistência social. O Secretário Municipal de Governo, Jean Vicente, enfatizou que, embora a prefeitura esteja pronta para agir, as intervenções maiores dependem desses repasses. “Não posso dar prazo para você quando envolve terceiros. Fica difícil eu falar da manutenção do Teatro Municipal ainda, quando a gente tem um projeto cadenciado no governo federal, esperando recurso. A gestão da prefeitura, assim que o recurso chegar, é ser rápido e fazer, isso a gente se compromete a fazer”, afirmou Vicente, sublinhando que valores ainda não utilizados estão atrelados a projetos que exigem novos contratos, aguardando justamente a materialização desses recursos externos.

A Contribuição da Iniciativa Privada e os Próximos Desafios

Em um notável exemplo de solidariedade, a iniciativa privada de Ribeirão Preto também se mobilizou para apoiar a recuperação da cidade. Um grupo de empresários destinou cerca de R$ 1,5 milhão em doações e reformas, assumindo, por exemplo, a restauração completa de uma unidade básica de saúde. Essa colaboração entre setores público e privado tem sido fundamental para aliviar parte da carga sobre o orçamento municipal e acelerar a recuperação em áreas específicas. No entanto, os desafios persistem. Com boa parte dos recursos já empregados em caráter emergencial, a prefeitura se mantém em compasso de espera, monitorando os projetos enviados aos governos estadual e federal. A expectativa é que, com a efetivação dos repasses aguardados, as obras mais complexas e de maior envergadura possam finalmente ser iniciadas, permitindo a plena restauração dos bens públicos e da qualidade de vida da população ribeirão-pretana.

Três meses após a fúria do vendaval, Ribeirão Preto segue em sua jornada de reconstrução, equilibrando a urgência das reparações com a complexidade da obtenção de fundos. A cidade já demonstrou capacidade de resposta imediata, mas a recuperação total de seus espaços e infraestrutura depende agora de uma articulação contínua e eficaz entre todas as esferas de governo e a sociedade civil. O caminho é longo, mas a resiliência demonstrada por seus cidadãos e a busca incessante por recursos sinalizam um futuro de superação para a metrópole do interior paulista.

Fonte: https://g1.globo.com

Share.

Comments are closed.