A rotina de passageiros do transporte público em Campinas foi marcada por uma cena de risco e improviso na manhã da última sexta-feira (27). A ausência de ônibus equipados com porta à esquerda, essenciais para o embarque seguro em pontos específicos, forçou dezenas de usuários a acessarem os veículos diretamente do meio da Avenida Moraes Salles, expondo-os ao tráfego intenso. O incidente não é um caso isolado, mas sintoma de deficiências mais profundas que vêm impactando o serviço.

Embarque Arriscado e a Adaptação Forçada

O cenário de perigo se desenrolou sob os olhares de agentes de mobilidade urbana que prestavam apoio, enquanto ônibus de cooperativas, originalmente projetados para operar com portas do lado direito, eram utilizados em linhas que exigem embarque pela esquerda. As linhas 330 (Unicamp) e 333 (Terminal Barão Geraldo) são particularmente afetadas, pois seus pontos de parada na Moraes Salles são configurados para o acesso pela porta esquerda. Com a quebra dos veículos convencionais e a consequente substituição por uma frota inadequada, passageiros se viram sem alternativa senão a de arriscar-se em meio à pista. A situação chegou a tal ponto que um agente de trânsito foi flagrado alterando manualmente o letreiro de um ônibus, indicando a linha 385 (Shopping Iguatemi), para a linha 333, com uma placa improvisada na frente.

A Operação Especial da EMDEC e Suas Justificativas

A Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) reconheceu a excepcionalidade da situação, informando que a operação especial teve início na segunda-feira anterior ao incidente. O plano envolve o uso de veículos de cooperativas disponíveis, visando suprir as lacunas deixadas pelos operadores do sistema convencional. A Emdec esclareceu que esta é uma medida emergencial para mitigar os impactos da falta de veículos e que está avaliando outras alternativas para minimizar o transtorno causado aos usuários. A iniciativa da Emdec busca, em essência, preencher uma falha na capacidade operacional que deveria ser garantida pelas empresas concessionárias.

O Cotidiano de Atrasos e Lotação Denunciado Pelos Passageiros

Para os usuários diários das linhas que passam pela Moraes Salles, a cena presenciada não é uma surpresa, mas a intensificação de problemas já recorrentes. Neusa Rodrigues, empregada doméstica, relata atrasos que chegam a 40 minutos desde janeiro, comprometendo sua jornada de trabalho. Maria Mayara Mota, auxiliar de serviços gerais e gestante, expressa a frustração de não conseguir sequer um lugar para sentar devido à superlotação, muitas vezes tendo que viajar em pé. O comerciante Hércules Santos complementa, descrevendo que a lotação é tão severa que, em diversas ocasiões, os passageiros são impedidos de embarcar nos primeiros veículos que chegam, prolongando ainda mais a espera e a incerteza do trajeto.

Falhas Sistêmicas, Fiscalização e Multas Acumuladas

A Emdec detalhou que as linhas 330 e 333 têm apresentado uma significativa falta e quebra de veículos em viagens programadas, especialmente durante o pico da manhã, o que gera uma série de impactos negativos na operação. Em resposta, a fiscalização da Emdec foi intensificada, principalmente no ponto crítico da Moraes Salles. Em um período recente, que compreende os últimos meses, foram aplicadas centenas de autuações aos operadores: a linha 330 registrou 177 autuações, sendo 169 por falta de veículo, com 49 delas apenas em janeiro. A linha 333, por sua vez, acumulou 395 autuações, com 389 por falta de veículo, e impressionantes 198 em janeiro. Em um levantamento mais amplo do último ano, foram mais de 39,3 mil autuações aos operadores do transporte, das quais 32,8 mil foram por descumprimento de viagens programadas.

A Idade da Frota e a Necessidade de Renovação

A Emdec atribui grande parte dessas ocorrências à idade média da frota atual, reconhecendo a premente necessidade de renovação. Essa renovação, entretanto, está diretamente ligada a um novo processo licitatório para o transporte público da cidade. Enquanto as soluções de longo prazo não se concretizam, a Emdec mantém o remanejamento de veículos de cooperativas como uma estratégia para atender as linhas consideradas mais críticas. Como exemplo, essa operação foi realizada na linha 333 na quarta-feira (25) e, na manhã do incidente, na linha 353 (Alphaville), demonstrando os esforços contínuos para mitigar os problemas emergenciais e assegurar um mínimo de serviço aos cidadãos.

O caos na Moraes Salles é, portanto, um reflexo visível de desafios estruturais no transporte público de Campinas. A segurança dos passageiros, o cumprimento de horários e a qualidade do serviço permanecem em xeque, enquanto a Emdec e os operadores buscam soluções paliativas para uma crise que demanda intervenções mais robustas e a tão aguardada renovação da frota para garantir a eficiência e a dignidade do deslocamento diário da população.

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