Ao caminhar pela Praça XV de Novembro, no coração de Ribeirão Preto, é comum deparar-se com a placa que indica o 'marco zero' da cidade, sugerindo que as primeiras sementes do município foram plantadas nas imediações da Catedral Metropolitana de São Sebastião. Contudo, essa narrativa tradicional, celebrada nos 170 anos da cidade, começa a ser questionada por evidências históricas que apontam para um local de origem diferente, um ponto que antecede em anos a própria fundação da igreja e a demarcação oficial do espaço urbano.

A Descoberta de um Povoado Pioneiro

Registros históricos detalhados por especialistas, como o historiador e professor José Antônio Lages, sugerem que a verdadeira gênese de Ribeirão Preto está a aproximadamente 650 metros do ponto atualmente reconhecido, na área onde hoje se encontra a Praça Barão do Rio Branco. Muito antes da construção da Catedral, documentos indicam a existência de um aglomerado de moradores nesta localidade, que, de forma autônoma, já havia erguido uma pequena capela. Este assentamento pré-existente, com suas casas e organização própria, desvenda uma Ribeirão Preto nascente que precedeu em pelo menos uma década a fundação da igreja matriz.

O professor Lages enfatiza que a matriz, ao contrário de ser o ponto de partida, surgiu para atender às necessidades de uma população já estabelecida. Documentos anteriores a 1856, ano da fundação oficial da cidade, já atestavam a presença de residências e da referida capela neste ponto mais antigo, configurando um núcleo urbano planejado e em desenvolvimento, e não apenas um agrupamento esporádico de habitações.

A Demarcação Oficial e o Projeto Urbano da Praça XV

A Praça XV de Novembro e a Catedral de São Sebastião, embora não sejam o ponto inicial de ocupação, desempenharam um papel crucial na conformação urbana de Ribeirão Preto. José Antônio Lages esclarece que este foi o primeiro espaço oficialmente demarcado com o propósito explícito de se criar uma povoação ao redor da então Capela de São Sebastião, que posteriormente se tornaria a Matriz. A construção da igreja, entre 1866 e 1870, foi precedida por uma demarcação do terreno que se deu entre oito a dez anos antes, estabelecendo o que seria o centro cívico e religioso da cidade.

Os fabriqueiros, responsáveis pela administração da igreja e suas propriedades, foram incumbidos da tarefa de planejar as ruas e travessas que circundariam a edificação. Este projeto de urbanização não visava apenas a construção do templo, mas a criação de uma vila organizada, com quarteirões divididos em lotes que seriam concedidos ou vendidos a preços acessíveis, incentivando a edificação de casas e o estabelecimento de comércios. Este processo, embora posterior ao povoado original, foi fundamental para o desenvolvimento ordenado da cidade.

Pistas Documentais e a Memória da 'Antiga Capelinha'

A existência do povoado original, separado do complexo da Matriz, é corroborada por documentos históricos de 1883, quase três décadas após a fundação de Ribeirão Preto. Estes registros contêm reivindicações de lotes por moradores que mencionavam a escassez de espaço ao redor da igreja e a disponibilidade de terrenos 'onde existiu a antiga capelinha'. Tais documentos oficiais da Câmara Municipal evidenciam que a 'antiga capelinha' e o aglomerado que a cercava eram reconhecidos como um local distinto e anterior à área da Matriz, indicando uma dupla camada na história fundacional da cidade.

A Relevância do Marco Zero: História, Tradição e Patrimônio Cultural

A discussão sobre a localização exata do marco zero de Ribeirão Preto, contudo, não descredita a história oficial nem a riqueza cultural da cidade. Sua importância reside, primordialmente, no patrimônio cultural e na tradição de demarcar o ponto de origem de uma comunidade. No Brasil, historicamente, a formação de municípios esteve intrinsecamente ligada à fundação de uma igreja, o que explica por que os marcos zeros de muitas cidades estão invariavelmente próximos da matriz local. A placa na Praça XV, com sua simbologia, representa essa tradição e o reconhecimento do local que se tornou o centro da vida urbana ao longo dos anos.

Este dilema geográfico, portanto, se configura mais como uma curiosidade histórica fascinante do que uma polêmica. Ele enriquece o entendimento da trajetória de Ribeirão Preto, demonstrando que a história é um campo dinâmico de descobertas e reinterpretações. Revela que, além da história em si, a própria versão da história é parte integrante de seu legado, convidando a todos a uma compreensão mais profunda e multifacetada dos 170 anos do município.

Fonte: https://g1.globo.com

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