A cidade de Artur Nogueira, no interior de São Paulo, foi palco de um brutal feminicídio na última sexta-feira (30), que chocou a comunidade local. Naiara de Souza Lopes, uma babá de 33 anos, foi morta a facadas por seu ex-marido, Ricardo Machado de Souza, atualmente foragido e procurado pela Polícia Civil como principal suspeito. A tragédia ganha contornos ainda mais dramáticos com a revelação de que, apenas dez dias antes do crime, Naiara havia desabafado com sua prima, Alecinete Antunes, sobre a rotina de agressões e o inferno que vivia em seu relacionamento.

A Transformação de Naiara: Do Sorriso ao Isolamento

Segundo o relato de Alecinete Antunes, Naiara era uma mulher naturalmente alegre e expansiva, conhecida por seu sorriso e por frequentar a casa dos familiares com frequência. No entanto, ao longo dos anos, uma mudança perceptível a transformou em uma pessoa reclusa e isolada. Ela praticamente só saía para trabalhar, deixou de visitar a mãe e outros familiares e não cultivava amizades, um comportamento que, à época, intrigava a todos. A família, sem saber da gravidade da situação, não imaginava o calvário que Naiara enfrentava em seu lar, por trás da fachada de normalidade que ela tentava manter.

O Desabafo Revelador e a Violência Silenciada

A verdade sobre a rotina de violência que Naiara sofria veio à tona há pouco mais de uma semana do assassinato, quando a prima Alecinete a visitou a pedido da mãe da vítima, preocupada com a falta de contato telefônico. Ao chegar à residência, Alecinete encontrou Naiara deitada no quarto com o filho caçula, de apenas 3 anos. Nesse encontro íntimo, a babá finalmente desabafou, revelando um histórico de agressões físicas e psicológicas. Ela relatou ter sido espancada pelo ex-marido após uma discussão e descreveu outras situações vividas durante os 17 anos de relacionamento. Chegou a confidenciar que evitava visitar a mãe por dias para que os hematomas em seu corpo não fossem percebidos, e que durante os ataques, não gritava para não alarmar os vizinhos, devido às constantes ameaças de Ricardo.

O Fim do Relacionamento e a Repulsa Irreversível

Apesar de 17 anos juntos e dois filhos – um adolescente de 15 anos e o caçula de 3 –, o casal havia se separado há aproximadamente um mês. Alecinete contou que Naiara nutria um profundo 'nojo' do ex-marido, a ponto de não conseguir mais dormir na mesma cama que ele e se sentir assediada com qualquer toque. A vítima chegou a tentar a separação anteriormente, antes mesmo do nascimento do filho mais novo, após descobrir uma traição de Ricardo. No entanto, ele sempre reagia de forma violenta, não aceitando o fim do relacionamento e impedindo a partida de Naiara, evidenciando um padrão de controle e agressão que culminou na tragédia. No momento do assassinato, o filho mais velho estava na casa dos avós paternos, enquanto o caçula, infelizmente, presenciou o crime.

Suspeita de Premeditação no Ataque Final

O feminicídio ocorreu no sobrado onde o ex-casal vivia, na Rua Alcindo Bôer, bairro Sacilotto. A polícia informou que, na tarde do dia do crime, Naiara e Ricardo tiveram uma briga, mas ela saiu para trabalhar. Ao retornar à noite, acompanhada do filho de 3 anos, foi surpreendida pelo ex-marido. O delegado Odair José Jaeger, responsável pelo caso, aponta para a forte hipótese de que o assassinato foi premeditado. Ele detalhou que, desde que as conversas sobre separação surgiram em dezembro, Ricardo passou a frequentar menos Artur Nogueira, tendo familiares em Campinas. No dia do crime, ele esteve no imóvel durante o dia, depredou pertences da vítima e, clandestinamente, removeu as câmeras de segurança antes de se esconder. Ao anoitecer, quando Naiara chegou, pulando o muro e usando a chave para entrar, encontrou o agressor à sua espera. Apesar do histórico de agressões relatado à família, a vítima nunca havia registrado uma denúncia formal contra o suspeito, que também não possuía passagens pela polícia antes deste crime hediondo.

A Polícia Civil segue em busca de Ricardo Machado de Souza. O caso de Naiara de Souza Lopes é um triste lembrete da urgência em combater a violência doméstica e feminicídio, e da importância de que vítimas e suas redes de apoio busquem ajuda e denunciem, antes que a violência silenciosa culmine em tragédias irreversíveis.

Fonte: https://g1.globo.com

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