A madrugada de segunda-feira (16) foi palco de uma tragédia na Rodovia Transbrasiliana (BR-153), no interior de São Paulo, que chocou o país e revelou uma série de falhas e imprudências. Um ônibus que transportava dezenas de trabalhadores rurais do Maranhão para Santa Catarina tombou no trecho entre Ocauçu e Marília, resultando na morte de sete pessoas e deixando 45 feridos. As investigações preliminares apontam para uma viagem marcada por condições veiculares precárias e completa ausência de autorização legal, levantando sérias questões sobre a segurança no transporte de mão de obra rural.

O Acidente e o Luto de uma Viagem Interrompida

O sinistro ocorreu nas primeiras horas da segunda-feira, quando o coletivo, com destino à colheita de maçãs no sul do país, saiu da pista e tombou na altura do km 259. A gravidade do impacto foi imediata, com seis óbitos confirmados no local. A triste contagem subiu para sete na tarde de terça-feira (17), com a morte de uma sétima vítima que estava internada em estado grave. Entre os falecidos, seis foram identificados como Edilson Da Silva Lima (42), Robson Rodrigues Alexandrino (25), Gonçalo Lisboa Dos Santos (33), Antônio Da Silva Nascimento (47), José Milton Ribeiro Reis (49) e Raimundo Nonato Sousa da Silva (41). Os corpos das vítimas foram posteriormente encaminhados ao Maranhão para os ritos fúnebres, com apoio da Defesa Civil do estado.

Além das perdas fatais, o acidente deixou 45 feridos, que foram prontamente socorridos por equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), Corpo de Bombeiros e concessionária da via. Os sobreviventes foram distribuídos entre diversas unidades de saúde em Marília, incluindo o Hospital das Clínicas, Santa Casa, Hospital da Unimar, Hospital Materno-Infantil e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) Norte e Sul. O boletim médico do Hospital das Clínicas indicou cinco pacientes em estado grave, além de duas crianças, de 4 e 13 anos, em condição estável no Hospital Materno-Infantil.

Falhas Mecânicas e Ilegalidades na Estrada

A investigação conduzida pela delegada Renata Yumi revelou um cenário alarmante de irregularidades que precederam a tragédia. Um dos pontos cruciais é a condição dos pneus: o ônibus trafegava com um dos eixos sem um pneu, que teria sido retirado pelo próprio motorista após um estouro anterior, antes mesmo de o veículo ingressar no estado de São Paulo. A decisão de prosseguir viagem nessas circunstâncias comprometeu severamente a estabilidade do coletivo, culminando no estouro de outro pneu e na consequente perda de controle da direção, que levou o veículo a sair da pista.

Testemunhos de sobreviventes e a perícia técnica confirmaram que o veículo apresentava outras deficiências críticas de segurança. Muitos passageiros relataram a inexistência de cintos de segurança, e a inspeção técnica constatou pneus carecas e um farol queimado. Adicionalmente, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) não havia concedido autorização para realizar fretamento interestadual, o que caracteriza a viagem de mais de 3 mil quilômetros, originária da região norte do Maranhão, como totalmente irregular. A empresa de transporte, sediada no Maranhão, está sob investigação para apurar sua responsabilidade pelas irregularidades e pela precariedade do veículo.

Motorista Preso e a Busca por Responsabilidades

Diante das evidências, o motorista do ônibus, Claudemir Moraes Moura, foi preso em flagrante. Ele está sendo investigado pelos crimes de homicídio e lesão corporal na direção de veículo automotor. O condutor também se feriu no acidente e, no momento, encontra-se internado no Hospital das Clínicas sob escolta policial, aguardando alta médica para a audiência de custódia. Um segundo motorista, que fazia revezamento devido à longa distância da viagem, também estava a bordo.

A delegada Renata Yumi enfatizou que, ao decidir continuar a jornada com as condições precárias do veículo, o motorista assumiu o risco iminente de provocar um acidente de grandes proporções. A investigação agora se aprofundará não apenas na conduta do motorista, mas também na responsabilidade da empresa transportadora, que poderá ser responsabilizada pelas irregularidades e pela precariedade do veículo que ceifou vidas e causou sofrimento a dezenas de famílias de trabalhadores rurais, que buscavam oportunidades de emprego em outro estado. A apuração da autorização para a viagem e outras responsabilidades da empresa serão detalhadas no inquérito policial.

A tragédia na BR-153 expõe a face mais cruel do transporte clandestino e da negligência com a segurança, especialmente no deslocamento de trabalhadores que buscam melhores condições de vida. As mortes e os ferimentos dos trabalhadores rurais do Maranhão servem como um doloroso lembrete da urgência em fiscalizar e coibir práticas que colocam vidas em risco por economia ou desrespeito à lei. O inquérito policial segue em curso, com a promessa de esclarecer todas as responsabilidades e assegurar que a justiça seja feita para as vítimas e suas famílias, bem como de prevenir que episódios tão lamentáveis se repitam.

Fonte: https://g1.globo.com

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