O cenário da violência contra crianças e adolescentes no Brasil apresentou um agravamento preocupante em 2025, conforme revela a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Os dados apontam para um aumento expressivo em diversas categorias de agressões e crimes, com destaque para o crescimento alarmante de bullying e ciberbullying, que registraram saltos superiores a 60% em relação ao ano anterior. Além disso, indicadores de maus-tratos, violência doméstica e crimes de abuso sexual infantil na internet também mostraram uma escalada, pintando um quadro desafiador para a segurança e o bem-estar da população infanto-juvenil no país.

Aumento Exponencial de Bullying e Ciberbullying

Os registros de bullying e ciberbullying contra crianças e adolescentes tiveram um crescimento notável em 2025. O Anuário detalha que os casos de bullying aumentaram 68,2% em comparação com 2024, totalizando 4.549 ocorrências. Paralelamente, o ciberbullying registrou um acréscimo de 61,4%, alcançando 677 casos. A intensificação na visibilidade desses crimes é, em parte, atribuída à consolidação da Lei nº 14.811/2024, que tipificou criminalmente ambas as condutas, possivelmente incentivando mais denúncias e registros.

O levantamento oferece um perfil das vítimas dessas agressões. No bullying, 48% das vítimas tinham entre 10 e 13 anos, e 45% estavam na faixa etária de 14 a 17 anos. Já no ciberbullying, a incidência foi maior entre adolescentes, com 57% das vítimas entre 14 e 17 anos, e 42% entre 10 e 13 anos. O bullying, caracterizado por agressões físicas, verbais ou psicológicas repetidas no ambiente escolar, e o ciberbullying, que utiliza meios digitais, representam graves ameaças ao desenvolvimento e à saúde mental de jovens.

Escalada da Violência no Âmbito Doméstico

O lar, que deveria ser um porto seguro, concentrou uma parcela significativa do aumento da violência contra crianças e adolescentes. Em 2025, o Brasil registrou 38.986 ocorrências de maus-tratos, o que representa um aumento de 14,6% em relação ao ano anterior. Comparativamente a 2021, o crescimento é ainda mais alarmante, atingindo 106,1%. As crianças menores foram as principais vítimas desses casos, com 59,1% das ocorrências envolvendo indivíduos de até 9 anos. O aumento foi percebido em todas as faixas etárias, com variações de 16,3% (0 a 4 anos) a 17,2% (14 a 17 anos).

Outros Indicadores de Violência Familiar

Além dos maus-tratos, o Anuário também ressalta o crescimento de outros crimes no ambiente familiar. As ocorrências de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes subiram 5,5%, somando 21.811 registros. O abandono de incapaz teve um aumento de 18,5%, chegando a 14.815 casos. Por fim, as subtrações de crianças e adolescentes também mostraram uma alta de 33,7%, com 1.866 registros, evidenciando a complexidade e a diversidade das violações ocorridas dentro do círculo familiar.

Crescimento Preocupante do Abuso Sexual Online

Outro dado que acende um alerta é o aumento dos crimes relacionados à produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil na internet. Em 2025, foram registrados 4.063 casos, um aumento de 25,3% em relação a 2024 e um salto impressionante de 176,7% na comparação com 2021. Este cenário digital amplia os riscos aos quais crianças e adolescentes estão expostos.

A análise das vítimas desses crimes revela que 84,2% eram do sexo feminino e 15,8% do sexo masculino. Quanto à raça ou cor, 51,2% eram brancas e 48,2% negras. A maior concentração de vítimas ocorreu entre adolescentes, com 30% na faixa de 14 a 15 anos e 26,8% entre 12 e 13 anos. O perfil dos agressores também é relevante: nos casos em que houve identificação, 86,5% eram homens, e 34,2% eram adolescentes, indicando a participação de jovens também na autoria desses delitos.

Estupros Recuam, Mas Continuam Vitimando Jovens

Em contraste com a maioria dos indicadores de violência, o número de registros de estupro e estupro de vulnerável contra crianças e adolescentes apresentou uma leve redução de 5,5% em relação a 2024, totalizando 61.076 vítimas em 2025. Apesar da queda, o Anuário reitera que crianças e adolescentes permanecem como as principais vítimas desse tipo de crime no Brasil, constituindo 76,6% de todos os estupros registrados.

Dentro desse grupo vulnerável, os casos de estupro de vulnerável, que envolvem vítimas com menos de 14 anos, representam 42,5% das ocorrências totais, sublinhando a gravidade e a recorrência desses crimes contra os mais jovens e indefesos da sociedade.

Reflexões Sobre a Visibilidade da Violência

Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o aumento nos registros de crimes não letais pode ser interpretado de duas maneiras complementares: por um lado, indica o fortalecimento dos mecanismos de denúncia e a maior capacidade das instituições públicas em identificar as violências; por outro, reflete a persistência de práticas de agressão e negligência nas relações familiares e de cuidado. A visibilidade crescente desses dados, embora alarmante, também sugere uma mudança na percepção social. O Anuário conclui que 'a visibilidade da violência cresce justamente porque ela continua presente, mas também porque se fortalece a intolerância social diante de violações historicamente banalizadas', um chamado à reflexão sobre a responsabilidade coletiva na proteção das futuras gerações.

Fonte: https://jovempan.com.br

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