A região do Oriente Médio observa com atenção o significativo aumento da presença militar dos Estados Unidos, notadamente com o deslocamento de um porta-aviões e outros navios de guerra para as proximidades do Irã. Esta escalada acontece em um momento delicado, às vésperas de uma segunda rodada de negociações entre autoridades americanas e iranianas na Suíça, onde Washington busca pressionar Teerã sobre seu programa militar e a recente repressão a manifestantes. A confirmação da movimentação de importantes ativos militares, como o porta-aviões USS Abraham Lincoln, sinaliza uma intensificação das tensões e um complexo pano de fundo para os esforços diplomáticos.

A Escalada Naval e Aérea dos EUA no Golfo

O porta-aviões americano USS Abraham Lincoln, que lidera um poderoso grupo de ataque, foi recentemente confirmado em águas próximas ao Irã. Este gigante dos mares transporta 90 aeronaves, incluindo caças F-35 de última geração, e uma tripulação de 5.680 pessoas, sendo acompanhado por três destróieres de mísseis guiados. Embora tenha entrado na região do Golfo no final de janeiro, sua localização precisa, a cerca de 700 km da costa de Omã, foi confirmada por imagens de satélite apenas agora, após um período de cobertura limitada em mar aberto. Este deslocamento faz parte de um reforço mais amplo, que pode incluir a futura chegada do USS Gerald R. Ford, o maior navio de guerra do mundo, à mesma região nas próximas três semanas, solidificando a demonstração de força americana.

O Rastreamento Detalhado da Frota Americana

A equipe de checagem de dados da BBC Verify tem monitorado ativamente a presença militar dos EUA, registrando um aumento notável de destróieres, navios de combate e caças na região. Imagens publicamente disponíveis de satélites europeus Sentinel-2 foram cruciais para confirmar a localização do Abraham Lincoln no Mar Arábico. Ao todo, doze embarcações americanas foram rastreadas: além do grupo de ataque do Abraham Lincoln (que inclui o porta-aviões nuclear da classe Nimitz e três destróieres da classe Arleigh Burke), foram identificados dois destróieres adicionais capazes de ataques com mísseis de longo alcance e três navios especializados em combate próximo à costa, atualmente baseados no Bahrein, no Golfo Pérsico. Outras unidades militares incluem dois destróieres no Mediterrâneo Oriental, perto da base de Suda Bay, e mais um no Mar Vermelho. No ar, a BBC Verify também notou uma elevação no número de caças F-15 e EA-18 estacionados na base militar de Muwaffaq Salti, na Jordânia, e um incremento no fluxo de aviões de carga, reabastecimento e comunicação vindos dos EUA e da Europa.

Negociações Delicadas Sob Pressão Militar

A intensificação da presença militar americana ocorre em um momento diplomático tenso. A segunda rodada de negociações na Suíça nesta terça-feira, 17 de fevereiro, reúne autoridades dos EUA e do Irã com agendas distintas. Teerã afirma que o foco principal será seu programa nuclear e a possível suspensão das sanções econômicas impostas pelos EUA. Washington, por sua vez, indicou o desejo de discutir uma gama mais ampla de questões, incluindo o programa militar iraniano e a recente repressão violenta a protestos. A simultaneidade entre a robusta demonstração de poderio militar e os esforços diplomáticos ressalta a complexidade e a delicadeza das relações entre os dois países, com os EUA utilizando sua força como ferramenta de pressão nas discussões.

A Contra-Demonstração de Força do Irã e o Estreito Estratégico

Em resposta ao que foi percebido como uma demonstração de poderio militar americano – evidenciada por imagens divulgadas pelo Comando Central dos EUA do grupo de ataque do Abraham Lincoln em 6 de fevereiro – o Irã realizou sua própria exibição de força. Na segunda-feira, 16 de fevereiro, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) lançou um exercício marítimo no estratégico Estreito de Ormuz. O comandante da Guarda, major Mohammad Pakpour, inspecionou navios de guerra e acompanhou o lançamento de mísseis a partir de embarcações, conforme noticiado pela agência Tasnim, ligada à IRGC. Este estreito, que separa Omã do Irã, é um dos pontos mais cruciais para o trânsito marítimo global, por onde flui cerca de um quinto do petróleo e gás mundial, incluindo o produto da Ilha de Kharg, o principal terminal de exportação de petróleo do Irã. A escolha do local para o exercício sublinha a capacidade iraniana de influenciar uma rota vital para a economia global.

Implicações e Perspectivas no Cenário Regional

A confluência de uma forte mobilização militar e negociações diplomáticas de alto risco cria um cenário de tensão elevada no Oriente Médio. O especialista em inteligência militar Justin Crump observa que os preparativos militares atuais dos EUA demonstram uma “maior profundidade e sustentabilidade” em comparação com manobras anteriores, como as que antecederam a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro. Este posicionamento reforçado sugere uma estratégia de longo prazo, exercendo pressão contínua sobre o Irã. A região permanece um ponto focal de instabilidade, onde a delicada dança entre dissuasão militar e diálogo diplomático definirá os próximos capítulos da complexa relação entre Estados Unidos e Irã.

Fonte: https://g1.globo.com

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