Mehdi Mahmoudian, um dos roteiristas do aclamado filme iraniano “Foi Apenas um Acidente”, que concorre em duas categorias no Oscar 2026, foi detido em Teerã, capital do Irã, no último sábado. Sua prisão, que ocorreu ao lado de outros dois ativistas, está diretamente ligada à sua assinatura em uma carta aberta que critica severamente as ações do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, reacendendo debates sobre a liberdade de expressão e a repressão política na nação persa.

A Prisão e o Contexto de Dissidência Política

A detenção de Mahmoudian, noticiada pela revista Variety, é um desdobramento direto de seu engajamento em um manifesto assinado por 17 personalidades, incluindo o renomado diretor Jafar Panahi. A carta não apenas desafia abertamente o governo, mas também vocaliza preocupações profundas sobre a brutalidade empregada pelas autoridades em resposta a uma série de protestos populares que têm agitado o Irã. O texto é uma forte denúncia contra o que os signatários classificam como crimes organizados de Estado contra a humanidade, perpetrados contra cidadãos que ousaram expressar seu descontentamento.

“Foi Apenas um Acidente”: Conexões Artísticas e Repressivas

O filme “Foi Apenas um Acidente” surge como um paradoxo notável nesse cenário. Coescrito por Mahmoudian, o diretor Jafar Panahi, Nader Saïvar e Shadmehr Rastin, a obra disputa o Oscar de Melhor Roteiro Original e concorre ainda na categoria de Melhor Filme Internacional, onde enfrenta o representante brasileiro “O Agente Secreto”. A narrativa do longa acompanha quatro ex-condenados pelo regime iraniano que acreditam ter encontrado seu antigo torturador, ressoando com as experiências de seus próprios criadores e o clima político do Irã. Jafar Panahi, o diretor, já enfrentou condenação por “atividades de propaganda” contra o Estado no ano anterior e recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2025, justamente por este filme.

A Força da Carta Aberta Contra o Regime

O documento que motivou a prisão de Mahmoudian detalha, em termos gráficos, o sofrimento imposto à população. Ele descreve o “assassinato em massa e sistemático” de manifestantes, o uso de munição real contra civis, a prisão e perseguição de milhares de indivíduos, e a obstrução de cuidados médicos a feridos. A carta conclui que tais atos configuram um “ataque à segurança nacional do Irã e uma traição ao país”, evidenciando a coragem dos signatários em enfrentar publicamente a repressão estatal e a violação de direitos humanos.

Jafar Panahi e o Apoio ao Colega Preso

Em um gesto de solidariedade, Jafar Panahi divulgou um comunicado em apoio a Mehdi Mahmoudian. Panahi revelou que a colaboração para o roteiro de “Foi Apenas um Acidente” surgiu em circunstâncias peculiares, quando ambos se conheceram como prisioneiros políticos, ocasião em que Panahi solicitou a ajuda de Mahmoudian para aprimorar os diálogos de seu filme. O diretor descreveu Mahmoudian não apenas como um ativista de direitos humanos e prisioneiro de consciência, mas como uma “testemunha, um ouvinte e uma presença moral rara”, cuja ausência é profundamente sentida tanto dentro quanto fora das prisões iranianas.

Este incidente não apenas lança uma sombra sobre a jornada de um filme rumo ao Oscar, mas também ilumina a persistente luta pela liberdade de expressão e os altos riscos enfrentados por artistas e intelectuais no Irã. A detenção de Mehdi Mahmoudian serve como um lembrete contundente das tensões entre o poder estatal e a arte, amplificando o clamor por direitos humanos e a atenção internacional para a situação política no país.

Fonte: https://jovempan.com.br

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