A cidade de Niterói, no Rio de Janeiro, tornou-se palco de um significativo debate ao sancionar uma legislação que impacta diretamente o financiamento cultural por parte do poder público. Conhecida popularmente como Lei Anti-Oruam, a nova medida veda o uso de recursos municipais em eventos e espetáculos que de alguma forma promovam a apologia ao crime ou ao consumo de drogas. A decisão do prefeito Rodrigo Neves (PDT) de aprovar a proposta, vinda da Câmara Municipal e geradora de intensa controvérsia, sublinha um esforço para redefinir os parâmetros da política cultural local. A legislação visa proteger principalmente crianças e adolescentes, blindando-os de conteúdos que possam glamourizar a criminalidade, um tema de crescente preocupação em diversas esferas da sociedade. A repercussão tem sido ampla, envolvendo discussões acaloradas tanto no meio político quanto nas redes sociais, onde a sanção ou veto da lei foi objeto de campanhas organizadas pela população.
Detalhamento da Legislação e Seu Contexto Local
A Proposta e a Aprovação no Legislativo Niteroiense
A iniciativa legislativa em Niterói, que culminou na Lei Anti-Oruam, foi encabeçada por uma vereadora do Partido Liberal (PL), refletindo uma preocupação crescente com a influência de certas manifestações artísticas sobre o público jovem. O texto da lei é explícito ao proibir que fundos públicos sejam destinados a qualquer tipo de show, apresentação ou evento cultural que, em seu conteúdo ou pela figura de seus artistas, faça apologia ao crime, ao uso ou tráfico de drogas, ou a organizações criminosas. A discussão na Câmara Municipal foi marcada por intensos debates, dividindo opiniões entre aqueles que defendem a liberdade de expressão artística e os que argumentam pela responsabilidade social e proteção da juventude. Apesar da polarização, o projeto conseguiu a maioria necessária para sua aprovação no legislativo local, demonstrando um consenso sobre a necessidade de estabelecer limites éticos para o financiamento de eventos com dinheiro do contribuinte. O processo legislativo em Niterói contrasta com a situação da capital fluminense, onde uma proposta similar foi apresentada, mas não avançou, sendo posteriormente arquivada sem grande repercussão.
O Papel do Executivo e a Sanção da Lei
A decisão final sobre a validade da Lei Anti-Oruam coube ao prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, que optou por sancionar o texto, transformando-o em lei municipal. A escolha não foi isenta de pressões; uma campanha digital significativa se formou nas redes sociais, instigando o prefeito a vetar o projeto, sob argumentos que frequentemente citavam a liberdade artística e o potencial de censura. No entanto, Neves justificou sua decisão baseando-se no interesse público de proteger a moralidade e a segurança, especialmente de crianças e adolescentes, contra a glamorização do crime. A sanção reforça a postura do executivo municipal em Niterói de associar o financiamento público de eventos culturais a valores que não entrem em conflito com a ordem pública e o combate à criminalidade. Essa medida posiciona Niterói na vanguarda de uma discussão complexa que permeia diversas cidades brasileiras: como equilibrar o fomento à cultura com a promoção de uma mensagem socialmente responsável, sem cruzar a linha da censura ou do controle ideológico sobre a arte.
A Figura Central da Polêmica: O Rapper Oruam e Suas Implicações
O Artista, Suas Raízes e Popularidade
O nome da legislação, Lei Anti-Oruam, é uma referência direta ao rapper Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, artisticamente conhecido como Oruam. O artista desfruta de uma popularidade considerável entre o público jovem, com milhões de seguidores nas redes sociais e músicas que alcançam grande visibilidade. No entanto, sua trajetória é frequentemente associada a controvérsias, em grande parte devido à sua filiação familiar. Oruam é filho de Márcio Nepomuceno, mais conhecido como Marcinho VP, uma figura notória e apontada como um dos líderes de uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho. Essa ligação, embora não defina intrinsecamente o caráter ou a arte de Oruam, inevitavelmente o coloca no centro de debates sobre a influência da cultura popular e a percepção pública de artistas com vínculos a figuras do submundo do crime. A popularidade do rapper entre adolescentes, somada às polêmicas que o envolvem, catalisou a criação de uma lei com seu nome, visando prevenir que tais associações sejam inadvertidamente financiadas por verbas públicas.
Incidentes Legais e a Repercussão Pública
A imagem de Oruam tem sido reiteradamente ligada a problemas com a polícia e a Justiça, o que intensifica o escrutínio sobre sua figura pública e artística. Em diferentes ocasiões, o rapper foi detido, gerando manchetes e alimentando o debate sobre a Lei Anti-Oruam. Em um dos incidentes mais notáveis deste ano, Oruam foi preso por direção perigosa. Posteriormente, esteve envolvido em outro confronto com policiais durante uma operação de busca e apreensão em sua residência, resultando em nova detenção. As acusações contra ele incluem associação ao tráfico de drogas, embora o artista sempre negue veementemente as alegações, afirmando que não é “bandido” e que sua intenção é usar a música como meio para provar sua inocência e limpar seu nome. Esses episódios legais, somados à sua origem familiar, criaram um caldo de cultura que justificou, na visão dos propositores da lei e do prefeito de Niterói, a necessidade de uma barreira legal para o uso de dinheiro público em shows que, direta ou indiretamente, possam ser interpretados como enaltecedores de uma cultura marginal ligada à criminalidade.
Implicações, Repercussões e o Cenário Ampliado da Política Cultural
A Lei Anti-Oruam em Niterói abre um precedente significativo para o debate sobre o financiamento público de eventos culturais em todo o Brasil. A medida não apenas estabelece critérios éticos para a destinação de verbas públicas, mas também levanta questões complexas sobre a liberdade artística e os limites da intervenção estatal na cultura. De um lado, defensores da lei argumentam que o dinheiro do contribuinte não deve ser usado para promover conteúdo que possa ser prejudicial, especialmente para jovens, ou que glorifique atividades criminosas. Eles veem a lei como um instrumento vital para a segurança pública e a formação de valores cívicos. De outro lado, críticos alertam para o risco de censura velada e a possibilidade de que critérios subjetivos sejam usados para barrar artistas e manifestações culturais que desafiem o status quo ou que abordem realidades sociais complexas de forma não convencional. A sanção desta lei em Niterói reflete uma tendência crescente de municípios e estados brasileiros em revisar suas políticas culturais, buscando alinhar o fomento à cultura com objetivos mais amplos de segurança e bem-estar social. A longo prazo, a implementação da Lei Anti-Oruam poderá reconfigurar o panorama cultural de Niterói, incentivando a produção de conteúdo que esteja em consonância com os valores promovidos pela administração municipal e abrindo discussões importantes sobre o papel da arte na sociedade contemporânea e a responsabilidade social dos artistas e do poder público.
Fonte: https://jovempan.com.br

