Um incidente chocante na Zona Leste de São Paulo resultou na morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, baleada por uma policial militar que se encontrava em fase de estágio na corporação. O caso, que ocorreu na madrugada de uma sexta-feira, levanta sérias questões sobre a formação de novos agentes, o cumprimento de protocolos de segurança e a atuação policial em áreas periféricas da capital paulista. A soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, responsável pelo disparo fatal, estava há apenas três meses nas ruas em patrulhamento, e, no momento da ocorrência, não portava câmera corporal, um equipamento crucial para a transparência em ações policiais.
O Perfil da Agente e o Debate sobre Maturidade Profissional
A policial envolvida na tragédia, Yasmin Cursino Ferreira, tem 21 anos e foi aprovada em concurso da Polícia Militar, com sua nomeação publicada no Diário Oficial em novembro daquele ano. Ela estava na etapa final do curso de soldado, que tem duração de dois anos, divididos em fases de formação básica, específica e um ano de estágio supervisionado. Sua atuação nas ruas, como estagiária, havia começado há aproximadamente três meses, inserindo-a em um cenário de grande responsabilidade com limitada experiência prática.
Nesse contexto, especialistas como o neurocirurgião e professor da Universidade de São Paulo (USP), Wellingson Paiva, trouxeram à tona o debate sobre o desenvolvimento cerebral. Paiva explicou que, na faixa etária da soldado Yasmin, o cérebro ainda está em amadurecimento, especialmente nas regiões associadas ao controle de impulsos, planejamento e inibição de comportamentos reativos. Essa perspectiva adiciona uma camada de complexidade à análise do incidente, sugerindo a importância de considerar fatores fisiológicos na avaliação de condutas sob pressão.
A Dinâmica da Abordagem Que Virou Tragédia
A confusão que culminou na morte de Thawanna começou de forma banal. A vítima caminhava de mãos dadas com seu marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, pela Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, quando Luciano acidentalmente esbarrou no retrovisor de uma viatura da PM. Em vez de uma abordagem protocolar, o policial Weden Silva Soares deu ré no veículo e iniciou uma discussão acalorada com o casal, marcada por xingamentos. A situação escalou quando a soldado Yasmin desceu da viatura e também se envolveu na discussão com Thawanna.
O confronto verbal rapidamente se tornou físico. Em determinado momento, Yasmin efetuou um disparo contra Thawanna. A policial alega ter reagido após ser atingida com um tapa no rosto. Socorrida cerca de 30 minutos depois, Thawanna foi levada ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu. A ação foi registrada exclusivamente pela câmera corporal do policial Weden, pois Yasmin não utilizava o equipamento, e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) não forneceu explicações para essa ausência, dificultando a completa elucidação dos fatos sob a perspectiva da agente que realizou o disparo.
Desrespeito a Protocolos e Análise Crítica de Especialistas
Especialistas em segurança pública prontamente criticaram a atuação policial no incidente, caracterizando-a mais como uma 'briga' do que uma 'abordagem' e apontando uma sequência de abusos que teriam desrespeitado frontalmente os protocolos da Polícia Militar. O tenente-coronel da reserva da PM de São Paulo e pesquisador em segurança pública, Adilson Paes de Souza, classificou o episódio como um 'absurdo' e defendeu que o caso seja investigado como homicídio qualificado por motivo fútil.
Segundo Paes de Souza, os abusos teriam começado desde o primeiro contato, com a agressividade verbal e a iniciativa dos policiais em escalar a discussão. Ele também destacou que, mesmo após o disparo, as imagens da câmera corporal mostram os agentes impedindo Luciano de se aproximar da esposa enquanto ela agonizava no chão. O pesquisador ainda ressaltou que, na prática, as normas da PM — que estabelecem que uma abordagem só pode ocorrer mediante fundada suspeita de envolvimento em crime, com verbalização e uso proporcional da força — são frequentemente ignoradas, especialmente em regiões periféricas, onde a motivação da abordagem pode estar ligada a fatores como cor da pele ou local de residência, em vez de elementos objetivos de crime.
Investigação e Implicações para a Corporação
Diante da gravidade dos fatos, o Ministério Público de São Paulo instaurou um procedimento para investigar a morte de Thawanna da Silva Salmázio. Como medida imediata, os dois policiais envolvidos na ocorrência, a soldado Yasmin Cursino Ferreira e o policial Weden Silva Soares, foram afastados de suas funções de patrulhamento nas ruas enquanto a apuração segue seu curso. Essa ação é um passo inicial para garantir a imparcialidade da investigação e a responsabilização, caso sejam confirmadas as violações.
A tragédia na Zona Leste lança luz sobre a urgência de aprimorar os treinamentos e a supervisão de policiais em formação, garantindo que estejam plenamente preparados para lidar com situações de estresse e para agir estritamente dentro dos parâmetros legais e éticos. A ausência de câmera corporal da policial que efetuou o disparo e as denúncias de desrespeito a protocolos reforçam a necessidade de maior transparência e accountability nas forças de segurança, visando restaurar a confiança da população e prevenir que tais episódios se repitam.
Fonte: https://g1.globo.com

