A estudante Priscila Motta da Rocha Antônio, de 21 anos, denunciou um grave caso de racismo na USP Ribeirão Preto, envolvendo uma colega de curso. A vítima, caloura de nutrição, afirma que os ataques sistemáticos começaram em abril, logo após a agressora descobrir que sua entrada na universidade se deu por meio do sistema de cotas. O relato detalha uma série de episódios de perseguição e desqualificação, que escalaram de piadas depreciativas a agressões físicas e comentários discriminatórios. A situação, inicialmente tratada com respostas institucionais consideradas insuficientes, ganhou notoriedade após ser divulgada nas redes sociais. A denúncia expõe não apenas o sofrimento individual da estudante, mas também levanta questões cruciais sobre o acolhimento e a eficácia dos mecanismos de combate ao racismo dentro das instituições de ensino superior no Brasil.

O início da perseguição e a escalada das agressões

Priscila Motta da Rocha Antônio, que cursa o primeiro ano de nutrição na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, relata que a perseguição e os ataques racistas começaram aproximadamente um mês após o início das aulas, em abril deste ano. O estopim para a série de agressões foi a descoberta, por parte da colega de sala, de que Priscila havia ingressado na instituição por meio do sistema de cotas.

A revelação das cotas como estopim

A primeira manifestação explícita de discriminação ocorreu durante uma conversa trivial. Priscila expressava o desejo de ter ingressado em outro curso, tecnicamente menos concorrido que nutrição. Ao ser questionada sobre como havia conseguido passar em nutrição, mas não no outro curso, a colega interveio de forma depreciativa. “Amiga, é porque ela é cota”, afirmou a agressora, utilizando um tom que, segundo Priscila, tinha o claro intuito de desmerecê-la e associar seu mérito acadêmico exclusivamente ao sistema de inclusão, e não à sua capacidade.

Episódios de desqualificação e violência física

Após esse incidente inicial, os episódios de hostilidade se tornaram mais frequentes e acentuados. Priscila descreve sentir-se diminuída a cada tentativa de interação com a colega. A escalada das agressões incluiu um incidente de violência física. Durante uma sessão de estudos na biblioteca, a agressora a atingiu no braço com uma chave, causando um ferimento considerável. A estudante teve que insistir para que a colega pedisse desculpas, o que foi feito de maneira debochada e sem sinceridade. Em outra ocasião, a colega proferiu um comentário racista, sugerindo que Priscila “ia casar com um artista famoso preto, porque ele também era cotista”, evidenciando a associação pejorativa e racializada que a agressora fazia em relação ao ingresso por cotas.

A resposta institucional e a busca por justiça

Diante da gravidade e da frequência dos ataques, Priscila buscou apoio e justiça junto às instâncias da universidade. A resposta inicial das instituições, no entanto, gerou frustração e sensação de desamparo na estudante.

A frustração com as primeiras tentativas de apoio

Priscila formalizou a denúncia perante a Comissão de Direitos Humanos da USP. A proposta apresentada pela comissão foi a de uma mediação de conflito, que só seria possível caso a agressora aceitasse participar. A estudante considerou a medida “absurda”, argumentando que o caso excedia a necessidade de um simples pedido de desculpas e que a dependência da aceitação da agressora para que o processo ocorresse a deixou “muito desamparada”. Para Priscila, a situação demandava uma ação mais enérgica e não uma simples tentativa de conciliação.

A repercussão nas redes sociais e a intervenção da universidade

A ineficácia das primeiras tentativas de resolução levou a cientista social Jéssica Machado, de Ribeirão Preto, a publicar o relato de Priscila nas redes sociais em 8 de outubro. A partir dessa publicação, o caso rapidamente ganhou grande repercussão, viralizando e chamando a atenção para a situação da estudante. Priscila também procurou a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da universidade. Ela relata que, após enviar a denúncia, um processo administrativo foi aberto, mas houve uma demora significativa no retorno da PRIP, que só ocorreu cerca de duas semanas e meia depois e, segundo ela, “por conta da publicação” nas redes sociais. Em 11 de outubro, a USP marcou uma reunião com Priscila para discutir o caso, que se arrastava por, pelo menos, sete meses. A universidade, por meio de nota, informou que, com base no relato formalizado, o caso foi encaminhado à Comissão de Direitos Humanos e à Comissão de Inclusão e Pertencimento, instâncias responsáveis pela condução da apuração, que segue em andamento. A USP declarou ainda que “eventuais responsáveis serão submetidos às medidas administrativas e legais cabíveis, conforme a legislação vigente e as normas da Universidade de São Paulo”.

O impacto na vida da estudante e a luta pela recuperação

A série de ataques racistas e a forma como o caso foi tratado inicialmente pela universidade tiveram consequências devastadoras para a saúde e a vida acadêmica de Priscila, que precisou se afastar dos estudos e lida com sérias consequências psicológicas.

O afastamento da universidade e a saúde mental afetada

O peso das agressões e a sensação de desamparo fizeram com que Priscila deixasse de frequentar a universidade. Ela desenvolveu depressão, descrevendo o período como de intensa “agonização”. A estudante critica a demora institucional em agir, afirmando que a universidade deveria estar mais preparada para lidar com situações de tamanha gravidade. “Eu queria o justo, porque perdi um semestre inteiro e foi muito doloroso”, desabafa. Durante esse período, Priscila ficava “trancada em casa, não fazia nada”, com seu psicológico profundamente afetado. Atualmente, ela está sob tratamento médico e toma sete comprimidos antidepressivos por dia, buscando recuperar sua saúde mental.

O apoio recebido e o plano de retorno

Apesar do sofrimento, Priscila conta com o apoio incondicional de sua família e amigos. Além disso, desde que seu relato viralizou nas redes sociais, ela tem recebido uma onda de solidariedade e carinho de desconhecidos, o que tem sido um alento. Com um olhar para o futuro, Priscila expressa o desejo de retomar seus estudos em 2026. Ela reconhece o medo que a situação ainda lhe impõe, mas se sente fortalecida pelo apoio que está recebendo, “muito feliz com o apoio e o carinho que estou recebendo nas redes sociais”. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que coordena o curso de nutrição, confirmou ter acolhido Priscila, oferecendo acompanhamento psicológico, psicopedagógico e tutoria acadêmica para auxiliar em sua reintegração às atividades universitárias. A faculdade reiterou seu posicionamento, afirmando que “não tolera práticas de racismo, discriminação ou violência em qualquer de suas formas e reafirma o compromisso institucional com a promoção dos direitos humanos, da equidade e de um ambiente universitário seguro e acolhedor para todas as pessoas”.

Conclusão

A denúncia de Priscila Motta da Rocha Antônio na USP de Ribeirão Preto não é apenas um caso isolado de racismo, mas um espelho das complexas barreiras enfrentadas por estudantes cotistas e oponentes da discriminação no ambiente universitário. A jornada de Priscila, marcada por perseguição e desamparo inicial, culminou na necessidade de buscar justiça e apoio para sua saúde mental, severamente abalada. Enquanto a universidade reitera seu compromisso com a inclusão e a apuração dos fatos, a repercussão do caso sublinha a urgência de respostas mais ágeis e eficazes. Este episódio reforça a importância da vigilância contínua e da implementação de políticas antirracistas que não apenas punam, mas também previnam, garantindo um ambiente de aprendizado seguro e verdadeiramente acolhedor para todos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O que motivou os ataques de racismo contra a estudante Priscila Motta?
Os ataques de racismo contra Priscila Motta começaram após sua colega de sala descobrir que ela havia ingressado no curso de nutrição da USP Ribeirão Preto por meio do sistema de cotas. A agressora utilizou essa informação para desmerecer Priscila e proferir comentários discriminatórios e racistas.

2. Como a USP inicialmente respondeu à denúncia de racismo?
Inicialmente, Priscila denunciou o caso à Comissão de Direitos Humanos da USP, que propôs uma mediação de conflito condicionada à aceitação da agressora. Priscila considerou essa medida insuficiente e desamparadora, buscando posteriormente a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), que abriu um processo administrativo após o caso ganhar repercussão nas redes sociais.

3. Qual foi o impacto do racismo na vida acadêmica e pessoal de Priscila?
Priscila deixou de frequentar a universidade devido aos ataques, desenvolveu depressão e perdeu um semestre inteiro. Sua saúde mental foi severamente afetada, levando-a a um tratamento com antidepressivos. Ela expressa o desejo de retornar aos estudos em 2026.

4. Quais medidas a USP afirma estar tomando após a repercussão do caso?
A USP informou que o caso foi encaminhado à Comissão de Direitos Humanos e à Comissão de Inclusão e Pertencimento para apuração. A universidade prometeu medidas administrativas e legais cabíveis aos responsáveis e ofereceu a Priscila acompanhamento psicológico, psicopedagógico e tutoria acadêmica para sua reintegração.

Se você ou alguém que conhece está passando por uma situação semelhante, denuncie e procure apoio. A luta contra o racismo é uma responsabilidade de todos.

Fonte: https://g1.globo.com

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