Os temores de uma repressão violenta no Irã intensificaram-se significativamente neste sábado (10), marcados por um prolongado bloqueio de acesso à internet e a retomada vigorosa de manifestações noturnas. Esse movimento de protesto, o mais expressivo em três anos, eclodiu há duas semanas impulsionado por comerciantes insatisfeitos com a grave crise econômica. Representando um dos maiores desafios à autoridade teocrática que governa o país desde a Revolução Islâmica de 1979, os protestos se espalham, desafiando a tentativa das autoridades de sufocar a dissidência popular.
Bloqueio Digital e Alarmes de Dissidentes
A escalada da crise foi acompanhada por um corte de internet generalizado, imposto pelas autoridades iranianas por mais de 36 horas, conforme monitoramento da ONG de cibersegurança Netblocks. Essa medida drástica dificultou severamente o acesso a informações e gerou preocupação internacional. Proeminentes cineastas e dissidentes, Mohammad Rasulof e Jafar Panahi, emitiram um alerta, denunciando a interrupção dos canais de comunicação internos e o bloqueio de todo contato com o exterior. Eles interpretaram essa ação como uma tática para ocultar a violência iminente da repressão.
A ganhadora iraniana do Nobel da Paz, Shirin Ebadi, reforçou essa preocupação, advertindo que as forças de segurança poderiam estar se preparando para um “massacre sob a cobertura de um amplo bloqueio de comunicações”. Em meio a esses temores, o Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, manifestou solidariedade em sua conta no X, afirmando que “os Estados Unidos estão ao lado do corajoso povo iraniano”.
A Coragem das Ruas: Manifestações Noturnas Continuam
Apesar da repressão e do apagão nas comunicações, a mobilização popular persistiu de forma notável. Após uma quinta-feira de grandes concentrações, as noites de sexta-feira foram novamente marcadas por protestos em Teerã e diversas outras cidades. Imagens cuja autenticidade foi verificada pela AFP, circulando nas redes sociais por meio de links de satélite, mostraram cenas de resistência. No distrito de Sadatabad, em Teerã, manifestantes batiam panelas e entoavam “Morte a Khamenei!”, enquanto buzinas de carros expressavam apoio.
Cenários semelhantes foram reportados em Mashhad, Tabriz e Qom, com vídeos veiculados por canais de televisão persas fora do Irã. Em Hamadan, uma imagem não verificada pela AFP registrou um homem agitando uma bandeira iraniana da era do Xá, com o emblema do leão e do sol, rodeado por fogueiras e pessoas dançando, simbolizando a audácia da dissidência e um clamor por um passado político diferente.
O Alto Preço da Dissidência e a Contranarrativa Estatal
O custo humano desses confrontos tem sido alarmante. A Anistia Internacional afirmou estar analisando evidências que apontam para uma escalada na repressão governamental nos últimos dias. Desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, pelo menos 51 manifestantes, incluindo nove crianças, perderam a vida, e centenas ficaram feridos, conforme relatório divulgado pela ONG Iran Human Rights, sediada na Noruega.
Em contraste com essa contagem de vítimas civis, a televisão estatal iraniana exibiu imagens dos funerais de membros das forças de segurança mortos durante os distúrbios, buscando projetar uma narrativa oficial. A participação nessas cerimônias foi notável na cidade de Shiraz, no sul do país, uma tentativa de justificar a repressão e mobilizar apoio para o regime perante a população.
Respostas Oficiais e Reações Internacionais
Em resposta à crescente insurreição, as autoridades iranianas adotaram uma postura de linha dura. O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, condenou veementemente os “vândalos” por trás dos protestos e acusou os Estados Unidos de incitá-los, tentando deslegitimar o movimento interno. Complementando essa narrativa, Ali Larijani, conselheiro de Khamenei e chefe da principal agência de segurança do país, declarou que o Irã está “em plena guerra”, denunciando “incidentes orquestrados no exterior”.
Em um pronunciamento anterior, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia observado que o Irã enfrentava “problemas sérios” e que “o povo está tomando o controle de certas cidades, algo que ninguém imaginava ser possível há poucas semanas”, expressando a prontidão de Washington para “ajudar” o povo iraniano, reiterando o apoio internacional aos manifestantes.
O Futuro Incerto da Dissidência Iraniana
O Irã se encontra em um momento crítico, onde a persistência dos protestos populares, alimentados pela insatisfação econômica e por um profundo desejo de mudança, colide com a intransigência e a repressão de um regime determinado a manter o controle. O bloqueio das comunicações, as advertências de massacres e o crescente número de vítimas sublinham a gravidade da situação. A resposta internacional, embora vigilante, enfrenta a barreira imposta pelo regime à livre circulação de informações. Com a população desafiando abertamente o poder estabelecido e o governo respondendo com força e censura, o futuro imediato do Irã permanece incerto, mas inegavelmente tenso, com desdobramentos imprevisíveis.
Fonte: https://jovempan.com.br

