Ribeirão Preto testemunhou o desfecho de um caso que chocou a comunidade local: o manobrista Sérgio Salomão Bernardes foi sentenciado a 14 anos de reclusão. A condenação, proferida nesta quinta-feira (19), refere-se às agressões que resultaram na morte de seu vizinho, Júlio César da Silva, um evento que teve profundas repercussões na cidade e expôs um histórico de tensões entre os envolvidos.

O Veredito Judicial e a Classificação do Crime

Levado a júri popular, Sérgio Salomão enfrentou acusações do Ministério Público por homicídio doloso triplamente qualificado. Contudo, o conselho de sentença optou por uma tipificação penal diferente, condenando-o por lesão corporal seguida de morte, o que resultou em uma pena mais branda do que a inicialmente pleiteada pela promotoria, que buscava a condenação por um crime mais grave.

A decisão dos jurados baseou-se na compreensão de que, embora o manobrista tivesse a intenção de agredir fisicamente a vítima, causando-lhe ferimentos, não havia a intenção direta de ceifar sua vida. A morte, conforme o entendimento do júri, foi uma consequência trágica e não intencional de uma discussão pré-existente entre os dois. A defesa de Sérgio Salomão, que já se encontra em prisão preventiva, anunciou que irá recorrer da sentença, buscando uma possível redução do tempo de cárcere.

A Trágica Ocorrência no Centro da Cidade

O episódio fatal ocorreu na manhã de 25 de junho de 2024, no cruzamento das ruas Barão do Amazonas e Mariana Junqueira, na região central de Ribeirão Preto. De acordo com relatos de testemunhas, Júlio César da Silva e Sérgio Salomão caminhavam juntos antes de iniciarem uma altercação verbal que rapidamente escalou para a violência física.

A discussão culminou quando Salomão desferiu um soco no rosto de Júlio César, que caiu abruptamente, batendo a cabeça com força na calçada. Mesmo com a vítima já ao chão, o agressor prosseguiu com a violência, pisoteando o tórax de Júlio César múltiplas vezes. Apesar de ter sido prontamente socorrido e encaminhado à Santa Casa, Júlio César da Silva não resistiu à gravidade dos ferimentos, vindo a óbito no dia seguinte, 26 de junho. Sérgio Salomão foi preso em flagrante no dia do incidente, e sua prisão foi convertida em preventiva. Na época, ele alegou à polícia ter agido em legítima defesa.

Histórico de Conflitos e Comportamento Agressivo do Acusado

O trágico desfecho foi o ápice de um longo histórico de desentendimentos entre Sérgio Salomão e Júlio César, assim como de um padrão de comportamento problemático do manobrista. Ambos residiam no condomínio Jardim das Pedras, um complexo com cerca de 6,5 mil moradores, onde os conflitos eram recorrentes e amplamente conhecidos.

Após a morte do vizinho, Salomão foi expulso do residencial no Jardim Paulista, uma medida autorizada judicialmente devido à série de transtornos que ele causava. Imagens de câmeras de segurança, obtidas pela EPTV, revelaram o comportamento intimidador e agressivo de Sérgio nas áreas comuns, onde ele era frequentemente visto armado com faca e marreta, ameaçando e perturbando outros moradores, incluindo idosos e crianças.

Vídeos registraram-no marretando paredes do próprio apartamento, com relatos de moradores sobre suas ameaças de derrubar estruturas, explodir o imóvel com gás e perturbar com barulhos em horários de descanso nas madrugadas. Vários boletins de ocorrência foram registrados contra ele na Polícia Civil, evidenciando a gravidade e persistência de suas ações disruptivas, que causavam medo e insegurança no condomínio.

A Avaliação Psiquiátrica e a Responsabilidade Legal

Durante o curso do processo judicial, em outubro de 2025, Sérgio Salomão foi submetido a uma avaliação psiquiátrica por determinação da Justiça. O laudo pericial atestou que o manobrista é imputável, ou seja, possui plena capacidade legal de ser responsabilizado por seus atos. A psiquiatra responsável pelo exame concluiu que Salomão compreendia a natureza de suas ações no momento em que as agressões que levaram à morte de Júlio César foram cometidas, refutando qualquer alegação de incapacidade mental para discernir entre o certo e o errado.

A conclusão da perícia foi crucial para o julgamento, estabelecendo que, do ponto de vista psiquiátrico, Sérgio Salomão tinha plena consciência de seus atos e de suas consequências, consolidando sua responsabilidade legal pelo ocorrido.

Desdobramentos e Reflexões sobre a Sentença

A condenação de Sérgio Salomão Bernardes encerra uma etapa dolorosa para as famílias envolvidas e para a comunidade de Ribeirão Preto, que acompanhou de perto as tensões e o trágico desfecho. A pena de 14 anos de reclusão, embora resultante de uma tipificação diferente daquela inicialmente pleiteada pelo Ministério Público, reflete a gravidade das agressões e a subsequente perda de vida.

Com a defesa buscando recurso, o caso ainda pode ter novos desdobramentos na esfera jurídica, mas o veredito atual reitera a seriedade das consequências de atos de violência em contextos de convivência social, sublinhando a importância da resolução pacífica de conflitos e da intervenção das autoridades frente a comportamentos disruptivos e ameaçadores.

Fonte: https://g1.globo.com

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