No coração da Baixada Santista, um fascinante elo conecta a engenharia moderna à ancestralidade geológica do Brasil. As imponentes pedras que formam a estrutura subterrânea do maior reservatório de água tratada da América Latina, o Reservatório-Túnel Santa Tereza-Voturuá, ganharam um novo propósito. Longe de serem meros rejeitos de obra, essas rochas, com cerca de 600 milhões de anos e a mesma formação do icônico Pão de Açúcar, foram inteligentemente reaproveitadas para fortificar o Emissário Submarino de Santos. O que antes era uma necessidade de saneamento, hoje se transformou também em um vibrante espaço de lazer e cultura à beira-mar, o Parque Municipal Roberto Mário Santini, criando uma sinergia única entre infraestrutura vital e usufruto público.

A Engenharia Submarina e Suas Fundações Milionárias

O Emissário Submarino de Santos, uma obra crucial para o saneamento da região, desempenha um papel fundamental na disposição final dos efluentes domésticos tratados pela Estação de Pré-Condicionamento de Esgotos (EPC) Saturnino de Brito. Localizado no bairro José Menino desde a década de 1970, sua construção foi uma resposta direta ao crescente aumento populacional e ao interesse turístico que exigiam a ampliação do sistema de esgotamento. As rochas milenares, escavadas para o reservatório, foram empregadas estrategicamente para formar a plataforma que protege a tubulação do emissário, amortecendo o impacto constante das ondas e garantindo a integridade da estrutura.

Funcionando de forma engenhosa, o emissário não dispõe de uma abertura terminal convencional. Em vez disso, a liberação controlada dos efluentes ocorre através de uma série de difusores – aberturas estrategicamente posicionadas nos metros finais da tubulação, remetendo ao funcionamento de uma flauta. Com quatro quilômetros de extensão e tubulações de 1,75 metro de diâmetro, importadas da Itália, esta tecnologia é reconhecida internacionalmente e empregada em nações como Estados Unidos, Nova Zelândia, China, Espanha e Portugal, atestando sua eficácia e sustentabilidade.

Do Canteiro de Obras ao Parque Urbano: O Legado do Emissário

A área de partida do Emissário Submarino, originalmente um canteiro de obras, transcendeu sua função operacional para se tornar um notável equipamento público. Após a conclusão das obras de saneamento pela Sabesp, o terreno foi repassado à Prefeitura de Santos. Foi então que se idealizou e concretizou o Parque Municipal Roberto Mário Santini, inaugurado em 2010. Este espaço transformador, projetado pelo renomado arquiteto Ruy Ohtake, integra arte e natureza, destacando-se pela escultura em ferro da mãe do arquiteto, a artista plástica Tomie Ohtake, uma homenagem aos 100 anos da imigração japonesa no Brasil.

O parque oferece uma gama diversificada de opções de lazer e esporte, consolidando-se como um ponto de encontro à beira-mar. Entre suas instalações, encontram-se uma pista de skate, ciclovia, aparelhos de ginástica ao ar livre e uma área dedicada à patinação. Além de sediar eventos culturais e encontros esportivos, o local abriga o Museu do Surfe de Santos. Este museu é um verdadeiro tesouro para os amantes do esporte, com um acervo de mais de 70 pranchas históricas, incluindo equipamentos de ícones mundiais como Gabriel Medina, Ítalo Ferreira, Adriano de Souza, Kelly Slater e John John Florence, narrando a rica história do surfe na cidade e no país.

O Gigante Subterrâneo: Reservatório Santa Tereza-Voturuá

A origem das rochas que fortificam o emissário remonta à construção do Reservatório-Túnel Santa Tereza-Voturuá, uma infraestrutura vital escavada no interior de dois morros na Baixada Santista. Este reservatório detém o título de maior túnel de água tratada da América Latina, com uma capacidade impressionante de 110 milhões de litros, o equivalente a aproximadamente 220 milhões de garrafas d'água de 500ml. Sua localização estratégica, entre o Morro Santa Terezinha, em Santos, e o Morro Voturuá, em São Vicente, permite atender não apenas essas cidades, mas também reforçar o abastecimento de Guarujá e Praia Grande, sendo essencial para a segurança hídrica da região.

A complexa obra, iniciada em 1979 e finalizada em 1981, foi executada simultaneamente a partir de ambas as cidades. A escavação revelou rochas de granito gnaisse de aproximadamente 600 milhões de anos, a mesma formação geológica que compõe o famoso Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro. Uma característica notável do projeto é sua posição: o túnel foi construído 42 metros acima do nível do mar, uma escolha inteligente para permitir o abastecimento por gravidade, resultando em uma significativa economia de energia elétrica. Com mais de um quilômetro de extensão, o reservatório é dividido em duas câmaras, cada uma medindo cerca de 13 metros de altura e 15 metros de largura, testemunhando a grandiosidade da engenharia e a riqueza geológica do subsolo paulista.

A história das pedras de 600 milhões de anos na Baixada Santista é um testemunho notável de como a engenharia pode harmonizar-se com a natureza e com as necessidades urbanas. Desde a formação do maior reservatório de água tratada do continente até a proteção de um emissário submarino e, finalmente, a criação de um vibrante parque de lazer, essas rochas milenárias ligam de forma inesperada a segurança hídrica, o saneamento básico e a qualidade de vida. Este projeto multifacetado não apenas soluciona desafios infraestruturais cruciais, mas também presenteia a comunidade com um espaço público enriquecedor, mostrando o valor da visão integrada no desenvolvimento urbano.

Fonte: https://g1.globo.com

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