A recente audiência judicial que ouviu Elizabete Arrabaça, acusada de assassinar a filha Nathália Garnica por envenenamento em Pontal (SP), acendeu um intenso debate no meio jurídico. Em um depoimento marcado por veementes negações, a ré chegou a jurar inocência por Deus e a atribuir falsidade à filha mais velha. Enquanto a defesa argumenta a força da declaração da acusada e a fragilidade das provas, a acusação destaca uma série de contradições que, segundo eles, podem pesar significativamente no desfecho do processo. A complexidade do caso exige uma análise minuciosa de todas as evidências apresentadas.
A Negação Forte e as Acusações da Ré em Juízo
Durante seu interrogatório virtual perante a Justiça, Elizabete Arrabaça reiterou sua inocência de forma enfática. Ela não apenas negou categoricamente a autoria do crime contra Nathália Garnica, mas também declarou que se mentisse, poderia perder a visão, reforçando a seriedade de suas afirmações. Em um movimento que surpreendeu, a ré direcionou acusações à sua filha mais velha, Viviane Garnica, alegando que ela teria mentido em depoimento com a intenção de prejudicá-la, distorcendo fatos e inventando detalhes para incriminar a própria mãe. Essas declarações são centrais para a estratégia de defesa, que busca desqualificar testemunhos desfavoráveis.
Dupla Investigação: O Contexto da Prisão e a Conexão Fatal
A situação legal de Elizabete Arrabaça é complexa, com sua prisão preventiva ocorrendo na Penitenciária de Tremembé desde 20 de agosto do ano passado. Inicialmente, a detenção estava relacionada às investigações sobre a morte de sua nora, Larissa Rodrigues, uma professora de pilates de Ribeirão Preto (SP). Larissa teria falecido por envenenamento com 'chumbinho'. A morte de Nathália Garnica, filha mais nova de Elizabete, em 9 de fevereiro de 2025, em Pontal, foi inicialmente registrada como natural. No entanto, a similaridade temporal dos óbitos e o fato de Elizabete ter sido a última pessoa a estar com ambas as vítimas levaram a polícia a exumar o corpo de Nathália.
Em junho de 2025, o laudo toxicológico confirmou que Nathália também havia sido envenenada, estabelecendo um elo perturbador entre os dois casos. Apesar da conexão investigativa, os processos judiciais correm separadamente, e ainda não há datas definidas para os julgamentos. A nora, Larissa, era esposa de Luiz Antônio Garnica, irmão de Nathália, que também foi envolvido nas investigações.
A Estratégia da Defesa: Questionando Provas e Motivações
O advogado de defesa de Elizabete, Bruno Ribeiro, argumenta que o Ministério Público busca elevar meros indícios circunstanciais ao status de provas concretas. Ele contesta a premissa de que a presença de Elizabete como a última pessoa a ver as vítimas com vida seja, por si só, evidência de autoria. Ribeiro também aponta que muitas das testemunhas de acusação ouvidas na fase policial são classificadas como 'testemunhas de ouvir dizer', ou seja, pessoas que relataram informações obtidas de terceiros, não sustentando o que disseram com conhecimento próprio e direto.
A defesa também buscou descreditar a tese de que Elizabete possuía um vício em jogos que justificaria um interesse na herança da filha, afirmando que ela participava apenas de jogos legalizados, como a loteria federal. Além disso, Ribeiro criticou o Ministério Público por não ter abordado uma carta levada por Elizabete ao interrogatório, alegando que o documento, segundo o MP, 'fugiria do contexto policial'. O advogado ressalta ainda que o namorado de Nathália confirmou o bom relacionamento entre mãe e filha, contradizendo a narrativa de um possível conflito que pudesse motivar o crime.
A Acusação e as Contradições Apontadas no Depoimento
Em contrapartida, Júlio Mossin, assistente de acusação e advogado da família Garnica, classificou o depoimento de Elizabete como repleto de falsidades. Mossin destacou várias contradições, como a alegação da ré de estar em dificuldades financeiras devido a uma separação ocorrida há três décadas. O advogado da acusação refuta essa versão, afirmando que o ex-marido de Elizabete sempre cumpriu com o pagamento de pensões e que ela teria recebido diversos imóveis na partilha, os quais, segundo ele, foram posteriormente dilapidados pela própria acusada.
Outro ponto crucial de divergência diz respeito aos momentos finais da vida de Nathália. Elizabete afirmou em seu depoimento que a filha chegou a abrir os olhos enquanto a equipe do Samu a retirava da residência. Entretanto, Mossin enfatiza que o óbito de Nathália já havia sido constatado tanto pelos socorristas do Samu quanto por seu próprio irmão, Luiz Antônio Garnica, que havia chegado ao local antes mesmo da equipe de resgate, invalidando a versão apresentada pela ré. A acusação sustenta que há provas documentais robustas que contradizem as declarações da acusada.
O Caminho Judicial: A Análise Imparcial das Evidências
Diante das narrativas divergentes apresentadas pela defesa e pela acusação, o papel da Justiça será fundamental. João Pedro Silvestrini, advogado especialista em direito penal que não está envolvido diretamente no caso, esclarece que o juiz responsável fará uma avaliação minuciosa de todas as provas produzidas. Isso inclui não apenas os depoimentos das testemunhas de ambos os lados, mas também as declarações da própria ré, que é parte essencial do processo. A decisão final, seja ela uma sentença de pronúncia ou não, será fundamentada na ponderação de todos os elementos apresentados, buscando a verdade dos fatos em meio à complexidade das acusações e defesas.
Este caso, marcado por acusações graves e defesas contundentes, prossegue com os olhares atentos da sociedade e da Justiça. A controvérsia sobre a inocência de Elizabete Arrabaça e a veracidade de seu depoimento está agora nas mãos do sistema judiciário, que deverá sopesar cada argumento e cada evidência para determinar o destino da ré e a busca por justiça para as vítimas. Os desdobramentos prometem ser acompanhados de perto, à medida que os processos avançam rumo aos aguardados julgamentos.
Fonte: https://g1.globo.com

