A chegada do grupo de ataque naval liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln à zona de responsabilidade do Comando Central dos EUA, próximo às águas iranianas, intensificou a percepção de uma escalada iminente no Oriente Médio. Este deslocamento militar ocorre em um momento particularmente sensível para a República Islâmica, que enfrenta a mais extensa e violenta repressão a protestos de sua história recente. A conjunção da pressão externa, com as intenções do presidente americano deliberadamente obscuras, e uma profunda crise doméstica sugere que qualquer eventual resposta iraniana a um ataque militar dos EUA pode divergir significativamente dos padrões de retaliação cuidadosamente calibrados observados em confrontos passados.
O cenário atual alimenta a ansiedade não apenas em Teerã, mas em toda a região, historicamente volátil. Líderes iranianos encontram-se em uma encruzilhada, pressionados por uma população que exige a derrubada do regime e por ameaças externas que, dadas as tensões internas, carregam agora um risco substancialmente maior de rápida escalada, tanto regionalmente quanto dentro do próprio Irã.
O Padrão de Respostas Calibradas no Passado
Historicamente, Teerã demonstrou uma clara preferência por retaliações subsequentes e limitadas em seus confrontos com Washington, buscando sinalizar determinação sem precipitar um conflito em larga escala. Um exemplo notável ocorreu após os ataques americanos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025. O Irã respondeu no dia seguinte com um ataque de mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos.
Segundo declarações da época, o Irã teria alertado os EUA antecipadamente sobre o ataque, permitindo a interceptação da maioria dos mísseis e, consequentemente, evitando vítimas fatais. Esse incidente foi amplamente interpretado como uma manobra calculada para demonstrar capacidade de resposta, ao mesmo tempo em que se esquivava de uma guerra total.
Um comportamento similar foi observado em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump. Após o assassinato do comandante da Força Quds, Qassem Soleimani, pelos EUA, em Bagdá, o Irã retaliou cinco dias depois com mísseis contra a base aérea americana de Ain al-Asad, no Iraque. Novamente, Teerã emitiu alertas prévios. Embora nenhum militar americano tenha sido morto, dezenas relataram lesões cerebrais traumáticas. Ambos os episódios solidificaram a percepção de que o Irã visava gerenciar a escalada, em vez de provocá-la abertamente, optando por uma estratégia de contenção.
A Realidade Interna de Um Irã Convulsionado
A situação interna do Irã atualmente é dramaticamente diferente. A República Islâmica emerge de uma das ondas mais graves de distúrbios domésticos desde sua fundação em 1979. Os protestos que eclodiram entre o final de dezembro e o início de janeiro foram violentamente reprimidos, com relatos de organizações de direitos humanos e profissionais médicos indicando que milhares de pessoas foram mortas, feridas ou detidas, embora a verificação exata dos números seja dificultada pela falta de acesso a dados e por um extenso apagão da internet.
As autoridades iranianas, por sua vez, refutaram a responsabilidade pelas mortes, atribuindo os distúrbios a 'grupos terroristas' e acusando Israel de instigá-los. Essa narrativa foi endossada pelos mais altos escalões do Estado, com o secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança chegando a afirmar que os protestos deveriam ser vistos como uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel no ano anterior. Tal enquadramento serve como uma possível justificativa para a escala e intensidade da repressão, priorizando a segurança interna acima de tudo.
Embora a intensidade das manifestações de rua tenha diminuído, a agitação social não cessou, e a profunda divisão entre vastos setores da sociedade e o sistema governante raramente pareceu tão acentuada. Relatos sugerem que, em certos momentos de janeiro, as forças de segurança chegaram a perder o controle parcial de algumas cidades e bairros, recuperando-o apenas por meio de uma intervenção contundente e rápida. Essa experiência de perda de controle parece ter abalado profundamente as autoridades, resultando em uma calma imposta, e não negociada, o que mantém a situação interna em um estado de alta volatilidade.
Implicações para a Resposta Externa Iraniana
Neste contexto de fragilidade interna e de uma retórica inflexível por parte do regime, a natureza de qualquer ataque dos Estados Unidos adquire uma criticidade sem precedentes. Diferente dos episódios anteriores, um ataque americano agora se depara com um Irã em que a liderança pode se sentir compelida a reagir de forma mais veemente, não apenas para deter um agressor externo, mas também para projetar força e consolidar sua legitimidade perante uma população crescentemente descontente.
Uma resposta 'calibrada', como as do passado, poderia ser interpretada como fraqueza em um momento em que o regime precisa demonstrar controle absoluto, tanto internamente quanto no cenário internacional. A necessidade de desviar a atenção das crises domésticas e de unir a nação contra um inimigo comum poderia levar a uma retaliação menos contida e mais imprevisível. A ameaça explícita de Trump de atacar o Irã 'se manifestantes fossem mortos' intensifica ainda mais a complexidade, pois a repressão interna já resultou em inúmeras fatalidades.
Assim, a probabilidade de uma escalada rápida e descontrolada é significativamente maior. A decisão iraniana poderia não visar apenas um impacto militar, mas também um efeito psicológico e político interno, desafiando a percepção de sua fraqueza e tentando reafirmar sua soberania de maneira inequívoca, mesmo que isso signifique o risco de um conflito maior.
Conclusão: Risco de Escalada Sem Precedentes
A presença naval americana no Golfo, as ameaças de Washington e a crise interna sem precedentes no Irã criam um cenário de alta periculosidade. Ao contrário dos padrões históricos de retaliação medida, a confluência de pressões internas e externas coloca Teerã em uma posição em que sua resposta a um ataque pode ser ditada mais pela necessidade de reafirmar o controle doméstico do que por uma cuidadosa calibração geopolítica.
A volatilidade imposta pela repressão interna e a profunda divisão social transformam cada movimento em um risco calculado. Qualquer ataque dos EUA, mesmo que limitado, pode desencadear uma resposta iraniana que foge ao controle, resultando em uma escalada rápida e imprevisível, não só na região, mas também com repercussões potencialmente devastadoras para a estabilidade interna do próprio Irã. O Oriente Médio, já um barril de pólvora, se aproxima de um momento em que os velhos manuais de contenção podem não mais se aplicar.
Fonte: https://g1.globo.com

