O polêmico caso da venda clandestina de sangue de gatos em Monte Alto (SP) ganhou novos contornos com a primeira manifestação pública da defesa de uma das veterinárias rés no processo. Em meio à repercussão e ao andamento judicial, a advogada de Thaís Daniele Antonussi, de 34 anos, rompeu o silêncio para apresentar uma série de questionamentos sobre a condução da investigação e a acusação. A manifestação surge após a Justiça local negar pedidos do Ministério Público (MP) contra a profissional, reacendendo o debate sobre os pormenores do processo que apura a venda irregular de hemocomponentes animais.

A Defesa Rompe o Silêncio e Alega Prejuízo à Ampla Defesa

O advogado Daniel Seixas Rondi, que representa Thaís Antonussi, apontada pelo MP como uma das líderes do esquema, utilizou a entrevista para o g1 para evidenciar a principal reclamação da defesa: sua cliente nunca teria sido ouvida formalmente na investigação. Quase um ano após os fatos que culminaram na prisão em flagrante de envolvidos e na descoberta da clínica clandestina, a veterinária, segundo seu defensor, não teve a oportunidade de prestar depoimento. Rondi também criticou veementemente o linchamento virtual sofrido por Thaís nas redes sociais, argumentando que a condenação popular precede seu direito à defesa legal.

A contestação da defesa ocorre um dia depois de decisões favoráveis à veterinária na Justiça de Monte Alto. O tribunal negou todos os pedidos feitos pelo Ministério Público contra Thaís, incluindo a suspensão de seu registro profissional, o que sinaliza um primeiro revés para a acusação e fortalece a argumentação da defesa em relação à fragilidade das provas ou à falta de elementos que justificassem tais medidas cautelares.

A Controvérsia Sobre a Oitiva da Veterinária

A alegação de que a veterinária não foi ouvida encontra respaldo parcial nos autos do processo. A Polícia Civil emitiu duas cartas precatórias, em outubro de 2025 e maio de 2026, com o objetivo de localizá-la e ouvi-la em São José do Rio Preto. Ambas retornaram sem sucesso. O delegado Marcelo Lorenço dos Santos, responsável pelo caso, registrou a impossibilidade de localizá-la e, posteriormente, consignou no relatório final que a investigada não foi encontrada nos endereços diligenciados, o que, contudo, não impediu seu indiciamento, resultando em sua inclusão como ré no processo sem que sua versão dos fatos fosse oficialmente colhida.

A defesa, no entanto, argumenta que a ausência de Thaís nas oitivas não se deu por falta de interesse ou tentativa de sua parte. Rondi anexou ao processo uma petição de outubro de 2025, endereçada a um delegado de São José do Rio Preto em um inquérito paralelo, onde a defesa justificava a ausência em uma oitiva previamente agendada e solicitava uma nova data. Segundo o advogado, essa remarcação nunca foi concedida e não há registros de uma nova convocação. Ele também apontou a incoerência em não terem tentado contato por meios mais diretos, como telefone ou redes sociais, cujos dados estariam disponíveis e em posse da própria polícia.

A Tese da Defesa: Separação de Atividades e Boa-Fé

Para contextualizar a atuação de Thaís, a defesa traça uma distinção clara entre a coleta do sangue e a operação de um banco de sangue que recebe e processa essas bolsas. O advogado sustenta que a responsabilidade primária pelo que ocorreu na residência em Monte Alto, onde as coletas clandestinas eram realizadas, recai sobre quem estava presente e operando o local. A tese da defesa é que Thaís Daniele Antonussi pagava por um serviço de coleta que, à sua concepção, era regular e realizado por uma equipe habilitada, em um local adequado e sob acompanhamento veterinário apropriado, conforme os autos indicam não ter ocorrido.

Questionado sobre a responsabilidade de Thaís em conhecer a procedência do sangue que comercializava, o advogado afirmou que ela tinha essa responsabilidade. Contudo, defende que cada bolsa de sangue recebida era acompanhada de um termo de doação assinado pelo tutor do animal, submetida a uma bateria de exames laboratoriais, com emissão de nota fiscal e recolhimento de tributos. Rondi enfatizou que a boa-fé deve ser presumida, e a má-fé, provada, desafiando a acusação a demonstrar que sua cliente deliberadamente financiava coletas clandestinas. A defesa ainda nega qualquer vínculo profissional ou pessoal de Thaís com Renato Franco, outro veterinário réu no caso, afirmando que são concorrentes, declaração que, inclusive, foi corroborada por Franco em depoimento à polícia em novembro de 2025.

O Contraponto da Acusação: Liderança e Coordenação

Em contraste com a narrativa da defesa, a denúncia do Ministério Público, representada pela promotora Haline Barreto Afonso, sustenta que Thaís Daniele Antonussi exercia a coordenação geral do grupo criminoso. De acordo com a acusação, ela seria a responsável por determinar a rotina das coletas, negociar os pagamentos e pelo recebimento do material biológico. Essa acusação é fundamentada, em grande parte, em mensagens extraídas do aparelho celular de um dos auxiliares detidos, que supostamente delineiam o papel central da veterinária na organização e operação do esquema.

A divergência entre as versões apresentadas pelas partes — uma defendendo a boa-fé e a falta de participação direta nas irregularidades de coleta, e a outra apontando para uma liderança ativa baseada em evidências digitais — configura o cerne do embate judicial que ainda se desenrola. A investigação, que revelou a venda de sangue de gatos por valores que chegavam a R$ 800 após coletas em condições insalubres, continua a ser pautada pela busca por provas concretas que confirmem ou refutem as alegações de ambas as partes.

Próximos Passos e a Busca por Justiça

O caso do sangue de gatos em Monte Alto permanece um complexo emaranhado de acusações, defesas e provas. A manifestação pública da defesa de Thaís Daniele Antonussi sublinha a importância do direito à ampla defesa e ao devido processo legal, especialmente em casos de grande repercussão midiática. As próximas etapas do processo deverão focar na produção de provas e na apresentação de argumentos que possam, finalmente, esclarecer a responsabilidade de cada um dos réus envolvidos na venda clandestina de sangue animal e garantir que a justiça seja feita tanto para os acusados quanto para as vítimas indiretas – os animais e seus tutores.

Fonte: https://g1.globo.com

Share.

Comments are closed.