A Justiça Militar de São Paulo iniciou, nesta terça-feira (15), um julgamento de grande repercussão que coloca um capitão e um cabo da Polícia Militar no banco dos réus pela morte do sargento Rullian Ricardo da Silva. O trágico incidente, ocorrido em abril de 2023 dentro de um quartel na capital paulista, seguiu-se a uma acalorada discussão sobre escalas de trabalho. Este processo judicial busca lançar luz sobre as circunstâncias da morte do sargento, que estava há 17 anos na corporação e teve seus planos de vida bruscamente interrompidos.

O Processo na 4ª Auditoria Militar

O palco deste importante julgamento é a 4ª Auditoria Militar, onde o caso começou a ser analisado às 14h. Os acusados, capitão Francisco Laroca e cabo Fabiano Rizzo, enfrentam a denúncia por homicídio qualificado. A acusação aponta que o crime foi cometido mediante surpresa, utilizando-se de recurso que dificultou a defesa da vítima, e valendo-se da condição de militares em serviço para a execução, além de fraude processual. O Conselho Especial de Justiça (CEJ) encarregado de proferir a sentença é composto por um tenente e três majores da própria Polícia Militar, garantindo que a análise ocorra por pares na esfera militar. As defesas dos dois policiais, por sua vez, sustentam a tese de que agiram em legítima defesa.

A Origem do Conflito: Uma Escala de Trabalho e Planos Interrompidos

O sargento Rullian Ricardo da Silva, natural de Franca (SP), dedicou 17 anos à Polícia Militar. Em abril de 2023, ele celebrava um ano de sua promoção a sargento e a realização do sonho de residir em São Paulo. Contudo, essa nova fase era obscurecida por uma crescente insatisfação com a desorganização das escalas de trabalho na corporação, conforme desabafou em áudios compartilhados com amigos. O estopim para o conflito ocorreu no feriado da Páscoa de 2023, quando Rullian, que deveria estar de folga e tinha planos de visitar sua família, foi comunicado de última hora pelo capitão Francisco Laroca sobre a necessidade de assumir um plantão. Essa alteração inesperada culminou em uma acalorada discussão no alojamento da PM, em 6 de abril, que precedeu os disparos fatais.

A Dinâmica dos Fatos e as Contestações da Família

De acordo com a versão inicialmente divulgada pelo Comando da PM, a discussão teria escalado ao ponto de Rullian supostamente ter sacado uma arma. Em resposta, o capitão Laroca, também armado, teria efetuado três disparos em legítima defesa. O cabo Fabiano Rizzo, motorista do capitão, também teria disparado uma vez contra o sargento. Rullian foi atingido no pescoço e tórax, vindo a óbito dentro do alojamento. As armas dos três envolvidos foram apreendidas para investigação.

Desde o início, a família do sargento Rullian contestou veementemente a narrativa de que ele teria apontado uma arma, levantando sérias dúvidas sobre a alegação de legítima defesa. Imagens cruciais, capturadas por uma câmera acoplada à farda de um policial que atendeu a ocorrência, trouxeram novos elementos para a investigação. O vídeo registrou o capitão Laroca justificando-se, alegando que Rullian teria agido com grosseria ao confrontar uma colega. O sargento foi encontrado baleado, deitado e envolto em uma coberta em uma cama de beliche, e uma arma — um revólver calibre .32 — foi removida debaixo da coberta junto a ele. A filmagem também revelou que o capitão Laroca não demonstrou abalo significativo após o ocorrido. A advogada da família da vítima, Pâmela Stradioti, reforça que a tese da legítima defesa defendida pelos acusados carece de respaldo nas provas da investigação realizada ao longo de três anos, fortalecendo a convicção da acusação.

O julgamento de Laroca e Rizzo na Justiça Militar é um marco crucial na busca por justiça para a morte do sargento Rullian Ricardo da Silva. Com as diferentes versões apresentadas e as evidências emergentes, especialmente as imagens da câmera de farda, o processo promete ser minucioso na elucidação dos fatos. A decisão do Conselho Especial de Justiça será fundamental para determinar as responsabilidades neste caso que chocou a corporação e a sociedade, e para dar uma resposta à família do sargento que, há mais de um ano, clama por clareza e punição aos culpados.

Fonte: https://g1.globo.com

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