A Corrida Internacional de São Silvestre, um dos eventos esportivos mais emblemáticos do Brasil, celebra em 2025 sua centésima edição, marcando um feito histórico com a participação recorde de mais de 50 mil corredores. Consolidada como uma tradição de fim de ano em São Paulo, a prova transcende o simples desafio atlético, tornando-se um símbolo de superação, união e celebração. Sua trajetória, iniciada em 1925 por uma inspiração do jornalista Cásper Líbero, reflete a evolução do esporte no país e a paixão dos brasileiros pelas corridas de rua. Desde suas modestas origens até se tornar um palco internacional, a São Silvestre continua a inspirar atletas e amadores, conectando gerações através do percurso pelas ruas da capital paulista e consolidando seu lugar na memória coletiva nacional. Este ano, a expectativa é que a prova reforce ainda mais seu legado de inclusão e emoção.
A Gênese de Uma Tradição Centenária
A Inspiração Parisiense e a Primeira Largada
A história da Corrida de São Silvestre teve início em 1924, quando o jornalista, empresário e advogado Cásper Líbero realizou uma viagem a Paris. Durante sua estadia, Líbero testemunhou uma corrida noturna em que os participantes empunhavam tochas, criando um espetáculo visual e uma atmosfera vibrante que o fascinaram. Profundamente inspirado por essa experiência, ele idealizou uma prova semelhante para ser realizada no Brasil, especificamente na cidade de São Paulo, sempre no último dia do ano. Assim, na noite de 31 de dezembro de 1925, a primeira edição da Corrida de São Silvestre foi concretizada.
A escolha do nome “São Silvestre” foi uma homenagem ao santo celebrado naquele dia. Para o diretor-executivo da Corrida Internacional de São Silvestre, Eric Castelheiro, a visão de Líbero foi pioneira. Ele destaca que a prova nasceu da observação de uma corrida noturna em Paris, onde corredores com tochas criavam um efeito visual deslumbrante, motivando-o a trazer a ideia para São Paulo e fundar a primeira edição da São Silvestre em 1925. Naquele tempo, o nome era grafado com “Y”, e agora, quase um século depois, o evento atinge sua centésima edição.
A prova inaugural contou com 60 inscritos, dos quais 48 efetivamente largaram do Parque Trianon, na Avenida Paulista, às 23h40. Os corredores percorreram 8,8 quilômetros pelas ruas de São Paulo, e o vencedor foi Alfredo Gomes, que completou o trajeto em 23 minutos e 19 segundos. A vitória de Gomes não foi apenas um marco esportivo; ele já havia feito história em 1924, ao se tornar o primeiro atleta negro a representar o Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris. A corrida se estabeleceu rapidamente como um ícone nacional, sendo interrompida apenas uma vez em sua longa história, no ano de 2020, devido à pandemia de COVID-19. Embora em 2024 a prova tenha completado 100 anos de existência, é em 2025 que ela alcança sua centésima edição oficial, celebrando o feito com um número inédito de participantes, superando a marca dos 50 mil corredores.
Evolução, Quebra de Tabus e o Legado dos Heróis
Da Competição Nacional à Arena Global
Nas suas primeiras edições, a Corrida de São Silvestre era um evento exclusivamente nacional, permitindo apenas a participação de atletas brasileiros. No entanto, a partir de 1927, uma mudança regulamentar abriu as portas para estrangeiros radicados no Brasil. Essa alteração permitiu que o italiano Heitor Blasi, residente em São Paulo, se consagrasse campeão em 1927 e 1929, tornando-se o único estrangeiro a vencer a prova durante sua “fase nacional”, que durou até 1944. A verdadeira internacionalização da São Silvestre ocorreu em 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a competição passou a receber atletas de outros países, inicialmente apenas da América do Sul. Dois anos depois, o evento se tornou de fato mundial, inaugurando um período desafiador de 34 anos sem vitórias de atletas brasileiros na categoria masculina. Esse tabu foi finalmente quebrado em 1980, com a memorável vitória do pernambucano José João da Silva.
As mulheres só foram incorporadas à competição a partir de 1975, ano em que a alemã Christa Valensieck se tornou a primeira campeã feminina. José João da Silva, ao rememorar sua histórica vitória, descreve a intensidade daquele momento: o público chorava e gritava, e a quebra de um tabu inédito com o primeiro brasileiro a vencer gerou uma comoção nacional. Ele, que começou a trabalhar muito cedo nas roças de Pernambuco, não fazia ideia do impacto que aquele triunfo teria em sua vida. O país parou, foi como uma Copa do Mundo, com o povo querendo invadir a pista e sendo contido pela polícia. Para ele, a vitória foi muito impactante, transformando sua vida completamente. O diretor da corrida enfatiza que atletas brasileiros que conquistam a São Silvestre se tornam figuras heroicas para a população, “virando ídolos” e “super-heróis humanos”, pois representam a superação acessível e palpável.
Entre os maiores nomes brasileiros, destaca-se Marilson Gomes dos Santos, o atleta do Brasil com o maior número de vitórias na fase internacional da São Silvestre, com três títulos conquistados em 2003, 2005 e 2010. Marilson ressalta o impacto de suas conquistas: a vitória brasileira estimula mais pessoas a correr e participar de provas de rua. Ele ouve muitos depoimentos de pessoas que começaram a correr após vê-lo vencer a São Silvestre em 2003.
Outra figura inspiradora é Maria Zeferina Baldaia, que mudou sua vida após vencer a corrida em 2001. Trabalhadora rural (“boia-fria”) por 20 anos, Zeferina começou a correr ainda criança, descalça por 15 anos devido à falta de condições para comprar tênis, enfrentando cacos de vidro e o sol quente com o objetivo de ajudar a família. Sua inspiração surgiu ao assistir na televisão a portuguesa Rosa Mota, recordista de vitórias, e ela sonhou em um dia participar da corrida. Quinze anos depois de ver Mota vencer, Baldaia realizou seu sonho e se tornou um espelho para outras mulheres. Para ela, assim como Rosa Mota foi seu ídolo e inspiração, hoje ela serve de motivação para muitos, e isso é algo inestimável. Sua trajetória foi eternizada com o batismo do centro olímpico de Sertãozinho, no interior paulista, com seu nome. A atleta e personal trainer Martha Maria Dallari observa que Zeferina representa a “imagem do possível” e a acessibilidade do atleta de corrida de rua, que “divide o chão” com o público, gerando uma forte identificação. Ela destaca que Zeferina, sendo uma mulher brasileira, extremamente acessível e com uma história de vida difícil antes de se tornar atleta, humaniza a figura do vencedor.
No ranking dos maiores vencedores, a portuguesa Rosa Mota detém o recorde absoluto com seis vitórias consecutivas nos anos 1980. Em seguida, vem o queniano Paul Tergat, com cinco títulos. Entre os brasileiros, Marilson Gomes dos Santos lidera com três vitórias. Desde a internacionalização em 1945, atletas brasileiros acumularam 16 vitórias na prova: 11 masculinas e 5 femininas. A última vitória masculina foi com Marilson em 2010, e a feminina com Lucélia Peres em 2006. Marilson descreve a São Silvestre como “a prova da minha vida”, destacando a energia contagiante de correr em casa com o apoio da multidão e a torcida em todo o país. Para ele, é uma prova que qualquer atleta sério quer vencer e para a qual deve se preparar como se fosse o evento mais importante da carreira.
A Prova Democrática e o Futuro da Tradição
A Corrida de São Silvestre é, em sua essência, uma prova democrática, aberta a um vasto espectro de participantes. O evento conta com largadas especiais para diversas categorias, incluindo corredores de elite (feminino e masculino), cadeirantes, outros atletas com deficiência (PCDs) e um grande número de atletas amadores. Essa estrutura de largada em “ondas” permite que todos vivenciem a prova de forma organizada e segura. Conforme detalha o diretor da corrida, a organização é meticulosa: a prova começa às 7h25 com os PCDs e cadeirantes de alta performance, seguida às 7h40 pela elite feminina, composta por atletas de ponta de diversos países. Às 8h05, a elite masculina larga em dois pelotões, A e B, conforme o nível técnico, com os mais rápidos à frente, e depois, os outros pelotões para o público em geral. Além da prova principal, há também a “São Silvestrinha”, uma edição especial realizada em outro dia, no Centro Olímpico do Ibirapuera, dedicada à participação de crianças e adolescentes, promovendo o esporte desde cedo.
Essa diversidade e inclusão são pilares fundamentais que consolidam a São Silvestre como uma das competições esportivas mais acessíveis e queridas do país. O diretor da corrida enfatiza que a São Silvestre é uma das competições esportivas e de entretenimento mais democráticas, pois nem todos participam para competir, mas sim para realizar objetivos pessoais, quebrar suas próprias marcas ou simplesmente encontrar amigos e celebrar o ano novo. Cada participante vem com seu próprio plano e é sempre bem recebido.
A atleta e personal trainer Martha Maria Dallari complementa que a força da São Silvestre reside precisamente nessas histórias e nas pessoas que resolvem correr, desafiar-se e celebrar o ano novo. Outro aspecto crucial é a capacidade da corrida de rua de reconectar as pessoas com o espaço público e a história da cidade. Segundo ela, ao correr a São Silvestre, os participantes percorrem alguns dos lugares mais bonitos ou marcantes da cidade, o que se torna uma forma de se conectar com a história e os pontos históricos de São Paulo. A centésima edição da Corrida de São Silvestre não é apenas um marco numérico; é uma celebração da resiliência, da paixão pelo esporte e da capacidade de uma tradição se reinventar e continuar a tocar vidas, prometendo um futuro vibrante para esta icônica prova paulistana, que continua a inspirar e a ser um elo entre o esporte e a cultura brasileira.

