Uma pesquisa inovadora, utilizando fósseis do acervo do Museu de Paleontologia de Monte Alto, em São Paulo, e publicada na prestigiosa revista científica *Proceedings of the Royal Society B*, trouxe à tona uma descoberta fundamental sobre a evolução dos crocodiliformes. O estudo revela que os crânios dos crocodilos modernos são até cinco vezes mais frágeis quando comparados aos de seus ancestrais, que habitavam ambientes predominantemente terrestres. Esta constatação fortalece hipóteses de longa data sobre um complexo intercâmbio evolutivo entre a força da mordida e as adaptações para a vida aquática, moldando de maneira drástica as formas cranianas desses répteis ao longo das eras.
A colaboração científica reuniu paleontólogos da Universidade de Bristol e da Universidade de Hull, ambas no Reino Unido, em conjunto com pesquisadores brasileiros. "Esta descoberta amplia significativamente o conhecimento sobre a evolução dos crânios de crocodilos ao longo do tempo geológico", afirmou a paleontóloga Sandra Tavares, que também é diretora do museu em Monte Alto e coautora da pesquisa.
A Adaptação: De Predadores Terrestres a Senhores Aquáticos
O processo evolutivo que levou os crocodilos a se tornarem semiaquáticos resultou em transformações anatômicas notáveis, particularmente na estrutura craniana. Enquanto os ancestrais eram adaptados para a caça em terra, com crânios mais robustos e de formato abobadado (oreinirostral), os crocodilos atuais desenvolveram crânios mais achatados e largos (platirostral), ideais para a agilidade e a emboscada em ambientes aquáticos. Essa 'perda' de força estrutural não é um retrocesso, mas sim uma especialização que permitiu uma adaptação eficaz a diferentes tipos de alimentação, conforme o ambiente em que vivem.
Essa mudança morfológica é um testemunho da pressão seletiva ambiental, que direcionou a evolução dessas linhagens para nichos específicos. A arquitetura de cúpula dos crânios ancestrais oferecia uma versatilidade alimentar maior, permitindo-lhes explorar uma variedade de recursos, enquanto o crânio achatado dos modernos otimiza a eficiência hidrodinâmica e a mordida direcionada a presas aquáticas, mas com uma resistência estrutural comprometida.
Reconstruindo o Passado com Tecnologia Digital
Para alcançar os resultados, os pesquisadores compararam seis crânios de crocodiliformes: três espécies extintas que viveram no período Cretáceo na Bacia Bauru, região de Monte Alto, Brasil, e três espécies modernas. Os exemplares fósseis incluíram *Baurusuchus salgadoensis*, *Montealtosuchus arrudacamposi* e *Caipirasuchus paulistanus*. Entre os modernos, foram analisados crânios de *Crocodylus niloticus*, *Alligator mississippiensis* e *Paleosuchus palpebrosus*. Os crânios das espécies extintas exibiam a forma de cúpula característica de ambientes terrestres, contrastando com os crânios achatados dos crocodilos contemporâneos.
A metodologia empregada envolveu a utilização de imagens de tomografia computadorizada para criar reconstruções digitais detalhadas dos crânios e da musculatura da mandíbula. Essa abordagem permitiu aos cientistas aplicar simulações de engenharia, conhecidas como Análise de Elementos Finitos (FEA). Essa técnica de ponta possibilitou a comparação precisa das diferenças estruturais e funcionais dos crânios sob estresse durante o desempenho alimentar, revelando como cada formato de crânio se comportava mecanicamente durante a mordida.
A Análise de Elementos Finitos: Um Salto na Paleontologia
A Análise de Elementos Finitos (FEA) provou ser uma ferramenta revolucionária para a paleontologia, permitindo ir além das especulações sobre os hábitos e capacidades dos crocodilos pré-históricos. Segundo Fabiano Iori, outro paleontólogo participante do estudo, essa metodologia oferece uma compreensão concreta de como as espécies fósseis realmente funcionavam. O processo envolve a geração de modelos 3D dos crânios, que são então divididos virtualmente em inúmeros polígonos. Um software especializado analisa esses polígonos, considerando os pontos de articulação crânio-mandíbula e a ação dos músculos mastigatórios.
Essa abordagem computacional simula as forças e tensões que os crânios experimentavam em vida, validando ou refutando hipóteses que antes dependiam da imaginação dos pesquisadores. Ao quantificar o estresse mecânico e a eficácia da mordida, a FEA oferece dados objetivos que desvendam aspectos cruciais da biomecânica e do comportamento alimentar de criaturas extintas, proporcionando respostas para muitas das curiosidades sobre sua biologia.
Revelando a Especialização dos Crocodiliformes Brasileiros Antigos
A pesquisa não apenas traçou uma linha evolutiva geral, mas também aprofundou o conhecimento sobre espécies brasileiras específicas. Fabiano Iori destacou a importância de analisar a performance mecânica em linhagens evolutivas e correlacionar esses mecanismos em grupos distintos, apontando para a pressão ambiental como um motor da evolução. Particularmente, o estudo demonstrou que os crocodiliformes carnívoros *Baurusuchus salgadoensis* e *Montealtosuchus arrudacamposi*, assim como o herbívoro/onívoro *Caipirasuchus paulistanus*, possuíam mordidas extremamente eficazes, associadas a um baixíssimo estresse mecânico em seus crânios.
Essa característica indica um alto grau de especialização alimentar e biomecânica para cada uma dessas espécies brasileiras. Os dados coletados não só fornecem uma visão detalhada das adaptações dessas criaturas pré-históricas, mas também contribuem significativamente para a compreensão dos aspectos evolutivos dentro da ampla linhagem dos crocodiliformes, enriquecendo o panorama da biodiversidade antiga do Brasil e suas complexas interações ecológicas.
Em suma, o estudo oferece uma perspectiva sem precedentes sobre a evolução dos crocodilos, demonstrando como a forma do crânio se adaptou a diferentes estilos de vida e pressões ambientais ao longo de milhões de anos. A combinação de fósseis valiosos com simulações de engenharia de ponta permitiu desvendar os segredos da biomecânica craniana, reforçando a ideia de que a evolução é um processo contínuo de compromissos e otimizações, que molda a vida de maneiras fascinantes.
Fonte: https://g1.globo.com

