Em uma resposta coordenada ao avanço do crime organizado no sistema financeiro, a Polícia Federal (PF), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) formalizaram nesta segunda-feira (22) um acordo de cooperação estratégica. A parceria, com duração de 70 meses, visa combater esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro que utilizam fintechs e outras brechas do mercado para financiar atividades ilícitas. A iniciativa surge em um cenário de crescente preocupação com a infiltração de facções criminosas na economia, buscando prevenir a reedição de estruturas como a desmantelada pela Operação Carbono Oculto, que revelou a atuação do crime na Faria Lima. O objetivo é sufocar a ofensiva criminosa através de ações integradas e o aprimoramento contínuo das defesas do sistema financeiro nacional.
Aliança Estratégica Contra a Criminalidade Financeira
O Novo Paradigma do Combate ao Crime no Setor Bancário
A colaboração entre a PF, o BNDES e a Febraban representa um marco na estratégia de combate ao crime organizado no Brasil, especialmente no que tange às operações financeiras ilícitas. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou a transformação nas táticas criminosas, pontuando que os dias dos assaltos a bancos com dinamite e metralhadoras estão sendo substituídos por operações digitais de grande vulto. “Hoje, com laptop, às vezes intimidando um servidor que tem responsabilidade na instituição ou comprando, o que é pior, você tem operações de grande vulto, são centenas de milhares de reais transferidos para o crime organizado”, afirmou Mercadante durante a cerimônia de assinatura do acordo, realizada na sede da PF em São Paulo.
O evento contou com a presença de figuras proeminentes, incluindo o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o presidente da Febraban, Isaac Sidney. Também participaram quadros técnicos do BNDES, como Alexandre Abreu (Finanças e Mercado de Capitais) e Luiz Navarro (Risco e Compliance), além do presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Ricardo Saadi. Andrei Rodrigues ressaltou a imperatividade de atualizar as estratégias de combate ao crime. “Se o crime mudou, não podemos ficar parados no tempo e pensar em combater essas novas modalidades de delinquência com práticas que viemos adotando há 10, 15, 20 anos”, disse ele, anunciando ainda a expectativa de um acordo com a Interpol nos primeiros meses de 2026, aproveitando a liderança de um brasileiro na organização internacional.
Isaac Sidney, da Febraban, enfatizou a natureza mandatória da cooperação. “Aqueles que não querem se somar para combater o crime no sistema financeiro precisam ser banidos”, declarou, reiterando o alerta de que o crime organizado já se infiltrou nos tecidos da economia, exigindo uma resposta unificada e rigorosa do setor. A percepção é de que a fragilidade de um elo pode comprometer toda a cadeia de segurança financeira, necessitando de uma vigilância constante e de um compromisso intransigente com a integridade.
O Precedente da Operação Carbono Oculto e a Infiltração Econômica
Fintechs Sob o Radar e a Proposta de Regularização para Coibir Ilícitos
A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto passado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), serviu como um catalisador para a formalização do acordo. A operação expôs a sofisticação de uma facção criminosa em esquemas de lavagem de dinheiro, revelando como o grupo assumiu o controle de refinarias, distribuidoras, mais de 1.200 postos de combustíveis e até um terminal portuário, adulterando produtos comercializados em diversos estados. Investigadores do MPSP também indicaram que a facção se inseriu no mercado financeiro para movimentar bilhões, utilizando uma fintech que funcionava como um “banco paralelo do crime organizado”, evidenciando a ousadia e a engenhosidade dessas organizações.
Diante desse cenário, Isaac Sidney mencionou que a Febraban instituiu uma autorregulação logo após a Carbono Oculto, visando a que as instituições financeiras adotassem uma série de controles de integridade. Embora reconheça a impossibilidade de erradicar o crime, Sidney defende que o setor bancário deve “zelar por solidez” e “ser resiliente às investidas de delinquência”. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ao ser questionado sobre a predominância de facções específicas nos ataques ao sistema financeiro, afirmou não citar nomenclaturas criminosas para evitar “glamorizar o crime”, focando na importância de enfrentar essas ameaças “com rigor, com firmeza, com integração, com cooperação, com investimento, com capacitação, com tecnologia”, independentemente da origem ou do nome do grupo.
A proliferação de fintechs é um ponto de preocupação particular para o BNDES. Aloizio Mercadante alertou para a existência de operações que operam “abaixo do radar” das instituições fiscalizadoras, como as “contas balcão”, que podem ser criadas com dois CPFs e um CNPJ para lavar dinheiro. Embora pareçam legítimas na superfície, essas estruturas, segundo Mercadante, podem ocultar “tudo podre, é lavagem pura”. O presidente do BNDES sugeriu medidas drásticas para conter essa prática: “O Banco Central já tomou medidas em relação às contas balcão, mas eu quero fazer uma sugestão aqui. Dá um prazo de seis meses para que todas as fintechs se regularizem. Não regularizou? Fecha”. A proposta visa a fortalecer a fiscalização e impedir que esses canais sejam explorados pelo crime financeiro, garantindo maior transparência e controle.
Além disso, Mercadante destacou a importância de criar um “observatório do impacto do crime financeiro”. Para ele, os crimes financeiros representam um grande tema econômico, com impacto direto no desenvolvimento do Brasil, nos investimentos e na geração de empregos. A criação de um observatório que quantifique, monitore e diagnostique esses crimes é considerada “imprescindível” para formular políticas públicas mais eficazes e proativas no enfrentamento à criminalidade, permitindo uma compreensão mais profunda dos métodos e da escala do problema.
A Urgência da Colaboração e os Próximos Passos no Combate ao Crime Financeiro
A união entre a Polícia Federal, o BNDES e a Febraban é um testemunho da crescente complexidade e audácia das organizações criminosas no Brasil. O acordo de cooperação técnica e estratégica por 70 meses sublinha a necessidade de uma resposta multifacetada e contínua. Com o crime organizado migrando de táticas violentas para estratégias financeiras sofisticadas, a capacidade de adaptação e a integração entre as instituições de segurança pública e o setor financeiro tornam-se essenciais. A iniciativa busca não apenas reagir aos ilícitos, mas também antecipar e prevenir novas modalidades de lavagem de dinheiro e infiltração na economia, blindando o sistema contra futuras ameaças.
Os próximos passos envolverão a implementação das ações previstas no acordo, o desenvolvimento do observatório do crime financeiro e o aprofundamento das discussões sobre a regulamentação das fintechs. A possibilidade de expandir essa parceria para o âmbito internacional, com a participação da Interpol, demonstra a visão de longo prazo e a compreensão de que o combate ao crime financeiro exige uma frente global e coordenada. Proteger a solidez do sistema financeiro, garantir a integridade do mercado e assegurar o desenvolvimento econômico do país são os pilares dessa aliança, que visa a construir um ecossistema mais resiliente e seguro contra as investidas cada vez mais sofisticadas da criminalidade organizada. A colaboração contínua e a inovação nas estratégias de defesa serão cruciais para a manutenção da estabilidade e confiança no cenário financeiro nacional.
Fonte: https://jovempan.com.br

