O presidente da Argentina, Javier Milei, proferiu uma série de declarações contundentes durante a 67ª Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu, Paraná. Em seu discurso, o líder argentino teceu severas críticas à performance do bloco sul-americano, afirmando que a união aduaneira falhou em atingir seus propósitos centrais de promoção comercial e integração de mercados. Milei argumentou que o excesso de burocracia interna e a falta de flexibilidade têm sido entraves significativos, exemplificados pela morosidade nas negociações de acordos bilaterais, como o aguardado pacto com a União Europeia. A postura do presidente argentino sinaliza uma clara inclinação por uma reavaliação profunda do modelo atual do Mercosul e uma abertura para estratégias de negociação mais individualizadas entre os países membros.
As Críticas Incisivas de Milei ao Mercosul
Falhas nos Objetivos Fundamentais e a Burocracia Interna
Em sua intervenção na sessão plenária da Cúpula, Javier Milei não poupou o Mercosul de um escrutínio rigoroso, desmistificando, em sua visão, a eficácia do bloco desde sua fundação. Segundo o presidente argentino, os pilares conceituais sobre os quais o Mercosul foi erguido – a promoção do comércio regional, o aumento da prosperidade dos povos, a integração mais profunda dos mercados e a elevação da competitividade das sociedades dos países membros – jamais foram concretizados de forma satisfatória. Ele foi categórico ao afirmar que nenhum dos objetivos centrais estabelecidos para a união aduaneira foi verdadeiramente cumprido, delineando um quadro de estagnação e ineficiência.
Milei detalhou as lacunas que, segundo ele, comprometem a funcionalidade do Mercosul. O presidente apontou a ausência de um mercado comum efetivo, a inexistência de uma livre circulação de bens e serviços que fosse realmente operante e a carência de uma coordenação macroeconômica robusta entre os membros. Adicionalmente, criticou a falta de uma harmonização normativa real que pudesse simplificar e agilizar os processos, bem como a ausência de um incremento significativo no comércio intra-bloco, que seria um indicador primordial de sucesso na integração. Para Milei, a inabilidade do Mercosul em se abrir de forma suficiente ao cenário econômico global representa um obstáculo adicional ao desenvolvimento e à competitividade das nações que o compõem. Estas falhas estruturais, em sua análise, são agravadas por uma camada densa de burocracia e por múltiplos obstáculos internos que sufocam a dinâmica comercial e a capacidade de reação do bloco.
O discurso de Milei enfatizou que a rigidez imposta pelo modelo atual do Mercosul, onde as decisões são frequentemente tomadas de maneira monolítica, tem um custo elevado. Ele defendeu que a flexibilidade, ao invés de ser vista como uma ameaça à coesão, deveria ser encarada como um ativo estratégico para os países membros. Essa perspectiva sugere que a capacidade de cada nação de agir de forma autônoma em determinadas circunstâncias, especialmente no que tange a acordos comerciais, poderia catalisar um desenvolvimento mais ágil e adaptado às suas necessidades específicas. A crítica à burocracia não se limita apenas aos trâmites internos, mas se estende à forma como o bloco se posiciona externamente, gerando uma lentidão percebida que, para Milei, tem custado oportunidades valiosas e colocado em xeque a relevância do Mercosul no tabuleiro geopolítico e econômico global.
A Defesa da Negociação Individual e o Acordo com a União Europeia
O Impasse com a UE como Evidência da Lerdeza do Bloco
A visão de Javier Milei para o Mercosul transcende a mera crítica, apresentando uma proposta de reforma substancial: a permissão para que os Estados associados possam negociar acordos comerciais de forma individual com nações ou blocos externos. O presidente argentino argumentou veementemente que a experiência acumulada ao longo das décadas demonstra que, quando o Mercosul tenta progredir de maneira unificada e monolítica, os processos inevitavelmente se dilatam de forma excessiva, culminando na perda irrecuperável de oportunidades comerciais e de desenvolvimento. Para ele, a autonomia negocial conferiria uma agilidade indispensável no cenário econômico global contemporâneo, onde as janelas de oportunidade são muitas vezes efêmeras.
O exemplo mais proeminente e reiterado por Milei para ilustrar a ineficiência do modelo coletivo do Mercosul é a tentativa frustrada de concluir um acordo de livre comércio com a União Europeia. As negociações entre os dois blocos, que se estendem por mais de duas décadas, permanecem em um impasse, com a materialização do pacto ainda distante. O presidente argentino expressou profunda impaciência com essa morosidade, declarando que “nossos países não têm mais 10 anos para desperdiçar em discussões administrativas”. Esta afirmação sublinha a urgência com que a Argentina, sob sua liderança, busca desburocratizar e acelerar sua inserção comercial global, vendo o Mercosul, em sua configuração atual, como um entrave mais do que um facilitador.
Além da flexibilização das negociações externas, Milei defendeu a necessidade premente de o Mercosul adotar um sistema tarifário moderno, simples e, sobretudo, competitivo. A visão por trás dessa proposta é a de que um arcabouço tarifário ágil e desonerado poderia potencializar a capacidade exportadora dos países membros, atrair investimentos estrangeiros e, consequentemente, impulsionar o crescimento econômico e a criação de empregos. A simplicidade e a competitividade, em sua ótica, são elementos-chave para que o bloco e seus integrantes possam se posicionar de forma mais vantajosa no mercado internacional, que é cada vez mais dinâmico e exigente. A estagnação no avanço de tais reformas, para o presidente argentino, apenas perpetua um ciclo de subutilização do potencial econômico da região, tornando o Mercosul menos relevante diante de outras uniões aduaneiras e acordos comerciais pelo mundo.
Cenário Político e as Implicações para o Futuro do Bloco
As críticas veementes de Javier Milei ao Mercosul não são isoladas, mas sim profundamente enraizadas em sua plataforma política e econômica de corte libertário. Desde sua ascensão à presidência, Milei tem defendido abertamente uma política de abertura econômica radical, desregulamentação e privatização, com o objetivo de integrar a Argentina de forma mais direta e desimpedida ao comércio global. Nesse contexto, o Mercosul, com suas estruturas e regras, é percebido como uma barreira à livre atuação de seu país no cenário internacional. A busca por acordos bilaterais individualizados, por exemplo, alinha-se perfeitamente à sua filosofia de mercado, que privilegia a soberania nacional em decisões comerciais e minimiza a intervenção de blocos supranacionais.
Essa postura confronta visões mais tradicionais de integração regional que prevalecem em outros países membros do Mercosul, como o Brasil, que historicamente tem defendido o fortalecimento do bloco como entidade negocial. A divergência de abordagens sinaliza um período de potenciais tensões e redefinições dentro da união aduaneira, que já enfrenta desafios complexos em um ambiente geopolítico e econômico global em constante transformação. A pressão argentina por maior flexibilidade pode forçar uma revisão interna de mecanismos e políticas, ou, alternativamente, gerar fricções que testarão a coesão do bloco. O futuro do Mercosul, portanto, poderá ser marcado por um debate mais intenso sobre sua identidade e seu papel, especialmente em relação à sua capacidade de se adaptar às demandas de seus membros mais alinhados ao liberalismo econômico.
A cúpula em Foz do Iguaçu, onde essas declarações foram feitas, destacou não apenas as divergências ideológicas, mas também aspectos práticos da dinâmica do bloco. A divulgação do discurso do presidente argentino, notavelmente, ocorreu com um atraso significativo em comparação com outros líderes. Esse detalhe, embora secundário, pode ser interpretado como um pequeno reflexo das nuances políticas e logísticas que permeiam as interações dentro do Mercosul. O posicionamento de Milei não apenas reabre discussões sobre a eficácia do bloco, mas também desafia o status quo, impulsionando a necessidade de o Mercosul se reinventar para permanecer relevante em um cenário internacional que exige cada vez mais agilidade e competitividade de seus atores.
Fonte: https://jovempan.com.br

