Diante de um cenário de crescente preocupação com o abastecimento de diesel no Brasil, a Petrobras implementou o sistema de “cota-dia” para as distribuidoras, uma medida que fragmenta o volume mensal contratado em remessas diárias. A iniciativa visa controlar a demanda e evitar a formação de estoques antecipados, especialmente em um momento de elevada defasagem dos preços internos em relação ao mercado internacional e incertezas geopolíticas. Essa decisão, interpretada por muitos no setor como um racionamento velado, surge em resposta à disparada dos preços globais do petróleo e à suspensão das importações do combustível, colocando em xeque a segurança energética do país.
A Medida de Contingência e as Raízes do Problema
O mecanismo da “cota-dia” estabelecido pela Petrobras impede que as empresas distribuidoras antecipem a retirada de grandes volumes de diesel, diluindo o suprimento ao longo do mês. Esta prática, comum em situações de escassez, foi adotada após a intensificação do conflito no Oriente Médio, que impulsionou os preços internacionais do petróleo. A percepção de que grandes consumidores estavam correndo para abastecer seus tanques, antecipando um provável reajuste, acelerou a necessidade de controle por parte da estatal.
A principal justificativa para a suspensão das importações e, consequentemente, para a tensão no abastecimento, reside na significativa defasagem entre o preço do diesel vendido no Brasil e o praticado globalmente. No fechamento do mercado em 10 de outubro, a diferença atingia 60%, o que representava um potencial aumento de R$ 1,94 por litro. Essa disparidade inviabiliza economicamente a compra do produto por importadores privados, que respondem por uma parcela crucial da demanda nacional.
Fragilidade do Suprimento e o Papel dos Importadores
A Petrobras é responsável por cobrir aproximadamente 70% da demanda interna de diesel. O restante, cerca de 30%, é historicamente suprido por importações realizadas por empresas privadas. Com a paralisação dessas compras devido à incompatibilidade de preços, o mercado nacional enfrenta um déficit considerável. Essa lacuna no fornecimento tem levado à percepção de um risco iminente de crise, com executivos do setor alertando para a gravidade da situação.
Os estoques privados de diesel no Brasil são estimados para durar, no máximo, 15 dias, o que amplifica a vulnerabilidade do sistema. As regiões mais suscetíveis a sentir os primeiros efeitos da escassez são aquelas mais dependentes de volumes estrangeiros, como o Nordeste e o Rio Grande do Sul. Enquanto refinarias privadas, como a Ream (Amazonas) e a Mataripe (Bahia), já repassaram os aumentos de custos, a Petrobras mantém seus preços congelados, aprofundando a distorção no mercado.
Impacto no Setor Produtivo e Alertas dos Especialistas
O impacto da restrição já é sentido por segmentos vitais da economia, como os Transportadores-Revendedores-Retalhistas (TRRs). Essas empresas, que abastecem diretamente fazendas, indústrias, construtoras e transportadoras – muitas vezes sem a estrutura de um posto fixo –, relatam dificuldades em obter o produto. A estratégia adotada pelos TRRs é fracionar as entregas para evitar que qualquer cliente fique completamente desabastecido, com as regiões agrícolas sendo as primeiras a sofrer as consequências.
Analistas e executivos do setor defendem um ajuste imediato nos preços internos do diesel. A medida seria fundamental para restabelecer a atratividade das importações e, assim, normalizar o suprimento. Há um consenso de que, se o impasse atual persistir, o racionamento informal tenderá a se intensificar, com o risco crescente de que a falta do combustível chegue diretamente ao consumidor final, gerando impactos sistêmicos na economia.
A Situação Específica do Rio Grande do Sul e a Posição da ANP
O Rio Grande do Sul foi um dos primeiros estados a reportar formalmente dificuldades. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) confirmou ter recebido informações sobre problemas pontuais na aquisição de diesel por produtores rurais na região. Este cenário destaca a fragilidade da cadeia de suprimentos em pontos críticos do país.
Contrariando as queixas, a ANP informou que a produção e entrega de diesel pela Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), principal fornecedora do Rio Grande do Sul e operada pela Petrobras, seguem em ritmo regular. A agência também salientou que o estado é um produtor de diesel que excede seu próprio consumo e mantém níveis de estoque regulares, não havendo, a princípio, justificativas técnicas ou operacionais que expliquem uma eventual recusa no fornecimento do produto. A Petrobras não se manifestou sobre o assunto até o fechamento desta reportagem.
A implementação da “cota-dia” pela Petrobras reflete a complexa interação entre os preços internacionais do petróleo, a política de preços interna e a capacidade de abastecimento do Brasil. Com importadores fora do mercado e estoques privados limitados, a medida busca gerenciar a demanda, mas evidencia a urgência de uma solução estrutural. A manutenção dos preços defasados e o silêncio da estatal intensificam a incerteza, deixando em aberto como o país superará essa tensão no fornecimento de um combustível essencial para sua economia.
Fonte: https://jovempan.com.br

