Após um período de intensa negociação que se estendeu por aproximadamente quatro meses, os petroleiros da Petrobras finalmente chegaram a um consenso com a gestão da empresa, resultando no encerramento da greve e na aprovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) para o triênio 2025-2027. O desfecho, que evitou um dissídio no Tribunal Superior do Trabalho (TST) agendado para os dias seguintes, marca o fim de um capítulo de incertezas nas relações trabalhistas da estatal. A Petrobras, por sua vez, garantiu durante todo o processo que as paralisações não impactaram a produção de petróleo e derivados nem comprometeram o abastecimento nacional. Este acordo representa um marco importante, especialmente pela composição do reajuste salarial, que superou as ofertas iniciais da companhia e estabeleceu novas bases para a categoria em um cenário econômico desafiador.
O Desfecho de Uma Longa Negociação
A cronologia da paralisação e as propostas iniciais
As negociações entre a Petrobras e as entidades representativas dos trabalhadores, que se arrastavam por cerca de 120 dias, culminaram na assinatura do ACT 2025-2027, colocando um ponto final na greve. Este processo complexo e multifacetado viu a apresentação de quatro diferentes versões de acordos antes que uma solução fosse finalmente aceita pela totalidade das federações. A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), que representa uma parcela significativa dos trabalhadores da estatal, foi a última a ratificar o consenso, o que sublinha a persistência de suas reivindicações ao longo do processo. Diferentemente da Federação Única dos Petroleiros (FUP), que havia encerrado sua participação na greve dias antes, a FNP manteve a pressão até o último momento antes da iminente intervenção judicial.
Desde o início das discussões, a Petrobras manteve uma postura que foi classificada como “intransigente e omissa” pela FNP, conforme declarações de seu secretário-geral, Adaedson Costa. A oferta inicial da companhia, que previa um reajuste salarial de 80% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) para 2025 e 100% do INPC para 2026, foi considerada insuficiente pela categoria. Essa proposta inicial refletia uma abordagem que visava principalmente a reposição inflacionária sem ganhos reais substanciais, o que gerou forte resistência entre os trabalhadores. A persistência da greve e a ameaça concreta de um dissídio coletivo no Tribunal Superior do Trabalho (TST), agendado para o dia 2 de fevereiro, foram cruciais para a evolução das conversas, forçando a empresa a recalibrar suas ofertas e buscar um terreno comum que atendesse às expectativas dos trabalhadores e evitasse uma intervenção judicial com resultados incertos para ambas as partes.
Os Termos do Acordo e as Implicações Financeiras
A evolução das propostas e o impacto salarial para os trabalhadores
A quarta e última contraproposta apresentada pela Petrobras foi o ponto de virada decisivo para o encerramento da greve. A empresa avançou significativamente em relação às suas ofertas anteriores, propondo um reajuste salarial de 100% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) referente ao ano anterior, acrescido de um aumento real de 0,5%. Essa mudança da base de cálculo do INPC para o IPCA, geralmente considerado mais abrangente por medir a inflação para uma faixa maior da população, aliada ao ganho real, foi um fator determinante para a aceitação do acordo pela maioria dos sindicatos. O IPCA é reconhecido como o índice oficial de inflação do Brasil, refletindo de forma mais ampla o custo de vida, enquanto o INPC foca nas famílias de baixa renda. A inclusão de um percentual de aumento real, mesmo que modesto, representa uma vitória para os petroleiros, que viram seu poder de compra corroído em períodos anteriores de estagnação salarial.
Essa nova formulação salarial, que abrange o período do ACT 2025-2027, confere aos trabalhadores um alívio financeiro e uma perspectiva de valorização que não havia sido contemplada nas propostas iniciais. O ganho real de 0,5% assegura que os salários não apenas acompanhem a inflação, mas também registrem um leve crescimento acima dela, um feito importante em cenários de alta instabilidade econômica. O acordo, assinado no dia 30 do mês passado por FNP e FUP, evitou um desfecho judicial no TST, que poderia prolongar a incerteza e potencialmente impor termos menos favoráveis a uma das partes. A resolução amigável, ainda que alcançada após um longo embate, demonstra a capacidade de negociação das partes e a busca por um equilíbrio que garanta a estabilidade operacional da Petrobras e o reconhecimento das demandas dos seus empregados. A formalização do ACT trouxe uma segurança jurídica para ambas as partes, delineando as regras para os próximos anos e permitindo que o foco retorne integralmente às operações da companhia.
Desafios Futuros e o Cenário do Setor Petrolífero
Ainda que o acordo coletivo tenha sido celebrado como uma vitória pelos petroleiros, a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) fez questão de ressaltar que importantes reivindicações ainda permanecem pendentes. Entre elas, destaca-se a recomposição salarial referente a períodos anteriores, notadamente os governos Temer e Bolsonaro. A FNP relembrou que, em 2019, o reajuste salarial foi de apenas 70% do INPC, e em 2020, não houve qualquer reajuste, o que acumulou perdas significativas para a categoria. Adaedson Costa, secretário-geral da FNP, enfatizou que essa falha em recompor os salários dos “ataques da ultradireita” é uma ferida aberta que precisa ser endereçada em futuras negociações, mantendo viva a pauta de recuperação de perdas históricas e a busca por uma justiça salarial de longo prazo.
Olhando para o futuro imediato, a FNP já sinalizou o próximo grande desafio: a elaboração e implementação de um novo Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS) que seja verdadeiramente satisfatório para a categoria. A expectativa é que, em aproximadamente quatro meses, a direção da Petrobras apresente uma proposta concreta para o PCCS, que é fundamental para a progressão profissional, a meritocracia e a valorização dos trabalhadores em longo prazo. Um PCCS robusto e bem estruturado é vital para a atração e retenção de talentos em uma empresa do porte e complexidade da Petrobras, além de ser um elemento central para a motivação e a produtividade da força de trabalho. Este ponto demonstra que, embora o atual ACT resolva uma questão imediata, a dinâmica das relações trabalhistas na Petrobras é contínua e permeada por demandas estratégicas de longo prazo. O cenário do setor petrolífero, com suas constantes flutuações e a crescente pressão por transição energética, adiciona uma camada extra de complexidade a essas discussões, exigindo diálogo constante e soluções adaptáveis que considerem tanto a sustentabilidade da empresa quanto o bem-estar de seus colaboradores.
Fonte: https://jovempan.com.br

