Completando 60 anos em abril, o icônico Piso Paulista, com seu distintivo contorno do estado de São Paulo, é muito mais do que um simples revestimento de calçada; ele é um símbolo intrínseco à identidade visual da capital. Criado pela talentosa artista Mirthes Bernardes, nome artístico de Mirtes dos Santos Pinto, essa obra se espalhou pelas ruas da metrópole, tornando-se um marco reconhecido por moradores e visitantes. No entanto, apesar de sua longevidade e importância cultural, o futuro desse patrimônio urbano se apresenta incerto, ameaçado pela falta de proteção e reconhecimento adequados.

Mirthes Bernardes, que faleceu em 2020 aos 86 anos, não viu em vida o reconhecimento público ou a compensação financeira proporcional à vasta popularidade de sua criação. A vulnerabilidade do Piso Paulista reside justamente na ausência de tombamento como patrimônio cultural e na inexistência de programas específicos de preservação ou restauro, fatores que, segundo especialistas, o colocam em risco de desaparecimento frente à substituição por materiais mais baratos e a negligência na manutenção.

O Nascimento de um Ícone Urbano

A história do Piso Paulista remonta à gestão do prefeito Brigadeiro José Vicente Faria Lima, que administrou São Paulo entre 1965 e 1969. Naquela época, a administração municipal almejava criar uma identidade visual própria para a cidade, buscando inspiração em símbolos urbanos notáveis como o calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro, e as imponentes colunas de Brasília. Esse movimento representava um ambicioso projeto de modernização da imagem da capital, conforme destacado por Pablo Figueiredo, mestre em Design pela FAU-USP.

Em um contexto de histórica rivalidade entre São Paulo e Rio de Janeiro, a iniciativa de ter um calçadão com desenho próprio chegou a ser divulgada como uma resposta paulista ao mundialmente famoso calçamento carioca. A ideia era dotar São Paulo de um elemento característico que, à semelhança do que Roberto Burle Marx fizera no Rio, conferisse distinção à sua paisagem urbana. Contudo, uma diferença crucial marcou o destino dos dois símbolos: enquanto o calçamento de Copacabana obteve proteção patrimonial, o Piso Paulista permaneceu sem esse respaldo institucional.

Da Pedra Portuguesa ao Ladrilho Hidráulico: Uma Evolução Marcada por Desafios

Ao longo de suas seis décadas de existência, o Piso Paulista passou por significativas transformações em sua materialidade. Originalmente concebido e executado em pedras portuguesas, o desenho migrou posteriormente para uma versão em ladrilho hidráulico. Essa transição foi impulsionada por uma combinação de fatores econômicos e práticos. A produção em ladrilho hidráulico representava uma alternativa consideravelmente mais acessível em termos de custo, especialmente comparada à instalação da pedra portuguesa, um revestimento mais caro e de aplicação complexa. Essa mudança popularizou o padrão não apenas nas calçadas públicas, mas também em residências particulares.

A Gestão Maluf e as Controvérsias da Substituição

A substituição do material não se deu apenas por razões econômicas; houve também uma intervenção política decisiva. Durante a primeira gestão do prefeito Paulo Maluf, entre 1969 e 1971, uma parcela considerável das calçadas recém-instaladas com pedra portuguesa foi removida para dar lugar ao ladrilho hidráulico. A prefeitura da época justificou a medida alegando que as pedras se soltavam facilmente, demandavam manutenção complexa e apresentavam problemas de acessibilidade, além do risco de prender e quebrar saltos altos.

Apesar das justificativas apresentadas, a decisão de remover um revestimento tão novo levantou questionamentos. Para o pesquisador Pablo Figueiredo, embora a prevenção de custos futuros de manutenção pudesse ser uma motivação financeira, a medida não se configurava necessariamente como uma economia inteligente no momento, dada a recente instalação dos mosaicos em pedra portuguesa. Essa controvérsia marcou um capítulo importante na história do Piso Paulista, alterando substancialmente sua composição material e visual em muitas áreas da cidade.

Ameaças à Permanência e a Questão da Preservação

As normas atuais de acessibilidade exigem que as calçadas apresentem superfícies regulares, firmes e estáveis. Em teoria, tanto a pedra portuguesa quanto o ladrilho hidráulico podem satisfazer esses requisitos, desde que sejam instalados corretamente e recebam a devida manutenção. Contudo, a realidade nas ruas da capital paulista diverge frequentemente das diretrizes. Em diversos pontos, é comum encontrar calçadas com ladrilhos soltos, quebrados ou ausentes, criando obstáculos e dificuldades de circulação, especialmente para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A precariedade da manutenção não apenas compromete a segurança e a acessibilidade, mas também desfigura o próprio desenho do Piso Paulista. Em muitos trechos, o característico contorno do estado de São Paulo é interrompido ou distorcido por reparos improvisados, que não respeitam o padrão original. A falta de tombamento do Piso Paulista como patrimônio cultural é o cerne do problema, pois ela implica a ausência de mecanismos legais e recursos dedicados à sua efetiva preservação e restauro, deixando o símbolo à mercê da degradação e da indiferença.

O Futuro Incerto do Símbolo Paulistano

O desaparecimento do Piso Paulista é um risco tangível, conforme alertado por Pablo Figueiredo. Embora o desenho ainda possa ser encontrado em diversas regiões da cidade, sua versão original em pedra portuguesa já é, para todos os efeitos, praticamente inexistente. A adaptação em ladrilho hidráulico, que se difundiu amplamente, enfrenta atualmente uma crescente tendência de substituição por outros tipos de materiais, muitas vezes genéricos e sem qualquer valor estético ou histórico.

Essa substituição gradual, somada à deterioração por falta de manutenção e à ausência de políticas de proteção, coloca em xeque a continuidade de um elemento que transcendeu sua função prática para se tornar um verdadeiro emblema cultural. A perda do Piso Paulista significaria não apenas o sumiço de um desenho nas calçadas, mas o empobrecimento da memória visual e da identidade urbana de São Paulo, uma cidade que, ironicamente, buscou na criação de Mirthes Bernardes uma marca de sua singularidade.

O legado de Mirthes Bernardes, que por seis décadas adornou as calçadas paulistanas, clama por atenção e reconhecimento. É um convite à reflexão sobre a importância de preservar não apenas monumentos e edifícios, mas também os elementos cotidianos que narram a história e moldam o caráter de uma metrópole. A conscientização e a mobilização da sociedade, juntamente com iniciativas de poder público, são essenciais para garantir que o Piso Paulista continue a traçar o caminho da identidade de São Paulo por muitas gerações futuras.

Fonte: https://g1.globo.com

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