A Polícia Civil de São Paulo instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da morte de um paciente de 30 anos em uma clínica de reabilitação localizada no Jardim Paulistano, em Ribeirão Preto, no último sábado. Wildson Cardoso Felipini, que lutava contra a dependência química, foi encontrado sem vida em um dos quartos da instituição, levantando uma série de questionamentos por parte de seus familiares. Enquanto a clínica informou ter tentado prestar os primeiros socorros antes de acionar as autoridades, a certidão de óbito do paciente aponta lesões traumáticas graves, o que contradiz a versão inicial de parada cardíaca e sugere a possibilidade de violência. O caso acende um alerta sobre a segurança e a fiscalização em centros de tratamento para dependentes químicos.
A Descoberta e as Primeiras Contradições
Detalhes da Admissão e o Choque da Notícia
Wildson Cardoso Felipini, um homem de 30 anos que enfrentava a dura batalha contra a dependência química, havia sido internado novamente em uma clínica de reabilitação em Ribeirão Preto, no dia 25 de dezembro. Sua família, buscando o tratamento necessário para ele, pagava uma mensalidade de R$ 2 mil pela internação na instituição, situada na Rua João Bim. No entanto, apenas dois dias após sua admissão, a família foi surpreendida pela trágica notícia de sua morte, ocorrida durante a madrugada de sábado. Inicialmente, a informação repassada aos parentes foi de que Wildson teria sofrido uma parada cardíaca, um evento súbito e fatal, comum em diversas condições de saúde.
Contudo, a versão da parada cardíaca começou a ruir quando os familiares tiveram acesso ao corpo de Wildson e, posteriormente, à certidão de óbito. Durante o velório, ao examinar o corpo, os sinais de violência eram inegáveis. A irmã de Wildson, Daiara Duarte do Nascimento, relatou a presença de múltiplos hematomas na testa e um olho visivelmente arroxeado. Além disso, marcas de corte nos braços, sugerindo uma tentativa de defesa, e esparadrapos em diversas partes do corpo, inclusive nos dedos machucados, levantaram sérias suspeitas de espancamento. A família, em choque e movida pela revolta, exigiu explicações e justiça para o que consideravam um crime brutal.
Laudo do IML Contradiz Versão Inicial
A discrepância entre a versão inicial e as evidências físicas foi reforçada pelo laudo do Instituto Médico Legal (IML). Contrariando a hipótese de morte natural por parada cardíaca, o IML indicou, entre as causas do óbito, hemorragia, fratura de base de crânio, traumatismo cranioencefálico e edema pulmonar. Essas descobertas são compatíveis com lesões resultantes de agressão física severa, transformando o caso em uma investigação de morte suspeita, a cargo do 8º Distrito Policial de Ribeirão Preto. A fragilidade da narrativa inicial da clínica perante o rigor dos exames periciais intensificou a necessidade de uma apuração detalhada sobre o que de fato aconteceu com Wildson Cardoso Felipini dentro das instalações de reabilitação.
Reações e Acusações: O Cenário da Investigação
Posição da Clínica e a Reação Familiar
Diante das acusações e da repercussão do caso, o Instituto Terapêutico Redentor, onde Wildson estava internado, emitiu um comunicado. A instituição informou ter prestado os primeiros socorros ao paciente após sua morte, porém sem sucesso, e que, em seguida, acionou a polícia. De acordo com a clínica, um boletim de ocorrência foi registrado, a perícia foi acionada e o corpo liberado para exames no IML. A clínica também relatou que, após a divulgação da notícia, familiares tentaram invadir o local, sendo necessária a intervenção policial para conter a situação. Contudo, questionada especificamente sobre as suspeitas de espancamento e as graves lesões apontadas pelo IML, a instituição optou por não receber a equipe de reportagem, mantendo-se em silêncio sobre a principal controvérsia do caso.
A Secretaria Municipal de Saúde de Ribeirão Preto, por sua vez, informou que a clínica possui licença de funcionamento regular e que, até o momento da denúncia, não havia registros de outras ocorrências ou reclamações formais contra a instituição em seus arquivos. No entanto, diante da gravidade da situação e da abertura de um inquérito policial, a Secretaria garantiu que todas as informações pertinentes seriam levantadas e colaboraria com as autoridades locais para o esclarecimento dos fatos. Este posicionamento das autoridades municipais ressalta a importância de uma fiscalização contínua e rigorosa sobre os centros de tratamento, para garantir a segurança e o bem-estar dos pacientes.
Autoridades e Novas Alegações de Violência
As suspeitas de que Wildson foi vítima de violência não se restringem apenas às descobertas da família e do IML. Novas alegações vieram à tona, aprofundando o mistério e a indignação. Familiares relatam que pessoas que trabalham nas proximidades da clínica afirmaram ter ouvido gritos vindos de dentro da instituição no fim de semana do ocorrido. Edmilson Felipini Júnior, irmão da vítima, mencionou que frentistas de um posto de gasolina localizado em frente à clínica teriam relatado uma briga intensa, com muitos gritos, por volta das 16h do dia 26 de dezembro, um dia antes da morte ser confirmada. Estas informações, se comprovadas, poderiam corroborar a tese de agressão.
Adicionalmente, os familiares apresentaram uma grave alegação: de que um dos responsáveis pela clínica teria, em uma troca de mensagens, confirmado que Wildson havia sido espancado e morto por outro interno. Essa afirmação, se verdadeira, representaria uma confissão alarmante e um direcionamento crucial para a investigação policial, que agora busca desvendar a real dinâmica dos eventos que levaram à morte do paciente. O caso, sob investigação do 8º Distrito Policial como morte suspeita, promete ser complexo e exige uma apuração minuciosa para determinar as responsabilidades.
As Demandas por Justiça e o Contexto da Segurança em Internações Terapêuticas
A morte de Wildson Cardoso Felipini, com indícios tão contundentes de violência, transcende o âmbito familiar e se torna um caso emblemático sobre a segurança e a responsabilidade das instituições de reabilitação. A família clama por justiça e responsabilização. “Revolta, revolta, só isso. E a gente quer justiça, porque a gente vai procurar justiça até o fim. O mínimo que a gente quer é que aquela clínica seja responsabilizada”, expressou o irmão da vítima. Essa demanda por justiça ecoa a necessidade de assegurar que centros terapêuticos, que deveriam ser locais de acolhimento e tratamento, não se transformem em cenários de negligência ou, pior, de violência.
A Polícia Civil, ao investigar a fundo as causas da morte e as circunstâncias dentro da clínica, tem a tarefa crucial de esclarecer se houve omissão, falha na segurança ou, de fato, um ato criminoso. A apuração incluirá a análise de depoimentos, evidências forenses e possíveis registros internos da clínica. Este caso particular pode impulsionar um debate mais amplo sobre a fiscalização de clínicas de reabilitação, a capacitação de seus funcionários e a garantia de um ambiente seguro para pacientes que, em sua vulnerabilidade, buscam ajuda para superar a dependência. A sociedade espera que a verdade seja revelada e que as medidas cabíveis sejam tomadas para prevenir que tragédias semelhantes se repitam, reafirmando o compromisso com a dignidade e a segurança dos indivíduos em tratamento.
Fonte: https://g1.globo.com

