A batalha contínua contra a doença
Os primeiros diagnósticos e a rotina hospitalar
A saga de Raílla Sousa começou em 2019, aos oito anos de idade, com o diagnóstico de um sarcoma de Ewing, um tipo raro e agressivo de câncer ósseo ou de tecidos moles. A partir daquele momento, hospitais em Teresina (PI), Petrolina (PE) e, finalmente, Barretos (SP), tornaram-se o segundo lar para a jovem e sua mãe, Marluce. A primeira intervenção cirúrgica removeu o tumor, seguida por intensas sessões de quimioterapia. Marluce, uma figura de inabalável força e fé, permaneceu ao lado da filha em cada etapa, enfrentando o medo latente que, apesar da crença, se manifestava em momentos de angústia. “Por que isso? Por que com a minha filha?”, questionava a mãe, ciente da gravidade da situação. A imunidade de Raílla, fragilizada pelo tratamento, demandava isolamento constante, transformando a pandemia global em uma extensão da realidade que a família já vivenciava. A febre era uma constante ameaça, e as internações frequentes pontuavam a vida da menina. A radioterapia também se fez necessária, adicionando mais uma camada de desafio ao já extenuante tratamento.
A leucemia e os transplantes
Em 2023, a família enfrentou um novo e mais complexo obstáculo: a leucemia mieloide, uma condição secundária ao tratamento do sarcoma de Ewing. Este diagnóstico exigiu um transplante de medula óssea, levando mãe e filha a se mudarem para Barretos, referência em oncologia pediátrica. O primeiro transplante, realizado em um ano específico, teve a irmã mais velha de Raílla, Alessandra, de 23 anos, como doadora. A esperança de uma cura definitiva foi, contudo, abalada um ano depois, quando exames de rotina revelaram a recidiva da leucemia. A oncopediatra Neysi Costa Villela, do Hospital de Amor Infantojuvenil de Barretos, que acompanhou Raílla, descreveu a recorrência como um golpe inesperado. Para o segundo transplante, uma busca minuciosa por doadores na família identificou cinco compatíveis entre oito testados, sendo o primo de 18 anos de Raílla o escolhido. A complexidade de um segundo transplante já pressagiava riscos elevados, e, infelizmente, Raílla começou a apresentar complicações graves pouco tempo após o procedimento.
O ponto crítico: AVC e o prognóstico desolador
As complicações pós-transplante
Apenas dezoito dias após o segundo transplante de medula, Raílla sofreu um evento catastrófico: um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Este incidente foi precedido e agravado pela encefalopatia posterior reversível (PRES), uma alteração cerebral associada a medicações do transplante, e um sangramento raro, potencializado pela ausência de plaquetas – um efeito direto da medula ainda não funcional. Segundo a Dra. Neysi, o caso de Raílla era “extremamente grave”, com um sangramento atípico em um momento de vulnerabilidade máxima. A jovem entrou em coma, e seu estado de saúde deteriorou-se rapidamente. Com a contagem de plaquetas perigosamente baixa, uma intervenção cirúrgica para estancar o sangramento tornou-se impossível. Os médicos, diante do limite da ciência e de todos os recursos disponíveis, comunicaram à família que não havia mais nada a ser feito. Marluce recorda a dolorosa realidade: “Tudo que a medicina podia fazer, já tinha feito. Não tinha mais nada que estivesse ao alcance deles. Falaram pra gente esperar ela descansar, porque não tinha nada a fazer.” A orientação médica era para aguardar o inevitável, um desfecho que parecia selado para a jovem paciente.
A despedida e a virada inesperada
Diante do prognóstico desesperançoso, os médicos sugeriram que Alessandra, a irmã mais velha de Raílla e doadora no primeiro transplante, fosse a Barretos para se despedir. A ligação entre as irmãs, no entanto, transcendeu a medicina. Marluce narra com emoção que, a partir da chegada de Alessandra à cidade, uma mudança inexplicável começou a ocorrer. O medo de que Raílla partisse antes de sua irmã chegar era palpável. Alessandra, que sempre manteve uma fé inabalável na recuperação da irmã, foi testemunha da reviravolta. “A hora que ela chegou, o batimento da Raílla começou a melhorar, depois ela foi recuperando pouco a pouco nos dias seguintes”, conta Marluce, descrevendo uma melhora gradual nos sinais vitais da adolescente. A presença e a crença da irmã mais velha pareceram ser o catalisador para uma recuperação que a equipe médica não conseguia explicar. A preocupação com as sequelas neurológicas, dadas as complicações e o tempo em coma, era imensa, mas Raílla continuou a desafiar as expectativas, apresentando uma recuperação surpreendente sem quaisquer danos permanentes.
O milagre da recuperação e o futuro
A recuperação de Raílla é considerada um verdadeiro milagre, um testemunho que superou todas as probabilidades médicas. Contrariando os prognósticos de óbito ou de um estado vegetativo, a jovem não apenas sobreviveu, mas se recuperou integralmente, sem qualquer sequela física ou neurológica. A Dra. Neysi Costa Villela expressou o espanto da equipe médica: “A gente, realmente, não fez nada. Quem fez foi só Deus. Só ficamos olhando e foi por isso que chamou a nossa atenção.” A celebração do 15º aniversário de Raílla, um sonho que sua mãe temia nunca se concretizaria, foi realizada exatamente como a jovem sonhou, simbolizando a vitória sobre a doença e a renovação da vida. Inspirada por sua jornada de superação, Raílla já decidiu sua vocação: ela aspira a ser médica. Sua experiência pessoal a motiva a oferecer esperança a outros. “Quando passar uma pessoa comigo e não tiver mais jeito, falo que tem sim, que Deus está acima de tudo. E eu vou contar a história que sou a prova disso”, afirma Raílla, com a sabedoria e a resiliência de quem viu a morte de perto. Marluce Isabel Coelho acredita que a história da filha tem um propósito maior, servindo de inspiração para outras famílias que enfrentam o árduo caminho do tratamento oncológico. A recuperação de Raílla não é apenas uma vitória individual, mas um poderoso lembrete da força da fé, da medicina e da resiliência humana diante dos desafios mais extremos, impactando vidas e reacendendo a chama da esperança em incontáveis corações.
Fonte: https://g1.globo.com

