A vida de um ídolo do futebol, frequentemente marcada por aplausos e troféus, nem sempre é um caminho linear. Juary Jorge dos Santos Filho, um ex-atacante de 67 anos com um currículo invejável que inclui títulos da UEFA Champions League, do Mundial de Clubes e do Campeonato Paulista, encontrou um novo propósito e uma forma de combater a depressão na Baixada Santista: tornar-se motorista de aplicativo. Sua história é um testemunho de resiliência, mostrando que as batalhas mais importantes, por vezes, acontecem fora dos gramados e exigem uma coragem diferente daquela vista em finais continentais.

A Nova Rotina no Litoral Paulista

Após uma carreira futebolística que o levou aos mais altos palcos do esporte mundial, Juary iniciou sua jornada como motorista de aplicativo há aproximadamente dois meses, uma decisão sugerida por sua esposa e filhos. Ele descobriu na direção uma paixão e, mais importante, uma ferramenta eficaz no tratamento de sua depressão. O trabalho, que ele realiza de segunda a sábado, o mantém ativo e engajado, trazendo ânimo à sua rotina.

"Com 67 anos, as opções são poucas, mas eu gosto muito de dirigir e acabei cedendo à vontade deles. Agora, quem não quer mais abandonar sou eu", revelou Juary, destacando a satisfação encontrada na nova função. As interações diárias com passageiros transformaram seu veículo em um "consultório em quatro rodas", onde se conversa sobre os mais diversos assuntos, proporcionando um valioso intercâmbio humano. Não raro, ele é reconhecido por fãs do futebol, que se emocionam ao cruzar com o ídolo em uma circunstância tão inesperada. A simples rotina de levar a esposa ao trabalho e, em seguida, iniciar suas próprias corridas, tem sido suficiente para restaurar seu ânimo e preencher seus dias com propósito.

A Batalha Silenciosa Contra a Depressão

O ímpeto para essa nova fase da vida surgiu de um período desafiador, no qual Juary enfrentou os primeiros sintomas da depressão. Após decidir dedicar mais tempo à família, distanciando-se de suas últimas atuações no futebol, ele percebeu uma perda progressiva de energia e interesse pelas atividades cotidianas. "Quando dei conta, já não tinha força para fazer mais nada. Levantava da cama às 10h da manhã, ia para o sofá na frente da televisão, e só saía dali por volta das 3h da manhã. Não tinha vontade para nada e não queria ver ninguém. Só queria ficar sozinho", desabafou o ex-atleta, descrevendo o isolamento e a inércia que a doença impôs.

Entendendo a Condição: A Depressão

A depressão é reconhecida como um transtorno de humor complexo, que afeta profundamente o bem-estar psicológico e físico de um indivíduo. Vai além da tristeza comum, impactando pensamentos, sentimentos e até mesmo o funcionamento do corpo. Segundo especialistas, ela se manifesta quando a função do humor, que colore as percepções e afetos, adoece. Os critérios centrais para seu diagnóstico incluem um humor persistentemente triste e a anedonia, que é a diminuição ou ausência de prazer em atividades antes consideradas agradáveis. Além disso, a condição pode ser acompanhada por alterações significativas no sono e no apetite, fadiga constante, dificuldade de concentração, problemas de memória, sentimentos de culpa e baixa autoestima, e uma sensação de desesperança em relação ao futuro. Fatores genéticos, bioquímicos cerebrais e eventos traumáticos são apontados como as principais causas, ressaltando a natureza multifacetada da doença.

A Brilhante Carreira nos Gramados

Antes de sua atual jornada, Juary construiu uma trajetória lendária no futebol. Nascido em São João de Meriti (RJ), ele chegou a Santos (SP) aos 14 anos, ingressando nas categorias de base do Peixe e assinando seu primeiro contrato profissional ainda na juventude. No Santos Futebol Clube, Juary se eternizou como um dos "Meninos da Vila", vestindo a camisa 9 em 229 partidas e marcando impressionantes 101 gols, tornando-se o quinto maior artilheiro do clube na era pós-Pelé. Sua habilidade e carisma foram evidentes em momentos históricos, como sua participação em um amistoso de 1977 entre o New York Cosmos e o Santos, marcando a última partida profissional de Pelé. O ápice de sua passagem pelo alvinegro praiano ocorreu em 1978, quando foi um dos protagonistas na conquista do Campeonato Paulista, liderando a artilharia do time com 29 gols e celebrando-os com suas famosas dancinhas em volta da bandeirinha de escanteio.

Sua ascensão no futebol não se limitou ao Brasil. Juary levou seu talento para o exterior, atuando pelo Universidad Guadalajara no México, e em diversos clubes italianos, como Avellino, Inter de Milão, Ascoli e Cremonese. No entanto, foi no Futebol Clube do Porto, em Portugal, que ele alcançou o cume da glória europeia. Na temporada de 1986/1987, Juary marcou o gol decisivo da vitória sobre o Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões da UEFA, um feito que gravou seu nome na história do torneio. No mesmo ano, ele complementaria sua coleção de títulos conquistando o Mundial de Clubes, superando o Peñarol do Uruguai, solidificando sua reputação como um atacante de destaque global.

A história de Juary Jorge dos Santos Filho, um campeão com um passado glorioso nos gramados, ressoa como um poderoso lembrete de que a vida continua a apresentar desafios, independentemente do sucesso alcançado. Sua decisão de abraçar uma nova profissão para enfrentar a depressão não é apenas um ato de coragem pessoal, mas também um exemplo inspirador de como a busca por propósito e o engajamento social podem ser ferramentas valiosas no tratamento de condições de saúde mental. Da efervescência dos estádios europeus às conversas diárias no banco de um carro de aplicativo, Juary demonstra que a verdadeira vitória reside na capacidade de se reinventar, encontrar alegria em novas experiências e, acima de tudo, priorizar o próprio bem-estar, mantendo a chama da vida acesa. Sua jornada é um testemunho da resiliência humana e da importância de desmistificar e combater a depressão, um passo por vez, uma corrida por corrida.

Fonte: https://g1.globo.com

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