Uma experiência gastronômica singular tomou conta das redes sociais e da mídia, transformando um salgado popular em um portal para o inesperado. Em Cananéia, no litoral sul de São Paulo, uma personal trainer se deparou com uma pérola dentro de uma coxinha de ostra defumada, queijo e catupiry. O achado insólito, protagonizado por Carina Lisboa, de 41 anos, não só despertou curiosidade, mas também lançou luz sobre uma iniciativa culinária que busca conciliar o prazer da boa mesa com a sustentabilidade ambiental.

A Coxinha Que Escondeu uma Joia

A protagonista da história é uma coxinha preparada há quase duas décadas pelo renomado restaurante Ponto das Ostras. Conhecida por sua receita diferenciada, que combina a riqueza da ostra defumada com a cremosidade do queijo e do catupiry, a iguaria ganhou uma roupagem especial para o 1º Festival GastroMangue. Enquanto originalmente era elaborada com a ostra nativa da região, para o evento, a receita foi adaptada para utilizar uma espécie exótica: a Saccostrea cucullata, de origem asiática.

Carina Lisboa descreveu o momento da descoberta: ao morder a coxinha, sentiu algo duro, que, para sua surpresa, revelou ser uma pequena esfera. Especialistas confirmaram que se tratava de uma pérola, solidificando o evento como uma anedota memorável para o restaurante e seus frequentadores.

Do Problema Ambiental à Solução Gastronômica

A escolha da ostra Saccostrea cucullata para a receita do festival não foi aleatória. Essa espécie, também conhecida popularmente como 'tampinha', é considerada invasora nos ecossistemas brasileiros, competindo com as ostras nativas de Cananéia e gerando preocupações ambientais e sociais. O GastroMangue, portanto, propôs aos estabelecimentos locais que desenvolvessem ou adaptassem pratos com a ostra exótica, transformando um desafio ecológico em uma oportunidade gastronômica.

Paula Monteiro, proprietária do Ponto das Ostras, explica que a adaptação da receita para a ostra asiática foi um sucesso. Segundo ela, a espécie exótica possui um sabor mais marcante em comparação com a ostra nativa, que é mais delicada. Quando cozida, essa intensidade se acentua, conferindo um toque distintivo ao recheio da coxinha e conquistando um público que, muitas vezes, não tem o hábito de consumir ostras. As ostras utilizadas no festival não são cultivadas em cativeiro; são coletadas do ambiente natural de Cananéia e fornecidas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) como parte da iniciativa de controle da espécie invasora.

A Incredulidade de Gerações de Ostreicultores

A descoberta da pérola causou espanto até mesmo na família de Paula Monteiro, que possui uma longa tradição no manejo de ostras. Seu pai, por exemplo, trabalha com o molusco desde os 13 anos e, em todas essas décadas de experiência, jamais havia encontrado uma pérola. O fato de isso acontecer justamente em seu restaurante, dentro de uma coxinha, foi um evento sem precedentes.

A surpresa inicial rapidamente se transformou em uma história única e especial para o estabelecimento. O episódio não apenas adiciona um tempero de mistério e fascínio à culinária local, mas também sublinha a imprevisibilidade da natureza, mesmo para aqueles com profundo conhecimento do mar.

O Valor Além do Mercado: O Significado da Pérola Encontrada

Embora o achado seja notável, o biólogo Ricardo Samelo, em entrevista ao g1, esclareceu que o valor comercial da pérola provavelmente não ultrapassaria os R$ 50. A esfera, que não passou por uma avaliação gemológica formal, apresenta características de uma pérola barroca – termo dado às pérolas de formato irregular. O valor de uma pérola é determinado por critérios como tamanho, formato, cor e brilho, e exemplares irregulares geralmente não alcançam altos preços no mercado.

Contudo, para Samelo, o verdadeiro valor da pérola de Cananéia reside na raridade das circunstâncias e na história que ela representa. Encontrar uma pérola ao se alimentar de uma ostra é um evento excepcional e inusitado, que transcende qualquer preço de mercado. É uma narrativa para ser contada e recordada, um lembrete de que, por vezes, as maiores joias estão nas experiências mais inesperadas.

A descoberta da pérola na coxinha de ostra de Cananéia é um testemunho da capacidade de inovar na gastronomia e de como a culinária pode se entrelaçar com questões ambientais. Mais do que o valor monetário de um pequeno achado, a história celebra a surpresa, a paixão pela cozinha e a resiliência de uma comunidade que transforma desafios em oportunidades saborosas.

Fonte: https://g1.globo.com

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