Desempenho Estelar nos Mundiais: Atletismo e Judô no Topo

A Supremacia Brasileira no Atletismo Paralímpico Mundial

O ano de competições culminou em um feito sem precedentes para o atletismo paralímpico brasileiro em outubro, quando a seleção nacional fez história em Nova Déli, Índia, ao encerrar o Campeonato Mundial da modalidade no topo do quadro de medalhas. Com uma impressionante coleção de 15 ouros, 20 pratas e nove bronzes, o Brasil superou a tradicionalmente dominante China, que pela segunda vez na história do evento não ocupou o primeiro lugar. Nas três edições anteriores, a equipe brasileira havia conquistado a segunda posição, evidenciando o salto qualitativo e a evolução do esporte no país. Entre os grandes nomes que contribuíram para esse êxito estrondoso, a acreana Jerusa Geber emergiu como uma verdadeira estrela. Ela conquistou dois ouros, tornando-se tetracampeã mundial nos 100 metros rasos da classe T11 (atletas com cegueira total). Com essa performance, Jerusa alcançou um total de 13 pódios em Mundiais (sete ouros, cinco pratas e um bronze), superando o recorde de 12 medalhas (oito ouros e quatro pratas) da lendária mineira Terezinha Guilhermina, que competia na mesma categoria, solidificando seu legado no esporte.

Judô Paralímpico: Recorde de Medalhas e Nomes de Destaque

Maio foi o mês do Campeonato Mundial de Judô, realizado na cidade de Astana, Cazaquistão, onde o Brasil também marcou presença de forma contundente e histórica. A delegação brasileira ascendeu ao pódio em 13 ocasiões, com cinco delas no degrau mais alto, liderando o quadro de medalhas de maneira inédita na história da competição. Esse resultado notável consolidou o judô paralímpico brasileiro como uma força global. A paulista Alana Maldonado brilhou intensamente, conquistando seu tricampeonato na categoria até 70 quilos (kg) da classe J2 (baixa visão), demonstrando consistência e domínio em sua modalidade. Outro destaque foi o paraibano Wilians Araújo, que assegurou seu bicampeonato na categoria acima de 95 kg da classe J1 (cego total), reafirmando sua hegemonia. O evento também foi palco de uma emocionante final 100% brasileira na categoria acima de 70 kg da classe J2, na qual Rebeca Silva superou sua compatriota paulista Meg Emmerich, em um embate que reforçou a profundidade do talento nacional. Além disso, a carioca Brenda Freitas e a potiguar Rosi Andrade conquistaram ouros inéditos em suas respectivas categorias – até 70kg e até 52 kg, ambas na classe J1 – adicionando ainda mais brilho à campanha brasileira.

Diversidade de Conquistas e Desafios Administrativos

Pódios Globais: Da Natação à Canoagem, Ciclismo e Tênis em Cadeira de Rodas

Além dos triunfos no atletismo e judô, o Brasil celebrou importantes conquistas em diversas outras modalidades ao longo da temporada. No Campeonato Mundial de Natação, sediado em Singapura em setembro, a equipe brasileira demonstrou sua força, conquistando 13 medalhas de ouro e um total de 39 pódios, garantindo o sexto lugar em um quadro de medalhas equilibrado, liderado pela Itália. Os grandes nomes da natação foram o mineiro Gabriel Araújo, o “Gabrielzinho”, da classe S2 , e a pernambucana Carol Santiago, da classe S12 (baixa visão), ambos com três ouros individuais, reafirmando seu status de estrelas. No Mundial de Canoagem, em Milão, o sul-mato-grossense Fernando Rufino “Cowboy” conquistou o único ouro brasileiro nos 200 metros da classe VL2 (atletas que utilizam tronco e braços na remada), replicando sua vitória dos Jogos de Paris em 2024, com o paranaense Igor Tofalini em segundo lugar. Ao todo, o país acumulou cinco pódios na Itália. No ciclismo, o paulista Lauro Chaman garantiu seu tricampeonato na prova de resistência da classe C5 no Mundial de estrada, na Bélgica, em agosto. Já no Mundial de ciclismo de pista, realizado no Velódromo do Rio de Janeiro em outubro, a equipe brasileira obteve nove medalhas, com destaque para o ouro e recorde da paulista Sabrina Custódia no contrarrelógio de 1km da classe C2. O tênis em cadeira de rodas também teve um desempenho notável na Copa do Mundo em Antalya, Turquia, em maio, onde a seleção brasileira da classe quad alcançou a final pela primeira vez, conquistando a prata contra a Holanda. A categoria júnior também brilhou, com a participação importante dos mineiros Vitória Miranda e Luiz Calixto, que foram semifinalistas e terminaram em quarto lugar. Eles também tiveram um ano excepcional nos Grand Slams: Vitória foi campeã de simples e duplas no Aberto da Austrália e em Roland Garros, enquanto Luiz venceu as duplas masculinas no Aberto da Austrália com o norte-americano Charlie Cooper, marcando o último ano de ambos na categoria júnior. Em outubro, no Mundial de halterofilismo no Cairo, a seleção feminina conquistou o ouro por equipes, com Tayana Medeiros, Lara Lima e Mariana d’Andrea também assegurando pratas e bronzes em suas categorias individuais, demonstrando a força coletiva e individual da modalidade.

O Contraponto nos Bastidores: A Crise do Tênis de Mesa e o Bolsa Atleta

Apesar dos múltiplos êxitos nas arenas internacionais, o esporte paralímpico brasileiro enfrentou um período de turbulência nos bastidores, especialmente no tênis de mesa. Em julho, um grupo composto por nove atletas de elite, somando impressionantes 16 medalhas paralímpicas, formalizou um ofício ao Ministério do Esporte, expressando profunda insatisfação com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). As reclamações centravam-se em exigências consideradas polêmicas e onerosas. Entre elas, destacava-se a imposição de que os atletas investissem um percentual significativo (variável entre 30% e 60%) do valor do Bolsa-Pódio – a principal categoria do programa Bolsa Atleta, um subsídio crucial do Governo Federal – para custear suas próprias participações em campeonatos internacionais. Adicionalmente, o planejamento esportivo de cada atleta exigia a contemplação de no mínimo dez eventos fora do país para ser aprovado pela entidade, condição indispensável para o recebimento do benefício. No documento, os mesatenistas reivindicaram, entre outras ações, a intervenção na confederação, o reconhecimento da excelência por resultados efetivos e não pela mera quantidade de eventos disputados, e a elaboração de um planejamento com “critérios técnicos objetivos”. Em resposta ao ofício, o Ministério do Esporte informou que “não há previsão, no normativo vigente do Programa Bolsa Atleta”, para as exigências apresentadas pela CBTM. Diante da repercussão e da posição do Ministério, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa acabou por revogar a controversa medida. No entanto, o embate deixou marcas, e a tensão entre atletas e a entidade permanece, indicando que o racha administrativo ainda não foi completamente superado.

Otimismo e Perspectivas para o Ciclo de Los Angeles 2028

O ano de competições paralímpicas do Brasil, o primeiro do ciclo de Los Angeles 2028, se encerra com um saldo predominantemente positivo, repleto de conquistas históricas e a consolidação do país como uma potência no esporte adaptado globalmente. Os resultados expressivos em modalidades como atletismo, judô, natação, ciclismo e canoagem demonstram não apenas o talento individual dos atletas, mas também a força e a profundidade da estrutura de desenvolvimento esportivo. Já no início da temporada, o otimismo para o futuro se fez presente com o triunfo de Cristian Ribera, que em fevereiro se tornou campeão mundial de esqui cross country em Trondheim, Noruega, na prova de sprint. O atleta rondoniense surge como uma das grandes esperanças de medalha para o Brasil na Paralimpíada de Inverno, que será sediada nas cidades italianas de Milão e Cortina, em março de 2026, projetando a expansão do sucesso brasileiro para os esportes de neve. Contudo, os desafios internos, como o embate no tênis de mesa em relação ao programa Bolsa Atleta, sublinham a importância contínua da governança transparente e do apoio irrestrito aos atletas. O reconhecimento e a valorização dos esportistas, através de políticas claras e objetivas, são fundamentais para que o Brasil não apenas mantenha seu patamar de excelência, mas também continue a inspirar e a alcançar novas alturas no cenário paralímpico mundial, mirando em um desempenho ainda mais glorioso nos Jogos de Los Angeles 2028.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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