Em um discurso marcado pela autocrítica e por apelos contundentes à renovação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abordou os desafios e o futuro do Partido dos Trabalhadores (PT) durante as celebrações dos 46 anos da sigla em Salvador, Bahia. O evento, que reuniu lideranças e militantes, transformou-se em um fórum para reflexões profundas sobre a trajetória do partido e a necessidade urgente de redefinir suas estratégias políticas e sociais.
O presidente não hesitou em apontar fragilidades internas, clamando por uma transformação que visa fortalecer a instituição partidária acima de figuras individuais e garantir sua relevância em um cenário político em constante mutação. A fala de Lula sinaliza uma guinada estratégica, enfatizando a importância de dialogar diretamente com a população e de combater narrativas distorcidas que buscam minar a credibilidade do partido.
A Autocrítica de Lula: O Desafio da Reconstrução Partidária
Lula foi direto ao expressar sua preocupação com o declínio da presença do PT nos municípios, atribuindo essa perda de espaço às 'brigas internas' que, segundo ele, 'acabaram com o PT'. Sua análise crítica sublinhou a necessidade de o partido cessar a 'perseguição ao erro' e focar na construção de uma base mais sólida e coesa. O presidente fez questão de desvincular a força do partido de sua própria imagem, afirmando que a solidez deve ser da instituição, e não apenas de sua liderança pessoal.
Ao questionar o atual tamanho da governança petista, citando especificamente o cenário em São Paulo, Lula reforçou a urgência de uma reavaliação interna. A mensagem central é de que a vitalidade do PT depende de sua capacidade de se reinventar e de direcionar suas energias para um crescimento orgânico e institucional, superando as disputas que, no passado, comprometeram sua expansão.
Resgatando a Conexão com a Base Social e Novos Setores
Um dos pontos cruciais levantados por Lula foi a necessidade premente de o Partido dos Trabalhadores retomar o contato direto com a população mais vulnerável. O presidente enfatizou que 'o PT precisa ir para a periferia conversar com o povo', sugerindo um retorno às origens do engajamento social que marcou a fundação da sigla. Essa aproximação é vista como fundamental para restabelecer os laços com os segmentos que historicamente foram a base de apoio do partido.
Além disso, Lula destacou a importância estratégica de estabelecer um diálogo construtivo com o grupo evangélico, um eleitorado significativo e em crescimento. Ele ressaltou que aproximadamente 90% desse público é beneficiário de programas governamentais, sugerindo que o partido não deve esperar por mediações, mas sim buscar a comunicação direta, reforçando a mensagem de que o contato pessoal é mais eficaz do que a dependência de intermediários.
Balanço de Governo e a Luta contra a Desinformação
Aproveitando a ocasião, o presidente defendeu os resultados de seu atual mandato, citando indicadores econômicos positivos como a queda da inflação, a valorização da Bolsa de Valores e o aumento real do salário mínimo. Ele estabeleceu um contraste entre os três anos de sua gestão atual e os sete anos que a precederam, marcados pelas administrações de Michel Temer e Jair Bolsonaro, referindo-se a esse período anterior como um 'golpe', o que gerou diferentes interpretações e reações políticas.
Em vista das próximas eleições, Lula enfatizou que a vitória dependerá intrinsecamente da 'narrativa política' e do combate efetivo às notícias falsas. Ele convocou os militantes e simpatizantes a se engajarem ativamente na desconstrução da mentira, propondo que a campanha seja pautada pela 'verdade derrotando a mentira', e que seja preciso 'escrachar cada mentira que eles contarem', indicando uma postura ofensiva contra a desinformação.
O Orçamento Secreto e os Desafios da Base Aliada
Em um momento de franco desabafo, o presidente direcionou críticas ao mecanismo do orçamento secreto, classificando-o como um 'sequestro do orçamento do Executivo'. Ele mencionou valores expressivos, próximos a R$ 60 bilhões neste ano, que estariam sendo alocados por essa via, o que, em sua visão, compromete a autonomia e a capacidade de planejamento do governo. A crítica, entretanto, veio acompanhada de uma lamentação ainda mais profunda.
Lula expressou sua tristeza e decepção com a postura de sua própria base, revelando que 'o mais triste é que o PT votou a favor' do orçamento secreto. Essa declaração expõe as complexas dinâmicas internas da coalizão governista e as dificuldades em alinhar todas as forças partidárias com a visão e as prioridades do Executivo, mesmo em questões consideradas centrais para a governabilidade e a transparência.
Política, Tática e a Defesa da Democracia
Apesar das críticas e dos desafios apontados, o presidente reafirmou seu compromisso com a manutenção das instituições democráticas, enfatizando que a política é, por essência, uma arte que exige tática, negociação e capacidade de construir pontes. Ele ponderou sobre a realidade da fragmentação política, reconhecendo que o partido não detém hegemonia em todos os estados da federação.
Lula concluiu seu discurso reforçando a ideia de que o objetivo não é escolher entre ganhar ou perder, mas sim lutar para vencer, utilizando todas as ferramentas da política para alcançar os objetivos. A celebração dos 46 anos do PT, assim, transformou-se em um chamado à reflexão profunda e à ação estratégica, visando solidificar as bases do partido e prepará-lo para os desafios vindouros no cenário político nacional.
Fonte: https://jovempan.com.br

